
O cineasta Durval Leal Filho dá continuidade, com mais este texto, a uma série de comentários sobre os caminhos do Padre Ibiapina, que passou a integrar o calendário de eventos religiosos da Paraíba, com uma peregrinação que percorre várias cidades da Paraíba, exatamente por onde o prelado costumava caminhar. Durval fala da concepção e implantação do projeto, que compreendia várias etapas. Confira íntegra...
Caminhando, fazem-se caminhos. Assim percorreu o Padre Ibiapina na trajetória da vida de Sobral-CE para Olinda-PE, de Fortaleza-CE para o Rio de Janeiro-RJ, de Icó-CE a Cabaceiras-PB, de Bezerros-PE a Acari-CE, de Quixeramobim-CE a Pedro II-PI. De Milagres-CE a Parari-CE. Ibiapina fez caminhos feitos com obras, lembranças que são referências até hoje.
Os caminhos percorridos pelo Padre Ibiapina no século XIX, no mapa do Nordeste, parecem uma costura: cidade a cidade, um roteiro que não nasceu para “turismo”, mas que hoje poderia ser organizado como turismo religioso, com base comunitária e cuidado com o território. Para seguir na ordem certa, a viagem começa fora da Paraíba e só depois se reencontra no Brejo. Ele mistura serras, sertão e vilas, e mostra que deslocamento também é educação do olhar, passo a passo.
Padre Ibiapina ao abandonar os privilégios prometidos pelo clero metropolitano, dedicou-se à vida apostólica itinerante, de Pernambuco ao Piauí, passando por Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Tornou-se missionário andejo e solidário, parando onde havia epidemias, fome ou conflitos familiares ameaçavam a população. Suas orientações mobilizavam mutirões que erguiam cemitérios para enfrentar a cólera, além de igrejas, açudes, cruzeiros, escolas.
Nas casas de caridade, instituições nas quais acolhiam-se órfãs das epidemias e pessoas relegadas à sorte pelos retirantes famintos pelas grandes secas. Ali se estruturou uma experiência reconhecida no Nordeste como prática de educação integral para as jovens daquele período histórico.
No Piauí, aparecem Jaicós, Picos e Pio IX, nomes que funcionam como marco de passagem com edificações de igrejas e cruzeiros. No Ceará, foi uma lista longa, com casas de caridade, açudes, igrejas, cruzeiros: Abaiara, Alto de São João, Barbalha, Brejo Santo, Caldas, Caucaia, Crato, Itapipoca, Jamacaru, Missão Velha, Milagres, Porteiras, Santana do Acaraú, Sobral e Vila do Jardim.
Na sequência, o Rio Grande do Norte entra com Acari, Açu, Angicos, Carnaúba, Currais Novos, Extremoz, Florânia e Parelhas, onde também construiu açudes e casas de caridade. Em Pernambuco amplia o desenho regional: Arcoverde, Araripina, Bezerros, Brejo da Madre de Deus, Caruaru, Custódia, Floresta, Flores, Ouricuri, Passira, Pesqueira, Santa Cruz do Capibaribe, Santa Maria do Cambucá, Salgueiro, Serra Talhada, Taquaritinga do Norte, Triunfo e Vertentes. A lista de obras é grande.
É nessa hora que a Paraíba entra como eixo organizador do projeto “Nos Passos do Padre Ibiapina”, que rearticula os caminhos no Brejo Paraibano como rede de memória religiosa, serra, sítios e economia rural. A proposta é organizar o movimento como turismo religioso, com base local e atenção ao desenvolvimento sustentável. Não é só peregrinação, é o reconhecimento do território vivido, com agricultores, aposentados, pequenos comerciantes e famílias no cotidiano.
Antes de abrir trilha, veio o estudo: mapear por onde o padre passou e onde ficaram as Casas de Caridade. A Paraíba foi pensada como sistema de caminhos interligados, com conexão entre Brejo, Sertão e Curimataú e com pontes para rotas de estados vizinhos. Em termos de planejamento, é integração territorial: organizar o que existe, dar sequência, orientar o fluxo e melhorar as condições de visita.
No desenho macro, Campina Grande aparece como início de um eixo rumo ao Cariri. Um segundo eixo teria Pocinhos como centro, com potencial de ligação ao Rio Grande do Norte. No Sertão, Sousa e Cajazeiras surgem como elo maior, conectando aos Cariris Novos do Ceará, chegando a Crato e Juazeiro do Norte. A rota paraibana já nasce pensando na conexão que é base do desenvolvimento regional integrado.
NO TURISMO, CADA EIXO É PORTA DE ENTRADA E SAÍDA, SEM DEPENDER DE UM POLO.
Mesmo com visão ampla, a implantação começou pelo Brejo Paraibano. Região serrana, clima ameno e caminhada mais confortável ajudaram, e o apoio institucional da Diocese de Guarabira, com liderança do Bispo Dom Antônio Muniz, deu base para articulações. Isso é governança territorial: começar onde há capacidade de coordenação e presença local.
A partir do Memorial de Frei Damião em Guarabira, foram desenhadas quatro vias, com alternativas para perfis diferentes de peregrinos: Cruzeiro de Roma (60 km), Túnel de Samambaia (58 km), Cruzeiro do Espinho (46 km) e Via das Artes (78 km), todas com chegada em Santa Fé. Diversificar rota é distribuir fluxo reduzindo pressão ambiental e ampliando oportunidade econômica em mais de uma comunidade, sem concentrar tudo num só lugar.
No mapa, essas rotas ajudam a criar opções de caminhada a pé, de bicicleta, a cavalo e de carro e a distribuir pernoites com segurança.

Cada rota conta a mesma história por outra estrada. A Via das Artes sai de Guarabira, Cuitegi e segue por Alagoinha, Alagoa Grande, Areia e Arara. O Cruzeiro do Espinho passa por Pilõezinhos e Pilões até Arara, com Solânea como divisa do território do Memorial do |Padre Ibiapina. O Túnel de Samambaia usa o antigo caminho do trem: Guarabira, Pirpirituba, Túnel Samambaia, Borborema, Serraria e Arara. Na prática, o caminho aberto e trabalhado foi o Cruzeiro de Roma, por já contar com estrutura de apoio: bares, restaurantes e hospedagem. O roteiro previu pernoite inicial no Cruzeiro de Roma, depois Bananeiras, e chegada final em Arara.
Previsibilidade, aqui, é respeito a caminhante e evitar improviso, reduzir conflito e permitir que a comunidade receba sem perder o ritmo da própria vida.
O destino simbólico aparece no Santuário do Padre Ibiapina em Santa Fé, na divisa de Arara com Solânea, como referência de chegada. Mas o trajeto também é o que sustenta o sentido: Guarabira, Pirpirituba, Cuitegi, Borborema, Serraria, Areia, Arara, Bananeiras e Solânea, entram como parte do mosaico de serras, sítios produtivos e pequenas propriedades. O roteiro toca patrimônio natural e cultural, mata atlântica residual, engenhos e sítios, e pede reconhecimento com manejo cuidadoso.
No fecho, o caminho mostra o básico do turismo religioso de base comunitária: infraestrutura mínima, informação, acesso e participação econômica por hospedagem, alimentação e comércio local. O importante era ter onde hospedar, comercializar produtos das comunidades e conduzir visitantes, além de destacar a gastronomia e o artesanato. Sustentabilidade, aqui, é prática: cuidar da trilha, do lixo, da água e do patrimônio.
A FÉ MOBILIZA OS PASSOS, A ORGANIZAÇÃO SUSTENTA A ROTA.
No cotidiano, isso vira combinar horários, orientar condutas e preservar áreas sensíveis, para que os caminhos tenham continuidade.
Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.