
A crônica do escritor Palmarí de Lucena aborda a situação da mata remanescente no Altiplano Cabo Branco e sua relação com a fragilidade ambiental da falésia do Cabo Branco. O texto destaca como a expansão urbana reduziu a vegetação natural e contribuiu para processos de erosão e deslizamentos, especialmente após episódios registrados em 2019. Também aponta problemas de gestão e proteção da área, defendendo a necessidade de políticas permanentes de preservação ambiental para garantir a estabilidade da falésia e a conservação do fragmento de Mata Atlântica. Confira íntegra...
Na extremidade oriental de João Pessoa, onde o continente americano recebe primeiro a luz do sol, ergue-se uma das paisagens mais emblemáticas do litoral brasileiro: a falésia do Cabo Branco.
No alto do planalto urbano conhecido como Altiplano Cabo Branco, ainda resiste um fragmento de Mata Atlântica que testemunha décadas de transformação da cidade.
Pequena e cada vez mais fragmentada, essa mata tornou-se símbolo de um conflito silencioso entre urbanização acelerada e preservação ambiental. É um remanescente florestal que persiste enquanto a cidade cresce — e que também revela o custo desse crescimento.
A falésia do Cabo Branco é formada por sedimentos arenosos relativamente frágeis da chamada Formação Barreiras, um conjunto geológico comum no litoral nordestino. Trata-se de um ambiente naturalmente sensível à erosão, sobretudo quando exposto à ação combinada de chuvas intensas, ventos e impacto das ondas.
Nas últimas décadas, porém, esse sistema natural passou a conviver com forte pressão urbana. A expansão do Altiplano trouxe avenidas, edifícios, circulação crescente de veículos e ampla impermeabilização do solo. Estudos sobre o uso da terra indicam que parcela significativa da vegetação natural da área foi substituída por ocupação urbana.
A consequência é conhecida em diversas cidades costeiras: quando a cobertura vegetal desaparece e o solo é alterado, a estabilidade das encostas diminui.
A natureza responde.
Em maio de 2019, após um período de chuvas intensas, ocorreram vários deslizamentos na região da falésia e em áreas próximas. Foram ao menos seis episódios registrados ao longo do mês, evidenciando a vulnerabilidade do terreno.
A terra cedeu.
A encosta abriu fissuras.
E o alerta tornou-se evidente.
Movimentos de massa em áreas urbanizadas costumam resultar da combinação de fatores naturais e humanos: chuvas intensas, solos frágeis, drenagem inadequada e alterações no relevo provocadas pela urbanização.
Após aqueles eventos, esperava-se a adoção de medidas consistentes para conter a erosão e proteger o fragmento florestal remanescente.
Parte das ações anunciadas concentrou-se na base da falésia, com intervenções de engenharia como estruturas de enrocamento destinadas a reduzir o impacto das ondas sobre a escarpa. Essas obras buscam estabilizar o avanço da erosão.
Mas o problema não se limita à base da falésia.
No topo do planalto, onde se encontra a mata do Altiplano, a situação revela outra fragilidade: a da gestão ambiental.
O fragmento florestal, que deveria atuar como barreira natural contra a erosão e abrigo da biodiversidade local, encontra-se cada vez mais vulnerável. Cercas instaladas para proteger a área estão danificadas ou destruídas em vários trechos. Sem delimitação adequada, o espaço tornou-se facilmente acessível.
Dentro da mata, trilhas improvisadas surgiram entre as árvores. Algumas podem resultar da circulação ocasional de visitantes. Outras, porém, levantam preocupações entre moradores e observadores da região.
Há relatos de retirada irregular de madeira e de usos incompatíveis com a preservação ambiental. Como ocorre em muitas áreas naturais negligenciadas dentro de cidades, a ausência de fiscalização constante tende a transformar o território em espaço de degradação progressiva.
A mata do Altiplano desempenha funções ecológicas importantes: ajuda a estabilizar o solo da falésia, absorve parte da água das chuvas, reduz o escoamento superficial e abriga espécies típicas da Mata Atlântica costeira.
Quando essa vegetação desaparece, o terreno perde estabilidade.
A erosão se intensifica.
E os riscos aumentam.
João Pessoa construiu ao longo de décadas a imagem de capital verde, reconhecida pela qualidade ambiental e pelas paisagens costeiras preservadas.
Mas preservar uma paisagem não significa apenas mantê-la atraente para fotografias.
Significa cuidar dos ecossistemas que a sustentam.
A mata do Altiplano e a falésia do Cabo Branco formam um sistema ambiental interdependente. A estabilidade de um depende diretamente da integridade do outro. Ignorar essa relação significa tratar sintomas sem enfrentar as causas.
Cidades costeiras em todo o mundo enfrentam o mesmo desafio: crescer sem comprometer os ambientes que garantem sua própria segurança geológica e climática.
A natureza já enviou seus avisos.
Cada deslizamento, cada avanço da erosão e cada árvore perdida lembram que o território também possui memória — e limites.
A pergunta permanece: a cidade está disposta a escutar?
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