PENSAMENTO PLURAL Contra a guerra sacralizada: o magistério que sustenta a posição do papa, por Palmarí de Lucena

O escritor Palmarí de Lucena argumenta em seu texto que a rejeição da guerra como instrumento legítimo não é inovação recente, mas resultado de um desenvolvimento contínuo do magistério da Igreja. Documentos como o Concílio Vaticano II, o Catecismo e encíclicas modernas reforçam critérios cada vez mais restritivos à guerra, culminando em sua quase total deslegitimação. Assim, a posição do papa não rompe com a tradição, mas reafirma a centralidade da paz como expressão autêntica da fé cristã. Confira íntegra...

A crítica à instrumentalização religiosa da guerra não é uma inovação retórica do Papa Leão XIV. Trata-se de uma posição densamente fundamentada no magistério da Igreja, consolidada ao longo de séculos em encíclicas, constituições conciliares e outros documentos que delimitam com clareza o lugar da fé diante da violência e do poder político.

A base mais abrangente dessa visão encontra-se na constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II. Ali, a Igreja reconhece a complexidade das relações internacionais, mas afirma sem ambiguidade que “a guerra não é um meio adequado para restaurar direitos violados”. Ainda que admita, em termos restritos, a legítima defesa, o documento enfatiza que os meios modernos de destruição tornam cada vez mais difícil justificar moralmente qualquer conflito armado.

Essa linha é aprofundada no Catecismo da Igreja Católica, especialmente nos parágrafos que tratam da chamada “guerra justa”. Os critérios são rigorosos: dano grave e certo, esgotamento de todos os meios pacíficos, proporcionalidade e probabilidade de sucesso. Mais do que abrir caminho para a guerra, esses requisitos funcionam como barreiras éticas que, na prática, tornam sua legitimação extremamente difícil no mundo contemporâneo.

O magistério recente vai ainda além. Na encíclica Fratelli Tutti, o papa afirma que, diante das armas modernas e da interdependência global, já não se pode falar em guerra como solução. A ênfase desloca-se da justificação para a rejeição: a guerra passa a ser vista como fracasso da política e da humanidade. A paz, por sua vez, deixa de ser mera ausência de conflito e passa a ser entendida como construção ativa de justiça.

Mesmo documentos mais antigos, como a bula Unam Sanctam, de Papa Bonifácio VIII, frequentemente citada fora de contexto para sugerir uma fusão entre poder espiritual e temporal, não sustentam a ideia de uma guerra religiosa como expressão legítima da fé cristã. Ao contrário, a tradição que se desenvolve posteriormente vai progressivamente delimitando e, em muitos casos, restringindo o uso da força, afastando a Igreja de qualquer legitimação direta de conflitos em nome da religião.

No campo social, encíclicas como Pacem in Terris, de Papa João XXIII, estabelecem um marco decisivo ao defender que a paz deve ser construída sobre verdade, justiça, caridade e liberdade — não sobre o equilíbrio do medo ou a imposição pela força. A guerra, nesse horizonte, aparece não como instrumento legítimo, mas como sintoma de falha ética e política.

Esse conjunto de ensinamentos forma o pano de fundo da posição contemporânea do papa. Quando Leão XIV rejeita a retórica de uma guerra “em nome de Jesus” ou a sacralização de conflitos geopolíticos, ele não está propondo uma ruptura, mas reafirmando um desenvolvimento orgânico da doutrina católica. A fé cristã, nesse quadro, não legitima a violência como meio de expansão ou defesa identitária; ela a submete a um juízo moral cada vez mais restritivo, orientado pela dignidade humana universal.

À luz desse percurso, torna-se insustentável — do ponto de vista teológico e histórico — qualquer tentativa de apropriar o cristianismo como linguagem de legitimação da guerra ou de projetos nacionais excludentes. Do Concílio Vaticano II às encíclicas contemporâneas, passando pelo Catecismo da Igreja Católica e por documentos como Pacem in Terris e Fratelli Tutti, o magistério converge em um ponto inequívoco: quanto mais a humanidade avança em sua capacidade de destruição, menos espaço resta para qualquer justificação moral da guerra.

 Insistir, portanto, em revestir conflitos políticos com linguagem religiosa não apenas contraria essa tradição — desfigura-a. E é precisamente contra essa distorção que a voz do papa se ergue: não como expressão de uma agenda ideológica contingente, mas como continuidade coerente de uma tradição que, ao longo do tempo, aprendeu a reconhecer na paz — e não na guerra — o verdadeiro critério de fidelidade ao Evangelho.