
O cineasta Durval Leal, em seu texto, discorre sobre a banalização dos escândalos que infestam o País, a partir da Paraíba, com a Operação Calvário. Mas, também o que vem acontecendo nas cortes de Brasília, com seu festival de decisões monocrática. “O eleitor vê, comenta, ri por falta de lágrimas, chora e segue a vida, porque a vida também tem feira, ônibus, remédio e conta atrasada”, lamenta. Confira íntegra…
Algo ainda me surpreende: a Paraíba, promontório oriental das Américas, barroca de pedra e de água, de paisagem e de gente. Gente de toda ordem, dos ilustres aos folclóricos, dos heróis aos vilões de esquina. Está sem escando de um governador há oito anos.
Aqui, personagem não passa; vira placa, apelido, lenda de calçada, caricatura do bem ou do mal, e segue desfilando na memória como quem não paga aluguel.
E quando alguém pergunta quem construiu a lagoa do Parque Solon de Lucena, ou quem foi o botânico de plantão, o assunto vira aula improvisada: memória como patrimônio, mas também como desculpa para não encarar o presente.
Lembramos Pedro Américo, o índio Poti – Felipe Camarão, e lembramos também dos anônimos que viraram referência: Caixa D’Água, Vassoura – Maria Izabel Bandeira Brasileira, essa cidadã já veio montada, bem antes da cavalaria dos Bolsominion, e o marginal Pedro Corredor.
Cada bairro coleciona seus santos laicos e seus demônios domésticos, porque é no bairro que o artista aprende a beber o mundo: primeiro gole, primeira briga, primeira paz, primeiro aplauso roubado do boteco. E traz do berço a verve de roubar.
E há os grandes de verdade: Pedro Osmar, o Sr. do aboiar vaca mecânica, por aqui tem o sabor da carne de sol, conversas sossegadas em Jacaré, na Torre, a vitalidade dos Malandros do Morro aos Ubirajaras de Mario de Andrade. O Cabo Branco de Alex Madureira que solou o primeiro nascer do Sol a Jimi Hendrix.
Dizem que a cidade foi construída de costas para o mar; talvez. Mas nunca deixou de olhar para o promontório como quem consulta um relógio: para saber se o tempo melhora ou se apenas muda de bolso para os oligarcas do cimento.
Quando o assunto é política, a Paraíba vira espelho do Brasil com moldura dourada e rachadura discreta. Uns entram como gestores e saem como proprietários; outros são denunciados como usurpadores do bem público e, ainda assim, mantêm pose de benfeitores. O eleitor vê, comenta, ri por falta de lágrimas, chora e segue a vida, porque a vida também tem feira, ônibus, remédio e conta atrasada.
Em cinquenta anos, os escândalos viraram estação do calendário. Lembram-se daquele Governador que fez o Anel do Brejo, e nunca mais faltou emprego à família e aos parentes na construtora, por aqui certos sobrenomes aprenderam a não passar mal: criaram filhos, mandatos, feudos, amebas políticas, e às vezes até virtudes por economia de conflito. Exceções existem, seja por falta de tempo, seja porque o herdeiro preferiu ser apenas mais um medíocre em paz.
QUEM CONSEGUE ESQUECER OS OITO ANOS DO CALVÁRIO NA PARAÍBA DOS “ESCROTINHOS”
Por isso o espanto: nos últimos oito anos, não se viu um grande escândalo explícito de corrupção no Executivo Estadual. Não que eu tenha votado nele, não votei, não votaria, pelo antecessor que o fez, e não pretendo praticar esse esporte, mas o fato bruto incomoda a lógica local.
Como assim oito anos sem o espetáculo do escândalo em praça pública?
Depois dos “Escrotinhos”, nada poderia ser pior inclusive a surpresa de não vermos manchetes do Ministério Público escrachando os tratos camuflados na Saúde ou na Educação, terceirizada por “Organizações Sociais”, que tinham o direito a 20% se segurasse nas mãos.
MAS TUDO COMEÇOU COM A TAL DE “JAMPA DIGITAL”, POIS QUEM SABE, SABE E LEMBRA.
O silêncio administrativo, quando existe, não é sinônimo de pureza; é só ausência de fumaça visível. No Nordeste, até a brisa pode carregar segredo, e a brisa costuma soprar onde há sombra. Quem não se lembra do Calvário da Paraíba SAQUEADA por uma tormenta de girassóis irmanados.
Isso no Extremo Oriental uma infestação de “Girassóis”, unidos pelas mãos, assaltou os cofres públicos, mas tiveram uma Salvaguarda de nuvens negras do STF. O contraste com o governo anterior é lembrança que insistente. Foram oito anos de ruído: processos, Tribunal de Contas, Ministério Público, depoimentos, delações em séries, investigações, prisões, manchetes em letras garrafais. E aí o roteiro fez a curva clássica: subiu a Brasília, ganhou carimbo de “complexo”, recebeu uma decisão providencial e, com a elegância de um truque velho, foi parar numa gaveta que fecha sozinha.
NADA FICOU “RESOLVIDO” NO SENTIDO MORAL; APENAS ARQUIVADO NO SENTIDO PRÁTICO.
A opinião pública continuou repetindo o que viu; o Ministério Público recorreu; os autos seguiram existindo; e a sensação permaneceu: crime não desaparece, muda de endereço. O Brasil é um país onde o fato às vezes perde para o despacho, e o despacho ainda pede silêncio como se fosse virtude cívica.
Enquanto isso, na cidade, o enredo municipal não é menos ruidoso. Há prefeito com passado de prisão, que será governador? Há notícias e denúncias sobre alianças espúrias nos bairros para colher voto, há primeira-dama citada em apurações federais, e há sempre a pergunta que ninguém responde sem se queimar: A POLÍCIA FEDERAL ESTÁ ERRADA, OU É A POLÍTICA QUE SE ACHA ACIMA DO ERRO?
Perguntar é perigoso, e responder é uma temeridade, mais ainda.
Temos o STF amealhando para proteger uns párias das urnas.
E o Judiciário local, que ontem dizia uma coisa por unanimidade, hoje recua por “acordo”. A palavra tem vocação para eufemismo: tanto serve para pacificar quanto para disfarçar. Como mudam, de repente, opiniões da corte sobre gabarito, lei urbana e conveniência? Dizem que a consciência amadurece; eu, mais cínico, desconfio do adubo e do jardineiro.
Nessa hora entram as pérolas monocráticas do STF, essas decisões que cabem numa caneta e desafiam a evidência que o cidadão percebe no cheiro do dia. Monocrático é um modo elegante de dizer: “vi sozinho, decidi sozinho, e você que engula a sua certeza”.
A tese costuma vir embaladinha: faltou prova robusta, sobrou delação; faltou forma, sobrou realidade; faltou prazo, sobrou esquecimento. O mais curioso é o efeito pedagógico: uma canetada apaga anos de trabalho investigativo e, de quebra, ensina que o esforço institucional é perecível. O cidadão aprende a desconfiar da prova, não por ignorância, mas por cansaço de ver a prova tratada como detalhe.
E assim volto ao meu espanto inicial: fica a impressão de que a corrupção, quando não explode em manchete, circula em baixa voltagem: discreta, institucional, elegante, sem estardalhaço. E a impressão continua quando os escândalos parecem ser substituídos por arranjos, recuos, pareceres e sentenças que não negam o fato, apenas o empurram para longe do alcance do povo.
Na Paraíba, o personagem continua; só trocou a máscara. No fim, sobra o comentário de esquina: quem não aparece na página policial pode apenas ter aprendido a assinar melhor, limpo, com carimbo e gravata.
O teatro segue, e o aplauso agora é de obrigação, com ingresso pago em silêncio. E agora seus Joãos e Josés eleger quem?
Com antecedentes ou ET familiar, pois de novo só o silêncio do esquecimento.
DESDE CEDO DECIDI QUE NÃO SEGURO NA MÃO DE POLÍTICOS.
AS CORTES ABNEGADAS
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