PENSAMENTO PLURAL Desastres como juízo político, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena argumenta que desastres naturais extrapolam a dimensão climática e funcionam como exame rigoroso da gestão pública. Enchentes e colapsos urbanos expõem falhas de planejamento, omissões preventivas e prioridades distorcidas, revelando a distância entre discurso e execução. Em um cenário de mudanças climáticas e urbanização acelerada, a resposta governamental deixa de ser episódica e passa a definir credibilidade, responsabilidade e legitimidade política. Confira íntegra...

Desastres naturais não revelam apenas a força das intempéries. Funcionam como um diagnóstico severo da qualidade da gestão pública. Enchentes, deslizamentos e colapsos urbanos expõem fragilidades acumuladas: ausência de planejamento territorial, ocupação irregular, infraestrutura insuficiente, falhas na drenagem, desatenção às mudanças climáticas e prioridades administrativas deslocadas.

Cada crise atua como um “raio-X” institucional. Torna visível aquilo que, em tempos de normalidade, pode ser diluído por discursos e campanhas publicitárias. A capacidade de prevenir, mitigar e responder a emergências deixa de ser abstração e passa a ser medida em fatos — na eficiência da defesa civil, na transparência dos gastos e na proteção efetiva da população mais vulnerável.

Em João Pessoa, episódios recentes de enchentes e pressões ambientais recolocam no centro do debate o modelo de desenvolvimento urbano adotado. A impermeabilização excessiva do solo, fruto da asfaltagem indiscriminada, compromete a drenagem. A fragilidade na proteção das falésias do Altiplano, a redução de áreas verdes e a deficiência histórica no saneamento básico ampliam riscos e evidenciam um descompasso entre expansão econômica — especialmente ancorada no turismo — e infraestrutura adequada.

O impacto, contudo, não é apenas material. Desastres funcionam como momentos de avaliação pública concentrada. A sociedade passa a examinar não só a reação imediata do governante, mas o conjunto de decisões que antecederam a crise. Havia planejamento? Alertas técnicos foram ignorados? Recursos foram aplicados de forma preventiva ou apenas remediadora? A tragédia converte-se, assim, em critério objetivo de julgamento político.

A história recente demonstra que catástrofes podem redefinir destinos eleitorais. A incapacidade administrativa diante de crises climáticas ou terremotos já custou mandatos e desmontou hegemonias partidárias em diferentes países. Quando a tragédia expõe incompetência, omissão ou corrupção, o custo político tende a ser elevado — pois atinge o núcleo da credibilidade governamental.

No Brasil, essa lógica nem sempre se impõe com a mesma força. A indignação, muitas vezes, dissipa-se antes de se transformar em responsabilização efetiva. Anúncios emergenciais, promessas grandiosas e planos apresentados sob pressão eleitoral tentam reorientar a narrativa. Mas compromissos tardios não apagam omissões pretéritas, nem o marketing substitui resultados concretos.

Paradoxalmente, a devastação pode abrir uma janela de oportunidade. A ruptura institucional provocada por um desastre cria espaço para reformas estruturais que, em tempos ordinários, enfrentariam resistência política. A reconstrução pode significar mais do que reposição do que foi perdido: pode representar reordenamento urbano, fortalecimento da resiliência ambiental e revisão de prioridades públicas.

A escolha, contudo, é decisiva. Reconstruir repetindo vulnerabilidades é preparar a próxima crise. Reformar com visão de longo prazo é transformar tragédia em aprendizado coletivo.

Em um contexto de mudanças climáticas e urbanização acelerada, desastres deixam de ser fatalidades isoladas e passam a ser interpretados como indicadores de governança. Para incumbentes que buscam a reeleição ou aspiram a cargos mais altos, o desempenho diante dessas crises pesa não apenas sobre a continuidade administrativa, mas sobre a própria legitimidade política.

No fim, a natureza não vota — mas seus efeitos influenciam decisivamente quem permanece no poder. 

 

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