
O artigo do escritor Palmarí de Lucena sustenta que a “degradação da vida pública começa pela degradação das palavras”. Quando os termos políticos são usados de forma vaga, eufemística ou estratégica, deixam de esclarecer e passam a manipular. Rótulos simplificam identidades, expressões técnicas encobrem escolhas e conceitos amplos justificam decisões sem transparência. Defender a precisão da linguagem não é preciosismo, mas requisito democrático. Nomear corretamente é condição para restaurar confiança e fortalecer o debate público. Confira íntegra...
Há uma antiga advertência segundo a qual governar começa por nomear corretamente. A frase pode soar filosófica demais para o ritmo apressado da política contemporânea, mas guarda uma verdade elementar: quando as palavras deixam de corresponder aos fatos, o debate público se torna um jogo de sombras.
No Brasil, como em outras democracias, criamos um vocabulário confortável para atravessar crises sem enfrentá-las de frente. Não faltam expressões pomposas para disfarçar improvisos, nem rótulos mobilizadores para substituir argumentos. Medidas provisórias viram “pacotes estruturantes”; cortes orçamentários tornam-se “realinhamentos”; aumentos de impostos são apresentados como “ajustes necessários”. A palavra antecipa o julgamento e, muitas vezes, o encerra.
Não se trata de preciosismo gramatical. A forma como nomeamos as coisas molda a maneira como as compreendemos. Quando qualquer bairro periférico é chamado indistintamente de “gueto”, perde-se a dimensão histórica do termo e diluem-se as diferenças entre abandono urbano, exclusão social e segregação institucional. Se tudo cabe na mesma etiqueta, nada é examinado com rigor.
Isso vale para os rótulos identitários que passaram a organizar o debate público. O cidadão vira “o empreendedor”, “o servidor”, “o evangélico”, “o ambientalista”, como se cada pessoa pudesse ser reduzida a uma única condição. A política, que deveria articular interesses variados, termina por congelar identidades. A complexidade do indivíduo cede espaço à conveniência do estereótipo.
Há ainda as palavras importadas do mundo corporativo e transformadas em linguagem oficial. Fala-se em “governança”, “compliance”, “entregas”, “performance”, como se o Estado fosse uma empresa e a sociedade, um conjunto de clientes. Em certas áreas, o vocabulário técnico pode ser útil; mas, quando migra sem mediação para o discurso público, tende a esconder escolhas políticas sob uma aparência de neutralidade técnica.
Expressões vagas também abrem brechas perigosas. “Segurança nacional”, “interesse público”, “estabilidade institucional” são conceitos legítimos — e indispensáveis. Mas, quando empregados sem definição clara, podem justificar quase qualquer decisão. A elasticidade excessiva transforma a linguagem em instrumento de poder.
Isso não significa exigir que o discurso político seja acadêmico ou literário. A política é o território da negociação, da persuasão, do conflito administrado. Seu idioma será sempre mais áspero e pragmático. O problema começa quando a imprecisão se converte em método. Eufemismos passam a substituir diagnósticos; slogans tomam o lugar de explicações; fórmulas prontas dispensam reflexão.
O resultado é conhecido: cresce a sensação difusa de engano. Não necessariamente porque todos mintam o tempo todo, mas porque o idioma público perde densidade. O cidadão percebe que algo não encaixa entre o que se diz e o que se vive. Surge a descrença, essa erosão lenta da confiança coletiva.
A responsabilidade não é apenas de governantes. Jornalistas, formadores de opinião e eleitores também participam da circulação dessas palavras. Quando repetimos termos sem examiná-los, ajudamos a consolidar confusões. Questionar o vocabulário não é preciosismo; é exercício de cidadania.
Uma democracia madura não teme revisar suas expressões. Ao contrário, fortalece-se quando distingue com clareza o que é ajuste do que é corte, o que é prioridade do que é privilégio, o que é reforma do que é remendo. Nomear corretamente não resolve os problemas do País, mas impede que eles sejam encobertos por uma névoa retórica.
Se as palavras se afastam das coisas, o debate se afasta da realidade. E, quando isso ocorre, a política deixa de ser confronto transparente de ideias para se tornar disputa de narrativas vazias. Talvez o primeiro passo para recuperar a confiança pública seja este, aparentemente simples: devolver às palavras o peso que elas têm. Em tempos de ruído, clareza é um ato cívico.
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