PENSAMENTO PLURAL A urna, a escolha e a democracia, por Palmarí de Lucena

A eleição é apresentada como um momento cotidiano em que cada cidadão participa de uma decisão coletiva, observa o escritor Palmarí de Lucena. O texto reflete sobre a confiança no processo eleitoral, a fiscalização, a possibilidade de questionamento e a importância dos procedimentos democráticos. Também recorda períodos em que a escolha popular esteve limitada. Após a votação, as diferenças políticas permanecem, mas os cidadãos continuam compartilhando as mesmas ruas, relações e espaços. A democracia, assim, prossegue para além da urna, na convivência entre diferentes. Confira íntegra...

Há um momento, diante da urna eletrônica, em que o Brasil parece caber inteiro na ponta de um dedo.

É uma cena silenciosa, quase doméstica. O eleitor entra na cabine, olha para a tela, digita alguns números e confirma a escolha. Do lado de fora, a fila continua andando. Alguém conversa com o mesário, uma criança espera a mãe, um senhor confere novamente o número da seção. Uma funcionária ajeita algumas cadeiras no corredor. Nada parece extraordinário. Durante aqueles poucos segundos, porém, aquela pessoa participa de uma decisão que alcançará milhões de outras pessoas.

Cada eleitor chega ali trazendo uma história que a urna não conhece: a família, o trabalho, as perdas, as esperanças, as convicções e também as dúvidas. Por alguns segundos, tudo isso fica do lado de fora da cabine. Diante da tela há apenas uma escolha a fazer. O país, que costuma parecer grande demais para caber na experiência de uma pessoa, aparece reduzido àquele pequeno retângulo luminoso.

A Constituição chama esse gesto de soberania popular. A expressão é solene, quase maior do que a cena. Mas basta observar uma seção eleitoral durante algum tempo para perceber como uma ideia tão ampla se realiza de maneira prosaica: pessoas chegam, esperam, apresentam um documento, entram numa sala, votam e vão embora. A maioria não conhece os outros eleitores que estão na fila e provavelmente nunca saberá em quem eles votaram.

Nenhum voto revela a história inteira de quem o deposita. Também não permite saber o que acontecerá depois. Ainda assim, aqueles votos serão reunidos, contados e transformados em uma decisão que passará a fazer parte da vida de todos.

Há, porém, uma questão anterior ao resultado: a legitimidade do próprio processo.

Nos últimos anos, a maneira como os brasileiros votam e acompanham os resultados das eleições entrou no centro de conversas que antes pareciam restritas aos especialistas. A dúvida chegou à mesa do almoço, à fila da padaria, ao telefone celular. Uma pessoa mostra uma mensagem recebida no celular; outra responde que ouviu uma versão diferente; alguém procura uma informação. A conversa muda de assunto, volta ao tema, ganha outra interpretação. Assim se formou parte do ambiente político recente.

Nas eleições de 2022, o processo foi acompanhado por observadores de diferentes países e passou por procedimentos de fiscalização e auditoria. Houve, portanto, outros olhos sobre uma eleição que mobilizou o país. Isso não transforma o sistema em algo acima de qualquer questionamento, nem encerra a discussão sobre seu aperfeiçoamento. Apenas oferece elementos que podem ser confrontados com as dúvidas que circulam fora das instituições.

É nessa passagem — da impressão para a verificação — que a discussão se torna mais concreta. Uma suspeita pode ser apresentada, examinada e eventualmente confirmada ou afastada. Um resultado pode ser questionado pelos meios previstos para isso. Uma regra pode ser discutida e, se houver razões para modificá-la, submetida novamente ao processo político.

O Brasil conhece períodos em que esse tipo de escolha não estava disponível da mesma maneira. Conhece épocas em que o cidadão não podia escolher livremente seus governantes, em que a participação política encontrava limites impostos pela força e em que a mudança de poder não dependia apenas da vontade expressa nas urnas.

Por isso, uma eleição regular pode parecer um acontecimento corriqueiro, mas guarda uma história que nem sempre aparece na superfície.

Ela está na escola que abre as portas naquele domingo, no mesário que repete a mesma orientação dezenas de vezes, no eleitor idoso que procura sua seção, no jovem que vota pela primeira vez. Está na fila que se forma no corredor e vai desaparecendo aos poucos. Está na porta da cabine, que se fecha para cada eleitor e se abre novamente alguns segundos depois.

As instituições também aparecem nessas pequenas operações. Um documento é conferido. Um nome é localizado. Uma urna é ligada. Um procedimento é repetido. Depois outro. A confiança em um processo público não se resume a uma impressão; ela também se constrói nesses detalhes que quase ninguém observa quando tudo funciona normalmente.

E as instituições podem ser questionadas. Podem falhar, podem ser aperfeiçoadas, podem mudar suas regras. Uma pessoa pode discordar de uma decisão e recorrer. Pode criticar uma autoridade e continuar participando da vida pública. Pode defender uma alteração nas regras sem precisar abandonar o conjunto de procedimentos que permite que essa alteração seja discutida.

Essa tensão aparece com frequência na vida política. De um lado, a vontade de fiscalizar; de outro, a necessidade de reconhecer os procedimentos pelos quais a fiscalização se realiza. Não há muito de abstrato nisso. Basta acompanhar uma discussão sobre uma eleição, uma decisão judicial ou uma mudança legislativa para perceber como essas posições se misturam.

E então voltamos à cena da urna.

A porta se abre. O eleitor sai e a fila continua. Alguém entra em seguida. A urna permanece ali, silenciosa. Uma funcionária chama o próximo eleitor. Um homem procura os óculos no bolso da camisa. Uma mulher confere novamente o número da seção antes de atravessar o corredor.

Talvez aquele eleitor tenha votado com entusiasmo. Talvez tenha escolhido sem entusiasmo algum. Talvez tenha levado para a cabine uma convicção antiga; talvez tenha decidido na última semana; talvez tenha mudado de ideia no caminho. A urna não registra nada disso. Registra apenas o voto.

Depois os votos são contados. O resultado aparece. A disputa termina.

No dia seguinte, porém, as mesmas pessoas continuam encontrando umas às outras.

O adversário político de ontem pode ser o vizinho que encontramos na padaria. Pode estar no mesmo ônibus, na mesma fila do banco, na reunião da escola dos filhos. Pode trabalhar na sala ao lado. A eleição modificou a composição do poder, mas não redesenhou as ruas da cidade.

É nesse ponto que a política volta a encontrar a vida comum. O resultado precisa conviver com as conversas que já existiam antes dele. Quem venceu passa a governar também aqueles que não o escolheram. Quem perdeu continua podendo discordar, criticar e participar. As posições políticas permanecem diferentes, às vezes profundamente diferentes, enquanto as pessoas continuam dividindo os mesmos espaços.

Na semana seguinte, alguém comenta a eleição enquanto espera o café. Outro discorda. A conversa esquenta por alguns minutos. O balconista interrompe para perguntar quem será o próximo a ser atendido. O assunto muda. A vida segue, levando consigo a divergência que não desapareceu.

É assim também que a política se torna uma experiência cotidiana: menos nos grandes discursos do que nessas conversas incompletas, nesses desacordos que precisam caber dentro de uma rotina compartilhada.

A urna, nesse sentido, é apenas um momento da história. Ela registra uma escolha; depois dela vêm a contagem, o resultado, as decisões de governo, a fiscalização, a oposição, as críticas e as próximas eleições.

Quando a escola fecha as portas, o corredor volta a ficar vazio. As cadeiras são empilhadas. O material é recolhido. Do lado de fora, os carros continuam passando. Alguém para na esquina para conversar. Uma padaria abre a porta para os primeiros clientes da manhã seguinte.

A eleição já terminou, mas ninguém deixou de viver no mesmo lugar.

E talvez seja nessa continuidade, mais do que nas palavras solenes dos discursos, que se possa observar o que uma eleição produz: uma mudança na esfera do poder e, ao mesmo tempo, a permanência de uma sociedade formada por pessoas que continuam tendo de trabalhar, conversar, discordar e compartilhar as mesmas ruas.

A urna se fecha. A escola fica para trás. O eleitor segue para casa.

No dia seguinte, começa outra parte da história.

 

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