PENSAMENTO PLURAL Entre crises e escolhas: o que o Brasil já aprendeu sobre energia — e o mundo ainda não, por Palmarí de Lucena

O Brasil enfrenta a nova crise do petróleo em posição relativamente favorável graças à sua matriz energética diversificada, aponta o escritor Palmarí de Lucena, ora na Guatemala. “Como destacou a revista The Economist, o uso consolidado de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, reduz a dependência externa e suaviza impactos de choques internacionais”, acrescenta. Embora não esteja imune à alta global dos preços, o país demonstra maior capacidade de adaptação, resultado de políticas de longo prazo que hoje se revelam estratégicas. Confira íntegra…

A cada nova turbulência no mercado internacional de petróleo, repete-se um roteiro previsível: preços em alta, inflação pressionada e governos em busca de soluções emergenciais. O que muda, de crise em crise, é quem está mais exposto — e quem, por escolhas feitas no passado, consegue atravessar o choque com menos sobressaltos.

O Brasil, desta vez, encontra-se mais próximo do segundo grupo. Não por acaso, mas por ter seguido um caminho que durante muito tempo foi visto com desconfiança: investir em alternativas energéticas quando o mundo ainda estava confortável com o petróleo barato.

Essa leitura, aliás, não é apenas doméstica. Em análise recente, a revista britânica The Economist chamou atenção para a capacidade brasileira de amortecer choques externos graças à sua matriz energética diversificada — um reconhecimento relevante vindo de uma publicação tradicionalmente cética com soluções fora do eixo das grandes economias.

Esse movimento, iniciado ainda no século passado, moldou uma matriz energética singular. Ao contrário de economias que permanecem rigidamente dependentes de combustíveis fósseis, o Brasil construiu um sistema híbrido, no qual derivados de petróleo convivem com fontes renováveis em escala relevante. O etanol e o biodiesel deixaram de ser apostas experimentais para se tornar componentes estruturais.

O efeito dessa escolha aparece com mais nitidez em momentos de crise. Quando conflitos internacionais comprimem a oferta global e elevam preços, países sem alternativas imediatas enfrentam aumentos abruptos que se propagam rapidamente pela economia. No Brasil, o impacto existe — mas encontra amortecedores.

Um deles está na própria lógica de consumo. A ampla difusão de veículos capazes de operar com diferentes combustíveis cria uma flexibilidade que não se encontra com facilidade em outros mercados. Essa característica permite ajustes mais rápidos, reduzindo a dependência direta de um único insumo.

Outro fator relevante é a integração entre energia e agricultura. Ao transformar matérias-primas agrícolas em combustível, o país não apenas diversifica sua matriz, como também internaliza parte da produção energética. Isso reduz vulnerabilidades externas e, ao mesmo tempo, dinamiza setores produtivos estratégicos.

Há, porém, um equívoco recorrente que precisa ser evitado: o de interpretar essa relativa vantagem como imunidade. O Brasil não está isolado das flutuações globais — e nem poderia estar. O petróleo continua a desempenhar papel central na economia mundial, e seus ciclos afetam, em maior ou menor grau, todos os países.

A diferença está na intensidade do impacto e na capacidade de resposta. Nesse aspecto, a experiência brasileira oferece uma lição relevante: políticas de longo prazo, ainda que custosas ou impopulares em sua origem, tendem a produzir resiliência quando mais se precisa dela.

O cenário atual também abre uma janela de oportunidade. À medida que outras nações buscam alternativas para reduzir sua exposição a crises energéticas e cumprir metas ambientais, modelos já testados ganham valor estratégico. O Brasil, que durante anos tratou seus biocombustíveis como solução interna, pode agora reposicioná-los como ativo geopolítico.

Para isso, contudo, será necessário mais do que capitalizar vantagens existentes. Será preciso aprimorar governança, garantir estabilidade regulatória e investir em tecnologia. Sem esses elementos, o risco é transformar um diferencial competitivo em mais uma promessa não realizada.

Crises, por definição, expõem fragilidades. Mas também revelam acertos. No campo energético, o Brasil colhe hoje os frutos de decisões que, no passado, pareciam apenas alternativas. Em um mundo cada vez mais volátil, essa distinção faz toda a diferença — como bem observou The Economist ao analisar o papel singular do país neste novo choque do petróleo.

 

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