PENSAMENTO PLURAL A Flor do Cedro – A imanência do ser, por Durval Leal Filho

Em seu terceiro artigo da série sobre Os Passos do Padre Ibiapina, o cineasta Durval Leal Filho traça um perfil histórico das pessoas que contribuíram, decisivamente, para a consolidação do projeto, e comenta sobre o filme realizado sobre o prelado.  “Nos Passos Padre Ibiapina, o projeto dos caminhos, tivemos essa sorte, estruturada por pessoas interessantes foi a conjunção perfeita de técnicos, pensadores, e um bocado de gente delirante”, destaca. Confira íntegra...

Um amigo me perguntou como foi que eu conheci a figura do padre Ibiapina. A figura de padre Ibiapina veio de um bate-papo que nós tínhamos na década de 1990, no terraço da casa de Dr. Ronald Queiroz e Dona Ilba, fiz parte em algumas ocasiões, com Adalberto Barreto, professor Ademir Melo, Dr. Raimundo Nunes e Dr. Ronald; às vezes aparecia um e outro diferente.

Eu tinha a oportunidade e a felicidade de poder estar metido nesse meio. O primeiro mentor que me colocou a figura de Ibiapina na pauta foi Ronald de Queiroz, um amigo de quintal do meu pai, que quando tinha uma ideia “muito delirante” me convidava para ser ouvinte, ele me dava essa regalia, explanava a pauta da reunião do próximo sábado, quando éramos regados com whisky e cachaça nas companhias dos amigos eu era o neófito absorvendo repertórios. Então Dr. Ronald de Queiroz colocou.

“Possivelmente Fritjof Capra se inspirou nas Casas de Caridades de Ibiapina, elas ainda renascerão, educação ecológica holística já era exercida nos quintais com hortas e pomares para alimentar e gerar ensinamentos para as meninas órfãs das casas…” Continuou. Capra foi criador e fundador do Centro de Alfabetização Ecológica em Berkeley, na Califórnia.”

Na sequência conversamos sobre Canudos, Adalberto Barreto, fez um conto muito bonito sobre um combatente de Conselheiro, em Canudos. Assim, me chegou a figura de Ibiapina, um contemporâneo de Antônio Conselheiro. Ibiapina viveu os momentos do Império, nas reentrâncias das caatingas, nos sertões; vivenciou uma temporalidade como homem culto, como homem instruído, como filho de um revolucionário, como um jovem que teve acesso ao seminário: Foi educado.

IBIAPINA ESTAVA ALÉM DO SEU TEMPO.

Ibiapina formou-se na primeira turma de Direito do Seminário de Olinda – Direito Canônico; foi delegado, advogado, juiz. Chegou a ser eleito deputado constituinte na regência de Feijó, onde trabalhou pelo abolicionismo da escravatura.

Escreveu ditos, escreveu lei, fez manifesto de propostas econômicas. Era um homem que estava além do seu tempo. Voltou a ser juiz, jurista, advogado; fez júri em Areia e andou e peregrinou em vários outros lugares do Nordeste.

Percebi e estudei a história desse homem com suas causas humanista. Sempre fico admirado, ainda hoje, quando conheço mais um ponto de sua trajetória.

Presenciei e conversei com Dom Marcelo Carvalheira, Arcebispo da Paraíba e Bispo de Guarabira, Dom Fragoso, paraibano, Bispo de Crateús – CE, Padre José Comblain, e outros que me falaram e encantaram-me com narrativas sobre o Padre Ibiapina. Eles trouxeram uma perspectiva do Ibiapina e como era imensa sua força junto ao povo.

Dom Marcelo me provocava: você já percebeu o território de Ibiapina? Leia Eduard Hoornaert e Padre José Sadock.

De 1997 a 1998, realizamos através do PARAIWA a produção do filme “Eu Sou Servo”, 35mm, 22 minutos de duração, estreia do diretor de teatro Eliezer Rolim Filho, no cinema. Produzi e co-dirigi, e fizemos; a produção-executiva com Glauce Cunha Lima, e mais uma equipe maravilhosa.

Vieram para a Paraíba, amigos, o homem câmera do cinema novo de Glauber Rocha, mestre Dib Lutfi, na fotografia, Márcio Câmara, no som direto, Jurandir Oliveira, na Direção de Arte. Balduíno Lélis fez a produção, em Taperoá.

Junto com Eliezer convidamos Hilton Lacerda para o Roteiro, pessoas, atores e artistas da Paraíba de altíssimo nível se somaram ao filme: como os atores Orlando Vieira, Ibiapina velho, Everaldo Pontes, como o Beato Inácio, W. J. Solha, representando o pai fuzilado, Eleonora Montenegro, Soia e Buda Lira, Ibiapina jovem uma trupe de estirpe, que Ibiapina merecia.

Na produção do filme, nós tivemos a autorização de Dom Marcelo para filmar na capela que Ibiapina construiu, lá em Santa Fé. O Santuário de Santa Fé estava nos primórdios, inacabado: era vila, capela e a casa grande. As Irmãs Glória Targino e Vera foram fundamentais. Filmamos no cenário, na paisagem cênica que Ibiapina havia estado, onde ele locou aquela Casa de Caridade, que seria sua derradeira morada.

MUDANÇA SÓ SE FAZ COM PESSOAS!

Nos Passos Padre Ibiapina, o projeto dos caminhos, tivemos essa sorte, estruturada por pessoas interessantes foi a conjunção perfeita de técnicos, pensadores, e um bocado de gente “delirante” que gostavam de descortinar a paisagem cênica do Brejo da Paraíba, davam valor ao telúrico, e as histórias do local.

Um grupo que acreditava em mudança social através do desenvolvimento sustentável, unindo cultura, realidade regional, religiosidade, integração comunitária, gerando conhecimentos e aprendendo com as pessoas do lugar, moldando com as comunidades a gestão do projeto Nos Passos do Padre Ibiapina.

Inspirado nas obras de Ibiapina, os eixos do projeto foram Informação, Capacitação e Negócio. Gerar conhecimentos em vários níveis, da geografia da paisagem cênica e humana da região aos impactos ambientais, criação de florestas, treinando jovens e empreendedores para reconhecer e perceber os ativos culturais e econômicos, viasando estruturar negócios para incrementar a renda na região.

Começávamos bem, existia horizonte! Na equipe Dom Antônio Muniz, mentor religioso e o grande responsável pela ação; Iveraldo Lucena, o andarilho educador “Pé no chão”, nos deu as orientações para a capacitação, junto com Aresque Almeida e Prof. Lidney Henriques, e técnicos competentes e dedicados como Lucia Lacet, Socorro e Glória Praxedes, Hélio Araújo, Welles Bandeira, Daniel Almeida, Débora Colapietro, Janaína Araújo, Mazureik. Fiz a criação, coordenação e gestão do projeto, e Juca Pontes, na coordenação de comunicação, e outros tantos amigos e parceiros do Paraiwa, que peço desculpas em não lembrar, no momento.

HÁ UM ABISMO, INEXPLICÁVEL.

Na má gestão estadual do Turismo Religioso de base comunitária, por falta de investimento.

No esquecimento, da figura gigante, do Padre Ibiapina, as dioceses não divulgam a história do homem que poderá ser o primeiro Santo do Nordeste do Brasil.

(* Na imagem imediatamente acima, Durval Leal faz a exposição de seu projeto)

 

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