PENSAMENTO PLURAL… A PB-008 – rota de risco, por Durval Leal Filho

O cineasta Durval Leal adverte, em seu comentário, os riscos para pedestres e para quem trafega pela rodovia PB-008: “O cenário é simples e, justamente por isso, imperdoável: não há acostamento, não há faixa segura de circulação para quem caminha, e há trechos sem calçada.” E lamenta ainda como “já passaram na gestão pública todas as legendas de todos os lados opostos, mas comuns no descaso a proteção ao cidadão comum”. Confira íntegra…

A PB-018, no Conde, tem um apelido que ninguém oficializou, mas todo mundo pratica: “rodovia urbana de faz-de-conta”. Faz-de-conta que é estrada estadual bem cuidada, faz-de-conta que tem padrão mínimo de segurança e faz-de-conta que o pedestre não existe.

O trajeto da PB-018, Rodovia dos Tabajaras, inicia no entrocamento com a BR – 101, a 16KM de João Pessoa, e segue até a praia de Jacumã, no município de Conde, na Paraíba.

A ladeira inicial, entre Conde e Jacumã, em sua área urbana, é o ponto em que esse teatro fica mais perigoso, porque ali a física manda mais do que a boa vontade: descida puxa velocidade, e velocidade, sem margem de erro, puxa tragédia.

O cenário é simples e, justamente por isso, imperdoável: não há acostamento, não há faixa segura de circulação para quem caminha, e há trechos sem calçada. A via atravessa área urbana, com circulação cotidiana de moradores, trabalhadores e estudantes, inclusive nas proximidades de escolas.

O resultado previsível é o que a comunidade já conhece pelo nome e pelo luto: acidentes frequentes, alguns fatais. Quando a estrutura nega proteção, a estatística vira rotina.

Numa rodovia bem projetada, o erro humano é previsto e amortecido. Aqui, o erro é potencializado. Falta espaço lateral, falta separação entre fluxos, falta sinalização, falta desenho urbano que diga ao motorista: “você entrou num lugar de gente”.

Em vez disso, a ladeira entrega um convite silencioso: “pode embalar”. E, quando o convite é aceito, o pedestre vira obstáculo, o ciclista vira alvo e o morador vira refém da própria porta.

O ciclista, então, aparece como personagem inevitável da crônica da próxima tragédia: não como metáfora romântica de mobilidade sustentável, mas como alguém que insiste em existir numa geometria que não o reconhece. Ele pedala colado ao asfalto, sem recuo, sem proteção, disputando centímetros com retrovisores apressados e o meio-fio ao lado.

Na ladeira, a diferença de velocidade é brutal; e, quando não há acostamento, a diferença vira sentença. Não é “imprudência” do ciclista; é a ausência de um sistema que aceite que ele tem direito de ir e vir sem precisar de milagre.

O mais estranho é que a solução não é segredo técnico. O município, e seus representantes, já conhecem as ferramentas: redução de velocidade, fiscalização com multa, redutores físicos quando cabíveis, sinalização adequada, perímetro escolar com tratamento específico, travessias seguras, iluminação e continuidade de calçadas. Isso não exige discurso heroico; exige decisão administrativa e política.

O QUE FALTA, QUASE SEMPRE, NÃO É “PROJETO”: É PRIORIDADE.

Por isso a mobilização comunitária entra como a parte mais séria desta história, ainda que tenha espaço para um humor amargo: o cidadão precisa organizar um “manual de instruções” para lembrar ao poder público que pedestre não é decoração e que escola não é enfeite de beira de pista.

A proposta é objetiva: a Câmara de Vereadores tem que protocolar, com seus pares, uma iniciativa de redução de velocidade com fiscalização efetiva, sujeita a multa, e exigir a implantação de controle de velocidade em todo o trajeto crítico da ladeira, com limite de 50 km/h e redução para 30 km/h nas áreas escolares, com perímetro claramente definido em quilômetros.

Redutor de velocidade e radar não são punição ao motorista: são proteção aos pedestres e ciclistas vivos. E proteção se mede pelo que evita, não pelo que lamenta.

Em trechos urbanos sem acostamento, com circulação de pedestres e histórico de sinistros, a engenharia de tráfego recomenda, de forma consistente, o controle de velocidade como medida prioritária, porque a velocidade define tanto a chance de ocorrer um acidente quanto a gravidade quando ele ocorre. É o ponto em que política pública pode, literalmente, separar casa de velório.

A estratégia de apoio também é pragmática: mapear os proprietários ao longo da ladeira, coletar assinaturas e registrar demandas específicas, inclusive interesse em proteções futuras, como barreiras, muros e defensas onde couber. Esse levantamento dá legitimidade social e cria massa crítica contra a velha desculpa do “não sabia” e do “não chegou aqui”.

Junta-se a isso o apoio institucional: endossos de autoridades locais e anexos com registros municipais de acidentes fatais e não fatais, para embasar o pedido com evidência, não com grito.

E aqui cabe o contraste com o roteiro político do lugar, que há décadas parece rodar em looping: a cada eleição, promete-se “cuidado com as pessoas”; passado o pleito, cuida-se do palanque. A cidadania vira figurante, e a segurança viária vira nota de rodapé. S

OME-SE 20 ANOS DE CONSTATAÇÃO NA ÁREA. SEM PROVIDENCIAS! FORAM VÁRIOS PREFEITOS CEGOS!

A minha crítica, então, não é contra “um” vereador, mas contra uma cultura: a política partidária como caça de votos, não como gestão do bem comum. Prefeitos e Vereadores pouco instruídos em política cidadã confundem presença com postagem, audiência com solução, e reunião com resultado.

Ja passaram na gestão todas as legendas de todos os lados opostos, mas comuns no descaso a proteção ao cidadão comum.

Enquanto isso, a ladeira que o cidadão precisa subir ou descer segue como está: uma rodovia urbana que não é urbana quando precisa proteger o cidadão, mas vira urbana quando é para empurrar a responsabilidade.

Vejo como os próximos passos, para os vereadores, que são claros e sequenciais: reunir assinaturas, organizar dados, redigir a petição formal, protocolar na Câmara com cópia para a Prefeitura, DER, Governo do Estado, Ministério Público, e acompanhar em sessões públicas, cobrando prazos, responsáveis e justificativas técnicas.

A comunidade não está pedindo favor; está exigindo o mínimo normativo e civilizatório: direito de ir e vir com segurança, em via pública, sem o risco de ser atropelado por um sistema que escolheu não enxergar.

Se a ladeira fosse apenas um trecho de asfalto, bastaria recape. Mas ela é, na prática, um teste diário de sobrevivência para quem mora, estuda, trabalha e pedala ali.

E nenhum município que se pretende moderno, e nenhum vereador que se pretende representante, pode aceitar que a vida do cidadão seja o preço “natural” de uma estrada mal tratada. Sem um planejamento técnico evidente.

SEGURANÇA VIÁRIA NÃO É OBRA: É OBRIGAÇÃO.

E obrigação, quando não vem por consciência, tem de vir por pressão cidadã organizada.

 

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