
Em seu comentário, o cineasta Durval Leal volta a criticar oque considera uma invasão das praias por embarcações, como barcos e jetskis, que disputam espaço com os banhistas. Adverte: “Camboinhas, Areia Dourada e Formosa não são apenas cenário; são ecossistemas interconectados, base de pesca artesanal, turismo responsável e equilíbrio regional. Quando o mar vira pista, perde-se biodiversidade, perde-se alimento, perde-se segurança, perde-se pertencimento.” Confira íntegra...
Dizem por aí que o litoral de Camboinhas, Areia Dourada e Formosa são as “joias da coroa” dos balneários da Paraíba. Mas que coroa é essa, cravejada de pedras falsas, falsos brilhantes e administrada por mercenários urbanos que confundem mar com garagem, praia com estacionamento e silêncio com ofensa pessoal?
A ocupação desordenada do litoral brasileiro já virou assunto para quem usa farda, prancheta e carimbo, quando não vira, antes, um boletim de ocorrência da paisagem.
Na Paraíba, não é diferente, a mesma receita, o mesmo improviso, o mesmo “deixa disso” com cheiro de gasolina e óleo e som de paredão. E foi assim que, com a chegada de jet skis, lanchas e jovens ricos “toscos”, nobres apenas pelo poder aquisitivo, esses atletas do consumo que desprezam tudo o que é sustentável porque sustentabilidade não vem com potência em HP, praias à beira-mar passaram a virar chiqueiros com vista.
O espetáculo se repete como temporada fixa. Imagine a cena: o som alto ecoando sem pudor, como se a natureza tivesse assinado termo de consentimento para virar trilha sonora. Guloseimas devoradas e embalagens largadas com a serenidade de quem acredita que o mar é lixeira infinita e a areia, tapete descartável. Cachorros soltos, correndo como se a praia fosse quintal privativo, enquanto o cidadão comum tenta atravessar um labirinto de tralhas, fezes de cães e “donos do espaço” que aprenderam cedo a usar a própria presença como porteira.
Na beira mar, o roteiro é ainda mais didático: reboques de lanchas e jets skis “estacionadas”, na beira mar, desmoralizando o acesso gratuito, como se o bem público estivesse em promoção para quem paga mais.
O que era água morna, tranquila, de suave declividade, ideal para idosos, crianças e pessoas com deficiência, vira pista de testes e passarela de vaidade. O banho, que deveria ser direito, vira concessão informal: “pode entrar, mas desvie do brinquedo motorizado”.
Há, nesse ponto, um detalhe nada romântico: a marina improvisada na praia. Jet skis e lanchas se instalam onde convém, a espera dos seus “boys” como se boias, limites e regras fossem enfeites para turistas educados.
Um frenesi frenético dos propulsores revolve o solo marinho, levantando sedimento, turvando a água e empurrando a vida bentônica para um lugar que não existe, o “depois a gente vê”.
Itapitangas, bancos de corais, e recifes e o que mais insistir em viver ali passam a sofrer a violência diária das hélices e propulsores, não por acidente, mas por costume. E onde há motor, há vazamento: óleo e combustível escorrendo discretos, contaminando sedimentos e entregando ao ecossistema um coquetel persistente, desses que não saem com maré cheia nem com discurso bonito.
Essa progressão de agressões não é aleatória, é sistêmica, porque segue uma cadeia previsível: primeiro, a ocupação territorial a casas invadem área de marinha e patrimônio da união, a anos; depois, o barulho; em seguida, a contaminação; por fim, a destruição biológica.
Começa quando veículos náuticos bloqueiam o livre acesso, transformando faixa de areia em corredor estreito e o mar em área de risco. O princípio do uso coletivo das praias, componente do dever constitucional de proteção ambiental (art. 225 da Constituição Federal), vira peça decorativa no museu do “direito de papel”.
A segunda etapa é a poluição sonora e visual. Não é detalhe, é método. O barulho constante desorganiza a experiência da praia e expulsa o que ela tem de mais valioso, que é o sossego público. A confusão visual, as aglomerações de equipamentos, barracas de bares, as embarcações “paradas” onde não deveriam estar, tudo compõe a privatização simbólica do espaço.
A praia deixa de ser bem comum e vira playground privado, com regras tácitas, quem reclama “não entende o turismo”.
A terceira etapa é a contaminação química. Hidrocarbonetos derivados de combustíveis infiltram-se no sedimento, entram na cadeia alimentar e ameaçam o que já é frágil. E aqui a ironia fica amarga: o que alguns chamam de “curtir o mar” é, na prática, reduzir o mar a um cenário consumível, mesmo que isso custe a saúde do ecossistema e a qualidade do alimento de quem vive da pesca e do comércio local.
A quarta etapa é a destruição biológica: turbulência de hélices arrancando organismos, erodindo estruturas recifais, fragmentando habitats. O mar raso, que deveria ser zona de acolhimento para banho e berçário de vida, vira área de estresse contínuo.
O resultado é um empobrecimento lento, porém consistente, esse tipo de estrago que não dá manchete diária, mas dá ausência, mês após mês, ano após ano.
Não adianta heroísmo isolado. Não existe “um” vizinho que resolva, “um” fiscal que dê conta, “uma” denúncia que cure a cultura. E existe, sim, uma sazonalidade moral: de abril a outubro, quando os invasores somem, o Nordeste revela águas verdes e uma paz restaurada, como se o litoral respirasse de novo.
É nesse intervalo que se percebe o óbvio, o paraíso não era exagero; exagero é o que se fez com ele, até quando teremos esse intervalo de paz. E é exatamente por isso que a vigilância precisa ser tratada como política pública, não como irritação de “morador chato”.
Soluções não precisam de poesia, precisam de rotina: patrulhamento marítimo e costeiro em horários críticos, durante o verão; multas progressivas com efetiva cobrança, de embarcações infratoras; apreensão ou retenção administrativa em casos reiterados de seus proprietários; exigência de outorga e autorização onde couber, para as marinas; proibição real de descarte, lixeiras a beira mar; canais de denúncia com resposta e transparência; e educação ambiental que não seja teatrinho escolar.
Camboinhas, Areia Dourada e Formosa não são apenas cenário; são ecossistemas interconectados, base de pesca artesanal, turismo responsável e equilíbrio regional.
Quando o mar vira pista, perde-se biodiversidade, perde-se alimento, perde-se segurança, perde-se pertencimento. E, sem coesão entre ocupação, poluição e erosão biológica, perde-se a capacidade de entender que o problema não é “um jet ski”, mas o modelo que o normaliza.
Preservar exige romper o ciclo: leis aplicadas, elites responsabilizadas, instituições que fiscalizam sem escolher alvo, e cidadãos vigilantes, não por gosto, mas por sobrevivência ambiental.
Caso contrário, a “joia da coroa” vira caricatura de si mesma: um chiqueiro oleoso com som alto, onde só brilham, muito convincentes, os falsos brilhantes dos novos-ricos de soberba.
Me criei e me estabeleci nessas “joias”, usufruindo e gozando desse bem-estar, por isso denuncio, e grito insistentemente.
PRESERVEM: CAMBOINHAS, AREIA DOURADAS, E NÃO À TOA ELA É FORMOSA, SÃO JOIAS DE BEIRA MAR!
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