PENSAMENTO PLURAL A longa marcha de Nikolas e a política do ruído, por Palmarí de Lucena

A marcha convocada por Nikolas Ferreira é analisada pelo escritor Palmarí de Lucena como expressão de uma política orientada pela lógica das redes sociais, em que a mobilização funciona mais como performance comunicacional do que como instrumento clássico de pressão institucional. O ato privilegia visibilidade, engajamento e polarização, com baixo impacto legislativo concreto. “A iniciativa reforça um padrão em que rua, Parlamento e ambiente digital se articulam como espaços de disputa simbólica, com efeitos limitados sobre a produção normativa e a mediação política”, acrescenta. Confira íntegra...

A marcha convocada pelo deputado Nikolas Ferreira pode ser compreendida menos como um evento de rua tradicional e mais como parte de um repertório político orientado pela lógica das redes sociais. Nesse registro, a mobilização deixa de ser um meio para alcançar objetivos institucionais definidos e passa a operar como um fim em si mesma — um dispositivo de visibilidade, engajamento e polarização contínua.

Diferentemente das marchas clássicas, associadas a reivindicações delimitadas e à tentativa de pressionar instâncias do Estado, o ato assume caráter performático. Sua eficácia não se mede por efeitos práticos imediatos, mas pela capacidade de gerar imagens, produzir circulação digital e manter o tema em evidência no debate público. O evento funciona como conteúdo político em tempo real.

Essa lógica encontra correspondência na atuação legislativa do parlamentar. Embora Nikolas Ferreira mantenha presença frequente no Congresso — com projetos apresentados, requerimentos e pronunciamentos —, o impacto normativo de sua produção é limitado. Predominam iniciativas de alto valor simbólico, voltadas à afirmação identitária de uma base específica, com baixo índice de avanço nas comissões e pouca conversão em políticas públicas exequíveis.

Não se trata de uma exceção, mas de um padrão observável. Parte significativa das proposições opera como extensão do discurso digital, servindo mais à comunicação política do que à construção de consensos legislativos. O Parlamento, nesse contexto, aparece menos como espaço de mediação e mais como palco complementar da disputa narrativa.

A marcha reforça esse deslocamento. Em um ambiente de informação saturada, a intensidade tende a substituir a coerência, e o choque, a argumentação. A mobilização da rua funciona como prolongamento físico do engajamento online, assim como a tribuna se converte em instrumento de amplificação de mensagens já dirigidas a públicos previamente convencidos.

Ao privilegiar a performance pública em detrimento da negociação institucional, enfraquece-se a centralidade dos mecanismos tradicionais da representação — o trabalho em comissão, a formação de maiorias, a mediação entre interesses divergentes. A política passa a operar em ciclos curtos de atenção, com menor acumulação institucional.

Esse enquadramento aparece de forma recorrente na cobertura da grande imprensa. Apesar das diferenças editoriais, os principais jornais convergem em três pontos: a marcha é tratada como evento comunicacional mais do que como instrumento clássico de pressão política; o protagonismo recai sobre a figura do deputado e sua estratégia de visibilidade, mais do que sobre a pauta do ato; e o impacto legislativo é avaliado como restrito.

Nesse sentido, o episódio não é lido como marco inaugural de um novo projeto político, mas como reafirmação de um estilo de atuação. A marcha integra um modelo em que rua, redes e Parlamento operam segundo a mesma lógica de antagonismo, mobilização emocional e ocupação simbólica do espaço público.

O debate não está na legitimidade da manifestação — atos públicos são parte do funcionamento democrático —, mas nos efeitos de longo prazo desse tipo de prática sobre a representação. Quando a eficácia política passa a ser medida prioritariamente pela repercussão gerada, e não pela capacidade de produzir normas e acordos, o processo legislativo tende a perder densidade.

A marcha de Nikolas Ferreira, assim como sua atuação parlamentar, ilustra a consolidação de uma política orientada pela visibilidade e pelo conflito permanente. O ruído amplia o alcance e fideliza públicos, mas oferece poucos mecanismos de organização institucional. Para além das intenções, são esses métodos e efeitos que ajudam a explicar o lugar do episódio no debate político contemporâneo.

 

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