PENSAMENTO PLURAL Entre a Procissão e a Semente: Memória Viva da Cultura Maia em Antigua, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena reflete sobre Antigua como espaço onde se entrelaçam heranças maias e coloniais, destacando o milho como símbolo de origem, resistência e renovação. As procissões, os tapetes e os rituais revelam uma memória viva que persiste apesar da história de apagamento indígena. Evocando vozes como Miguel Ángel Asturias e Rigoberta Menchú, o artigo apresenta a cultura maia como presença dinâmica, comparável a uma semente que, mesmo soterrada, continua a germinar no tempo. Confira íntegra...

Antigua desperta lentamente, como se cada manhã fosse uma recordação que retorna. Não é apenas o dia que nasce, mas uma camada de tempo que se revela: sob o sino das igrejas coloniais, sob o rangido das portas antigas, há uma respiração mais antiga que insiste em permanecer. É a respiração do milho.

Antes das procissões, antes dos altares e das imagens talhadas em madeira, havia o gesto primordial de semear. O povo maia não apenas cultivava o milho — reconhecia nele a própria origem. Ser humano era, de certo modo, ser planta: brotar, crescer, resistir ao tempo e, inevitavelmente, retornar à terra.

Essa visão encontrou eco universal quando Miguel Ángel Asturias, escritor guatemalteco laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1967, a transformou em linguagem ardente em Hombres de maíz, elevando ao mundo uma cosmovisão em que o humano e a terra são indissociáveis — uma verdade ancestral reconhecida internacionalmente.

As procissões de Antigua avançam como rios lentos. Há nelas uma solenidade herdada do barroco espanhol; contudo, o ritmo — paciente, repetido, quase ritual — revela outra genealogia. Os carregadores caminham como quem sabe que o peso não é apenas físico: carregam uma história. Sob as andas, entre o incenso e o murmúrio das orações, move-se uma memória que resiste ao apagamento.

Os tapetes, elaborados com rigor e devoção, constituem talvez a imagem mais eloquente dessa convivência de mundos. Efêmeros por natureza, existem para desaparecer — e, justamente por isso, condensam uma estética da impermanência profundamente próxima da cosmovisão maia. Nada é fixo; tudo se transforma. E, ainda assim, tudo retorna.

Há, porém, uma tensão que atravessa essa beleza. A história não foi benevolente com os povos originários desta terra. A conquista desarticulou equilíbrios, impôs silêncios e tentou reorganizar o mundo segundo outros referenciais. Ainda assim, aquilo que parecia destinado ao desaparecimento persistiu — não intacto, mas transformado, como o milho que germina mesmo após ser enterrado.

É nesse horizonte que a voz de Rigoberta Menchú, líder indígena guatemalteca laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 1992, se afirma com densidade histórica e ética. Seu testemunho foi reconhecido internacionalmente não apenas como denúncia, mas como afirmação dos direitos humanos e da dignidade cultural.

Somos feitos de milho e de tempo,
de sol, de terra e de memória.
Mesmo quando nos enterram,
germinamos — outra vez — na história.

Antigua, assim, não se reduz a um cenário colonial. Ela se configura como um palimpsesto cultural, onde diferentes temporalidades coexistem e se entrelaçam. As pedras não apagam o passado indígena; apenas o recobrem parcialmente, permitindo que ele continue a emergir nas práticas, nos rituais e nos gestos cotidianos.

Quando a procissão se dissipa e a cidade retoma seu ritmo, algo permanece. Não visível, mas sensível: a percepção de que o tempo, ali, não se organiza de modo linear, mas circular. O passado não está distante — encontra-se sob os pés, latente.

E, no fundo, tudo converge para uma imagem essencial: a semente. Pequena, silenciosa, mas portadora de futuro. Assim se inscreve a saga maia na história da Guatemala — não como vestígio estático, mas como presença viva, capaz de renascer continuamente.

Talvez seja essa a verdadeira crônica de Antigua: não a de uma cidade preservada no tempo, mas a de uma memória que, como o milho, nunca deixa de germinar.

 

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