PENSAMENTO PLURAL A falência das artesanias, por Durval Leal Filho

Em seu comentário, o cineasta Durval Leal Filho faz uma avaliação crítica em relação ao desenvolvimento do artesanato na Paraíba. “Desenvolvimento local sustentável não se constrói apenas com ativos culturais e produtivos, constrói-se com coragem institucional para revisar rotas. Rever não é retroceder”, diz e sustenta quanto à necessidade de se continuar projetos e iniciativas bem sucedidas, e não apenas iniciar outras. Confira íntegra...

Há um erro recorrente quando se fala em Desenvolvimento Local Sustentável: a pressa em planejar o futuro sem a coragem de revisar o passado. Planeja-se como quem inaugura obra, não como quem avalia processos e só faz eventos.

A crônica institucional se repete, sem avaliação séria, o erro vira tradição.

No âmbito do desenvolvimento do artesanato o fim está se aproximando e não é previsão trágica, é uma verdade a ser observada pelos visitantes do 41º Salão de Artesanato da Paraíba.

Vou explicar detalhadamente: inexistem jovens aprendizes, a faixa etária entre 45 a 65 anos dos artesãos, projeta a falência das atividades para os próximos 20 anos, associações continuam frágeis sem apoio financeiro, atravessadores continuam atuando entre eles como um compadrio perverso, mercados continuam desregulados, não existe comércio justo, falta Indicação de Geográfica dos produtos artesanais, e o discurso da sustentabilidade segue restrito a seminários e feiras, tornando-se absolutamente frágil o cotidiano dos artesãos.

E o irônico é que, quando alguém propõe rever o planejamento à luz do que não deu certo, uma vez que extinguiram as Oficinas Escolas de Artesanias, e os os artesãos se tornaram anciãos, pois retiraram dos mestres seus jovens aprendizes.

Assim surge o medo político da autocrítica, como se admitir falha fosse mais grave do que perpetuá-la. Mesmo assim continuam os mesmos eventos eólicos e efêmeros de promover feiras e feiras, como se tudo fosse mercado.

Foi exatamente por isso que, ainda nos anos finais da década de 1990, alguns técnicos ligados à ONG PARA’IWA e a UFPB/PRAC/COEX passaram a exercitar algo pouco praticado no Brasil: engenharia reversa social e cultural. Não para desmontar máquinas, mas para desmontar políticas públicas, peça por peça, e entender onde o sistema havia travado e o que poderia ser refeito.

A pergunta era simples e incômoda: o que deu errado, por que não funcionou e quais entraves impediram que projetos bem desenhados entregassem os impactos prometidos?

Avaliar processos não era luxo acadêmico. Era condição básica para quem imaginava trabalhar com desenvolvimento de médio e longo prazo. Afinal, desenvolvimento não é evento, é permanência. E permanência exige método, revisão e capacidade de admitir falhas sem transformar tudo em discurso defensivo.

Foi assim que se analisou o universo da Renda Renascença do Cariri, da Paraíba, e assim foi formalizado o Projeto Rendas do Cariri, tendo como princípio básico, Oficinas Escolas de Rendeiras, a proposta foi apresentado e executado pelo PARA’IWA, Coletivo de Assessoria e Documentação ao CAPA – Comissão do Programa de Assessoramento ao Artesanato Paraibano, grupo de instituições do Estado e da Sociedade Civil Organizada que iniciaram um programa de desenvolvimento da cadeia produtiva artesanal, que permaneceu de 1999 a 2003.

Ali, na principal artesania do Cariri Oriental da Paraíba havia geração de renda, ocupação, serviços, negócios, mão de obra ativa, mais de 2000 mil mulheres em atividade e identidade cultural consolidada. Em teoria, todos os componentes de primeira linha para uma cadeia produtiva sólida de arte e manufatura de alto nível de maestria estavam presentes. Em teoria, o manual estava completo.

Mas a prática, como sempre, era menos elegante. O primeiro grande entrave estava nas associações de rendeiras, muitas delas capturadas por atravessadores inseridos em sistemas de compadrio local. O resultado era perverso: trabalho artesanal de altíssimo valor cultural sendo tratado como quase trabalho escravo, com dependência absoluta de intermediários para comercialização. A renda não circulava; escorria. O discurso falava em autonomia, mas a estrutura reproduzia subordinação.

O segundo entrave era o produto. Parte significativa da Renascença estava sendo produzida com baixa qualidade, fruto da ausência de padronização, formação técnica contínua e critérios claros de excelência. Não por incapacidade das rendeiras, mas por abandono do processo formativo. Quando a política pública some, o saber se fragmenta. E, sem acompanhamento, o mercado não perdoa, apenas explora.

O terceiro problema era o mercado, direcionado a Pesqueira, no Agreste de Pernambuco, que funcionava como grande polo receptor, misturando produtos de alta e baixa qualidade em um mesmo fluxo comercial. Ali, o critério era o preço, não o valor. O produto bom sustentava o ruim, e o ruim puxava o preço para baixo. A lógica da qualidade, tão celebrada nos documentos, simplesmente não entrava na conta da comercialização real.

Essa constatação era desconfortável porque desmontava uma narrativa otimista: havia renda, havia trabalho, havia identidade, mas não havia governança. E sem governança, desenvolvimento vira repetição de precariedade com verniz institucional.

Foi nesse ponto que a engenharia reversa social mostrou sua importância: não adiantava criar projetos sem enfrentar os erros estruturais dos anteriores. Planejar sem avaliar impactos negativos é só insistir no erro com outro nome.

Esse exercício de olhar para trás partia do chamado “estado da arte”. Não no sentido retórico, mas prático. Como se encontra, naquele momento, o objeto de estudo? Quais são os objetivos reais diante de um problema concreto?

Enquanto isso, no plano mais amplo do Cariri, políticas públicas integradas haviam mostrado potencial real: a Ovinocaprinocultura com o incentivo do leite de cabra na merenda escolar, a melhoria genética dos rebanhos, a organização da atenção básica em saúde via SUS integrado, em parceria com as prefeituras, somada à capacitação técnica promovida pelo SEBRAE, com o envolvimento das universidades e das ONGs. Tudo isso produziu resultados mensuráveis em renda e indicadores sociais. Mas, como costuma acontecer, o problema não foi o início, foi a continuidade.

O Estado, sempre ele, tratou processos como projetos de mandato. Iniciou, exibiu, interrompeu. Não houve continuidade. Quando os resultados começaram a exigir manutenção, governança territorial e revisão de entraves, o interesse político já havia migrado para outra pauta, outro território, outro slogan. O que exigia dez ou vinte anos de cuidado foi abandonado em quatro.

Desenvolvimento local sustentável não se constrói apenas com ativos culturais e produtivos, constrói-se com coragem institucional para revisar rotas. Rever não é retroceder. É reconhecer que políticas públicas, como qualquer engenharia, precisam de manutenção, recalibragem e, às vezes, desmontagem parcial para funcionar melhor. Ignorar isso é apostar que o território aguenta tudo, e ele não aguenta.

E talvez o maior entrave ao desenvolvimento não esteja na falta de recursos locais, mas na insistência em planejar o novo sem encarar, com honestidade, os impactos do que não deu certo. Sem isso, qualquer política pública vira apenas mais um capítulo de uma crônica conhecida: boas intenções, resultados parciais e um futuro sempre adiado, com irresponsabilidades e descaso à vistas dos idosos.

No Cariri, sustentabilidade nunca foi moda. Sempre foi, e continuará sendo, sobrevivência.

 

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