PENSAMENTO PLURAL A incriável fábula do real, por Durval Leal Filho

O cineasta Durval Leal trafega, neste tempo, com a proficiência de quem entende: o meio audiovisual. Para Durval, neste meio “os pares fazem parte do enredo, mulheres produtoras que sustentam projetos, maridos que viram parceiros, companheiras que seguram o set quando o orçamento desmaia”. E, então, usa a metáfora para chegar ao escândalo do Banco Master que, para qualquer roteirista, já seria algo inverossímil. É quando a realidade se impõe sobre a ficção. Confira íntegra...

Existe uma franquia pouco comentada no cinema brasileiro: a do “cinema de família”. Não falo de filme para assistir no domingo, com pipoca e silêncio respeitoso. Falo de produtoras que atravessam gerações, de sobrenomes que circulam como créditos fixos, de casais que montam empresa, de irmãos que viram sócios, de primos que aparecem na planilha como se fossem personagens recorrentes.

É um ecossistema: afeto, confiança, convivência e, às vezes, uma gestão tão doméstica que a reunião de produção parece reunião de condomínio. O curioso é que, nesse arranjo, muita gente vira “suco”: entra inteiro e sai espremido.

No meio do audiovisual, os pares fazem parte do enredo. Mulheres produtoras que sustentam projetos, maridos que viram parceiros, companheiras que seguram o set quando o orçamento desmaia.

E há também o outro lado: a circulação de poder, o rodízio de oportunidades, os contatos que decidem mais do que a sinopse. Em certas rodas, a história já vem com elenco, equipe e locação incluídos, como pacote de viagem. E alguém sempre diz, com um sorriso técnico: “Aqui é assim mesmo, é do meio”. O “meio”, no caso, é um universo que se alimenta de convivências.

QUEM NÃO SE ALIMENTA DA PANELA RECLAMA.

Uma vez ouvi, de personagens reais, num happy hour, de cursos de formação de alguns mestres, e volta e meia retornava a máxima: “Invente qualquer lenda sobre o ser humano, suas realizações e feitos; crie qualquer imaginação. Mas, por mais inverossímil que você venha a criar, isso ainda é ficção. Lembre-se: a vida real é mais inacreditável.”

No set, essa frase funciona como oração laica. Quando penso roteiro, escuto la dentro: “Ótimo, então basta observar”. O problema é que observar o noticiário brasileiro virou uma pós-graduação em exagero.

Porque, convenhamos, quem escreveria uma trama com um Banco com nome de Master, envolvendo personagens do STF, ministros coadjuvantes do TCU, e como figurantes governadores, senadores e deputados, todos coloridos no mesmo quadro, como se fosse uma quadrilha de filme de assalto? Um bando elegante, de gravata e discurso, reunido para arrombar o cofre público com canetas, pareceres, liminares e uma retórica que chama desvio de “interpretação” e “trancamento”.

TUDO É FAKE NEWS, A VERDADE É IA DES_GENERATIVA.

Um roteirista que entregasse isso seria acusado de falta de sutileza. Um produtor diria: “Isso não passa como verossímil”. Um crítico chamaria de caricatura. Só que o país, com seu talento para a improbabilidade, insiste em publicar o roteiro antes mesmo da pré-produção.

E quando a realidade fica mais ousada do que a ficção, o roteirista sofre um problema prático: como criar surpresa? A reviravolta vira rotina. A cena final vira manchete de terça-feira.

POLICIA FEDERAL QUESTIONA PROCEDIMENTOS NO STF(?!)

E o pior: a história real, ainda por cima, ganha um recurso que o cinema evita por pudor estético, o apagamento. Porque parte do enredo, em vez de virar esclarecimento, julgamento, vai e vira silêncio.

Em vez de desfecho, vira uma névoa processual, uma fila de decisões, um labirinto de procedimentos que o público já não entende e, muitas vezes, nem acredita.

É aí que a descrença nas instituições entra como personagem fixo. Justiça, Legislativo e Executivo aparecem em cena com figurino nobre e fala de responsabilidade, mas o público, sentado na plateia das redes sociais, já desconfia do final.

Quando a confiança se perde, qualquer decisão parece teatro, qualquer discurso soa como trailer, qualquer escândalo vira série. E a série, como toda série, tem temporadas demais, episódios demais, e um elenco que se repete. O espectador, cansado, faz o que faz no streaming: “pular a abertura” e ir direto ao escândalo seguinte.

No cinema, quando uma história é pesada, a direção procura equilíbrio: dá respiro, cria pausa, humaniza, deixa o personagem contraditório. O noticiário brasileiro não dá esse luxo. Ele atropela o arco dramático e entrega o caos em tempo real.

E quem escreve ficção fica com a sensação de concorrer com um concorrente desleal: a realidade não paga direitos autorais, não respeita estrutura em três atos e não se preocupa com coerência. Ela só acontece, e ponto.

Mas talvez seja justamente por isso que a crônica existe: para recolocar a pergunta no centro. Se a vida real já oferece escândalos maiores do que qualquer roteiro, por que ainda é tão difícil produzir, formar e sustentar um cinema que consiga olhar para isso com linguagem, coragem e continuidade?

Por que a arte precisa mendigar meios enquanto o absurdo circula com naturalidade?

E por que o país aceita que histórias tão graves terminem como se fossem boato, como se fossem “fake news da humanidade de toga”, enquanto as evidências seguem ali, repetidas, reencenadas, recauchutadas?

No fim, o roteirista brasileiro volta ao ofício como quem volta a uma oficina, sem humor, sim, mas também com método. Ele aprende que o impossível não é inventar; o impossível é competir com um país que transforma o inacreditável em cotidiano.

Se a realidade é um escândalo em série, o cinema tem uma missão: não apenas registrar o barulho, mas organizar o sentido. Não para “provar” nada, nem para fabricar moral.

QUANDO A VIDA VIRA FARSA REPETIDA, A ARTE NÃO PODE VIRAR SILÊNCIO.

 

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