PENSAMENTO PLURAL Entre coleiras e decretos, por Palmarí de Lucena

A crônica do escritor Palmarí de Lucena analisa, com ironia discreta, o quiproquó entre afeto privado e dever público na política de proteção animal. Ao explicar o termo pets como animais de estimação, o texto critica a substituição de critérios técnicos por empatia performática e a confusão entre gesto simbólico e gestão. Com humor contido e referência alegórica a A Revolução dos Bichos, defende a separação entre virtude pessoal e responsabilidade institucional como condição básica da boa administração pública. Confira íntegra…

A política local tem produzido, com frequência crescente, situações em que o ruído parece substituir a clareza. Não se trata de escândalos clássicos nem de disputas ideológicas abertas, mas de algo mais difuso: um quiproquó persistente entre o que pertence ao campo do afeto privado e o que deveria obedecer às regras da administração pública.

Nesse ambiente, a causa animal — legítima, necessária e socialmente relevante — passou a ocupar lugar de destaque. Pets, termo de origem inglesa hoje incorporado ao vocabulário cotidiano, designam animais de estimação, como cães e gatos, criados para companhia e vínculo afetivo. O problema não está na palavra nem na causa, mas na forma como esse universo simbólico é transportado para o interior da política institucional.

Quando figuras públicas — prefeito, vereador ou outros agentes políticos — manifestam apreço pessoal pela proteção animal, isso expressa sensibilidade individual. O equívoco começa quando esse apreço passa a confundir-se, ainda que apenas no plano da percepção pública, com critérios de organização administrativa, protagonismo político ou legitimidade técnica. A política deixa de falar a linguagem das normas e passa a operar no registro da empatia.

A literatura oferece uma chave útil para compreender esse deslocamento. Em A Revolução dos Bichos, George Orwell constrói uma alegoria sobre como causas justas podem perder densidade institucional quando regras claras cedem lugar a slogans morais. A comparação aqui é ilustrativa, não factual: serve para lembrar que entusiasmo não substitui método, e boas intenções não organizam sistemas complexos.

Políticas públicas de proteção animal exigem desenho técnico, integração com saúde pública, vigilância sanitária, urbanismo e meio ambiente. Demandam planejamento, indicadores, orçamento e transparência. Não se estruturam por afinidade emocional, vínculos familiares ou identificação simbólica — ainda que esses elementos componham o imaginário que mobiliza apoio social.

Quando essas fronteiras não ficam suficientemente nítidas, instala-se a confusão. A política corre o risco de parecer performática, mais preocupada em comunicar cuidado do que em sustentar políticas consistentes. O discurso se aquece; a gestão nem sempre acompanha. E o cidadão passa a ter dificuldade de distinguir onde termina o gesto simbólico e onde começa a política de Estado.

Há nisso um componente involuntariamente cômico. A linguagem pública se infantiliza, o debate se simplifica, e temas complexos são tratados como se bastassem empatia e boas intenções. Mas o humor tem prazo curto. A administração pública não opera no registro do afeto, e sim no da responsabilidade — que raramente rende aplausos fáceis.

Pets merecem cuidado. Políticas públicas, método. Quando essas duas esferas se confundem, não se produz sensibilidade — produz-se caricatura administrativa. O governo passa a falar a língua do afeto, mas a cidade continua exigindo a língua da gestão. O resultado não é exatamente um escândalo, tampouco uma virtude: é um quiproquó persistente, em que a boa intenção ocupa o lugar da regra e o improviso se apresenta como zelo. Pode até render simpatia momentânea. Mas, na vida pública, afeto não substitui critério — e confundir uma coisa com a outra costuma ser mais engraçado no papel do que eficaz na realidade.

 

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