PENSAMENTO PLURAL De Paris a Campina Grande: a segunda vida de uma dança, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena narra a trajetória da quadrilha, dança originada na França do século XVIII como quadrille, até sua transformação em uma das maiores expressões culturais do Nordeste brasileiro. Ao chegar ao Brasil, a dança perdeu o caráter aristocrático e foi incorporada às festas juninas. Em Campina Grande, ganha uma nova identidade, tornando-se símbolo de memória, pertencimento e criatividade popular. A quadrilha deixa de ser apenas herança estrangeira e passa a representar a alma e a história nordestinas. Confira íntegra…

Há coisas que atravessam os séculos sem fazer barulho.

Não são impérios, exércitos ou tratados. São gestos. Palavras. Canções. Às vezes, uma dança.

Ninguém sabe exatamente quando a quadrilha decidiu abandonar a França. Talvez tenha partido numa noite de inverno, escapando dos salões iluminados onde damas e cavalheiros desenhavam figuras elegantes sobre pisos de madeira encerada. Talvez tenha embarcado escondida nos porões dos navios que cruzavam oceanos levando mercadorias, soldados e sonhos de grandeza imperial.

O fato é que partiu.

No século XVIII, chamava-se quadrille. Era filha da etiqueta, da geometria e da ordem. Quatro casais moviam-se como se obedecessem a uma coreografia escrita por arquitetos. Tudo possuía medida, ritmo e simetria. A dança era um espelho da sociedade que a produziu.

Mas o mundo tem o hábito de transformar aquilo que transporta.

Quando a quadrille chegou ao Brasil, encontrou uma terra onde as estações não obedeciam ao calendário europeu, onde as festas misturavam devoção e alegria, onde o povo possuía o raro talento de reinventar tudo o que recebia. A dança começou então a mudar de sotaque.

Perdeu a rigidez.

Ganhou riso.

Abandonou os lustres para viver sob a luz das fogueiras.

Os antigos salões cederam lugar aos terreiros. Os gestos aristocráticos aprenderam a conviver com a espontaneidade popular. As palavras francesas sobreviveram como velhas viajantes da memória — anarriê, balancê — já sem passaporte, já pertencentes a outro mundo.

E foi assim que a quadrille se tornou quadrilha.

Mas sua viagem ainda não havia terminado.

Porque algumas tradições parecem destinadas a encontrar sua forma definitiva muito longe de onde nasceram.

Em junho, Campina Grande transforma-se numa espécie de capital imaginária do Nordeste. Durante algumas semanas, o relógio da cidade parece funcionar de acordo com a sanfona. As noites se iluminam com bandeiras coloridas que dançam ao vento como pequenos pedaços de céu costurados à terra. O cheiro de milho assado mistura-se ao perfume da canela. O estalar das fogueiras responde aos acordes do forró. E multidões se reúnem para celebrar algo que é ao mesmo tempo festa, memória e rito de pertencimento.

É nesse cenário que a quadrilha revela sua segunda vida.

Quem a observa entrar na arena vê muito mais do que casais dançando.

Vê uma narrativa.

Vê um povo contando a si mesmo.

Os vestidos giram como redemoinhos de cor. Os pares se cruzam, afastam-se e reencontram-se. Há romances, despedidas, colheitas, promessas, secas e esperanças. Cada apresentação parece reunir fragmentos da história nordestina e transformá-los em movimento.

A dança já não recorda apenas a França.

Recorda o sertão.

Recorda os vaqueiros que seguiram caminhos de poeira sob o sol da Borborema. Recorda os agricultores que aprenderam a festejar mesmo nos anos difíceis. Recorda as mulheres que bordaram, cantaram e transmitiram tradições de geração em geração. Recorda os sanfoneiros que fizeram da saudade uma forma de música.

Talvez por isso Campina Grande não conserve a quadrilha como quem guarda uma peça rara dentro de uma vitrine.

Ela a reinventa.

Ano após ano.

Como se a tradição fosse menos um objeto do passado e mais uma fogueira que precisa ser alimentada para continuar acesa.

Ao final da festa, quando as luzes diminuem e os últimos acordes desaparecem na madrugada paraibana, permanece uma impressão curiosa. A de que a quadrilha continua dançando mesmo depois que a música termina.

Porque algumas viagens nunca acabam.

Aquela dança que nasceu entre espelhos franceses encontrou, no coração do Nordeste, algo maior do que um palco. Encontrou um povo capaz de adotá-la sem imitá-la, transformá-la sem destruí-la e amá-la sem esquecer que toda cultura vive de movimento.

E talvez seja esse o segredo de Campina Grande.

Não ter preservado uma herança estrangeira.

Mas ter lhe dado uma alma nova.

Afinal, há viajantes que passam pelo mundo. E há viajantes que encontram, no caminho, um lugar para recomeçar.

 

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