
Em comentário, o professor Emir Candeia reflete sobre o recente embate entre a Rede Globo o Canal Cazé TV, que tem alcançado índices consideráveis de audiência, durante a Copa do Mundo. Mais recentemente, o Ministério da Justiça decidiu investigar o canal por, supostamente, veicular propaganda irregular de bets. “A Globo está sendo derrotada por uma mudança cultural. O velho modelo baseado em centralização, controle e linguagem única está encontrando um público que deseja pluralidade, liberdade e participação”, pontua. Confira íntegra…
O que está acontecendo com a CazéTV não é apenas uma disputa de audiência. É uma mudança de época. É o velho sistema de comunicação sendo obrigado a dividir espaço com uma nova forma de falar com o povo brasileiro.
Durante décadas a Globo decidia o horário, o formato, o narrador, o comentarista, o tom da transmissão e até o modo como o torcedor deveria se comportar diante do jogo. O futebol, que nasceu do povo, muitas vezes passou a ser embalado, controlado e entregue como produto de uma elite midiática.
A CazéTV não pediu licença. Entrou falando a língua da arquibancada, da internet, do celular, do jovem, do torcedor comum, daquele que não quer mais apenas assistir passivamente, mas participar, comentar, rir, reclamar, vibrar e se sentir dentro do jogo.
Em 2018, Jair Bolsonaro representou, para uma parte expressiva dos brasileiros, a quebra de um duopólio político que parecia eterno: de um lado PT e aliados; do outro, PSDB e semelhantes. Muitos eleitores sentiram que, pela primeira vez em muito tempo, poderiam dizer em voz alta o que pensavam, sem pedir autorização ao sistema político, acadêmico, jornalístico ou cultural.
A CazéTV, no esporte, provoca sensação parecida. Ela mostra ao torcedor que existe vida fora do modelo tradicional. Que a comunicação pode ser direta, espontânea, irreverente e popular. Que o povo não precisa aceitar apenas uma voz oficial dizendo como ele deve ver, ouvir e sentir o jogo.
A Globo na copa 2026 deixou de ser a dona absoluta da experiência esportiva nacional. A CazéTV mostrou que o brasileiro aceita trocar o sofá da sala pelo celular, a transmissão engessada pelo bate-papo ao vivo, o comentário formal pela linguagem direta, a distância institucional pela proximidade digital.
Esse é o ponto que incomoda.
Primeiro tenta diminuir. Depois tenta ridicularizar. Em seguida tenta enquadrar. Por fim, tenta regular, pressionar ou desqualificar. Foi assim na política, tem sido assim na comunicação, e agora acontece também no esporte.
As críticas à CazéTV por causa das propagandas de apostas . Por que tanto espanto apenas quando a publicidade aparece na CazéTV, se o futebol brasileiro inteiro está tomado por casas de apostas?
Clubes são patrocinados por bets. Competições recebem naming rights de casas de apostas. A Globo vende espaço publicitário para esse setor. Portanto, se o debate for moral, que seja para todos. Se for regulação, que seja geral. Se for proteção ao consumidor, que alcance todo o ecossistema do futebol, e não apenas o novo concorrente que cresceu rápido demais. E não proteção a velha hegemonia.
A força da CazéTV representa uma audiência que não quer mais ser tratada como massa passiva. O torcedor moderno quer escolher. Quer assistir onde quiser, pelo aparelho que quiser, no formato que quiser. A televisão tradicional falava de cima para baixo. A CazéTV fala de lado, como quem senta na mesa do bar, pega uma cadeira e entra na conversa.
Essa é a grande vitória: a vitória da escolha.
A Globo está sendo derrotada por uma mudança cultural. O velho modelo baseado em centralização, controle e linguagem única está encontrando um público que deseja pluralidade, liberdade e participação.
A vitória da CazéTV sobre a Globo, é a vitória da espontaneidade contra o excesso de controle. É a vitória da escolha contra a imposição. É a vitória do público dizendo: “agora eu também decido por onde quero assistir”.
Assim como a política brasileira descobriu que havia vida fora dos velhos acordos partidários, o esporte brasileiro está descobrindo que há vida fora da velha televisão dominante.
E quando o povo descobre que pode escolher, dificilmente aceita voltar a ser conduzido como antes.
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