Na era da pressa mental, o debate democrático é corroído por patrulheiros ideológicos que trocam argumentos por rótulos. Em vez de discutir, carimbam: “fascista”, “comunista”, “globalista”. Em seu comentário, o escritor Palmarí de Lucena afirma como “a reação da extrema direita ao artigo da The Economist sobre Bolsonaro ilustra essa lógica: desqualificar a fonte para evitar o diálogo”. E ainda: “Superar a tirania dos rótulos exige coragem para ouvir, aceitar nuances e reencontrar a riqueza da complexidade humana.” Confira íntegra…
Vivemos em uma época em que a pressa por atalhos mentais se impõe sobre o esforço de pensar. Em meio à complexidade do mundo, cresce a figura do patrulheiro ideológico: não debate, cataloga; não reflete, rotula. Armado com etiquetas pré-fabricadas, sua missão não é iluminar a conversa, mas obscurecê-la.
A torpeza — essa mistura de grosseria, preguiça intelectual e insensibilidade — é sua marca registrada. O impulso primário é reduzir pessoas e ideias a um carimbo: “esquerdista”, “direitista”, “comunista”, “fascista”, “liberal”, “reacionário”. O ato de rotular é, antes de tudo, recusa em enfrentar a nuance. Em vez de lidar com a complexidade, o patrulheiro escolhe o alívio simplista da caricatura.
O patrulhamento vai além: transforma o rótulo em arma de desqualificação. Não interessa refutar argumentos, mas anular quem os pronúncia. Basta indicar que a voz vem do “outro lado” para deslegitimar seu valor. O resultado é corrosivo: o debate democrático se dissolve em trincheiras, onde a lealdade à etiqueta vale mais do que a busca pela verdade.
Um exemplo recente ilustra esse mecanismo. Quando a revista The Economist publicou um artigo elogiando a democracia brasileira e a firmeza das instituições diante da tentativa de golpe de 8 de janeiro — incluindo os julgamentos do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados —, extremistas de direita reagiram de imediato. Em vez de discutir os argumentos ou avaliar os fatos, apressaram-se em rotular a revista como “globalista”, “esquerdista” ou “comunista”. O conteúdo tornou-se irrelevante diante da etiqueta. Mais uma vez, o rótulo foi usado como barreira contra o debate, preferindo-se a caricatura à reflexão.
As consequências são claras. Primeiro, a morte do pensamento nuançado: ideias fecundas raramente cabem em caixinhas estanques, e ao exigir pureza ideológica o patrulheiro sufoca a inovação. Depois, a falácia do espantalho: ataca-se não o argumento real, mas a caricatura grotesca erguida para facilitar a demolição. Segue-se o silenciamento: diante da patrulha constante, muitos preferem calar-se, instalando o medo e a autocensura. Por fim, a ausência de autocrítica: quem vive a vigiar o outro pouco se interroga sobre suas próprias certezas.
No fundo, o rótulo é um sintoma de insegurança. É mais simples gritar “fascista!” ou “comunista!” do que encarar um debate honesto sobre políticas públicas. É mais confortável cercar-se de iguais do que admitir que o diferente possa conter alguma razão. Mas é nesse gesto de fechamento que se perde o diálogo e se empobrece a democracia.
Superar essa lógica perversa exige coragem. Coragem de ouvir antes de responder, de compreender antes de catalogar, de reconhecer que a verdade não pertence a um único lado do espectro político. Exige sair das trincheiras para o terreno aberto — e desconfortável — da conversa franca, onde o pensamento crítico floresce.
Só assim será possível escapar da tirania dos rótulos e reencontrar a riqueza da complexidade humana.
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