PENSAMENTO PLURAL Eu, Paraíba, por Palmarí de Lucena

A crônica do escritor Palmarí de Lucena examina, com ironia mordaz e sátira política, o vaivém de alianças na Paraíba, onde partidos são figurantes e famílias ditam o enredo. Inspirada em Eu, Cláudio, descreve rupturas e reconciliações como brigas de clã, guiadas por herança, conveniência e cálculo frio. Escândalos não são resolvidos: cansam. “Dissolvem-se na fadiga eleitoral, enquanto o poder permanece em casa e a democracia espera do lado de fora”, lamenta. Confira íntegra...

Na política paraibana, quem procura coerência perde tempo; quem procura árvore genealógica encontra tudo. Alianças nascem, morrem e ressuscitam com a naturalidade de um drama doméstico mal resolvido. Partidos são figurantes. O enredo, esse sim, pertence às famílias — verdadeiras casas imperiais onde o poder não se conquista: herda-se, disputa-se entre parentes e, quando necessário, elimina-se simbolicamente o primo incômodo.

Não é por acaso que certas movimentações lembram “Eu, Cláudio”. Na Roma antiga, o império era governado menos pelo Senado do que pela sala de jantar, pelos cochichos de corredor e pelos casamentos estratégicos. Na Paraíba, muda o figurino — sai a toga, entra o paletó —, mas o método permanece intacto: alianças não se firmam por convicção; firmam-se por sangue, sobrenome e cálculo frio.

Quando uma coligação se rompe, não é por divergência programática. É briga de clã. Uma família se sente subrepresentada, outra acha que merece mais espaço, um herdeiro julga-se pronto antes da hora. O rompimento vem acompanhado de nota dura, palavras como “traição” e “quebra de confiança”. Pouco depois, a reconciliação surge como gesto de “grandeza política” — e todos fingem surpresa diante do inevitável.

O eleitor, nesse teatro, ocupa o papel do observador lúcido e impotente. Vê tudo, entende tudo, mas decide pouco. Reconhece os sobrenomes como quem acompanha uma série longa demais, já sabendo quem cairá em desgraça, quem retornará do exílio político e quem será promovido por simples laço familiar.

Na política local, escândalos não terminam: cansam. As acusações antigas, os causos inconvenientes e a má reputação construída com zelo ao longo dos anos não são apagados; evaporam na névoa da fadiga eleitoral, onde tudo fica indistinto e ninguém mais tem energia para exigir explicações. Não há absolvição — há exaustão. Não há esquecimento — há desistência.

Os partidos funcionam como túnicas de ocasião. Trocam-se conforme a estação e a conveniência do clã dominante. Hoje vestem uma sigla com discurso moralizado; amanhã, outra mais espaçosa, capaz de acomodar a parentela inteira. O discurso acompanha a troca como narrador indulgente.

Como em “Eu, Cláudio”, ninguém governa sozinho. Governa-se em família, contra a família ou à espera da próxima traição doméstica. O voto entra como ritual de coroação — raramente como escolha.

No fim, a política paraibana se parece menos com um projeto coletivo e mais com uma saga dinástica de temporadas intermináveis. Mudam os protagonistas, reciclam-se os discursos. O poder permanece em casa — e a democracia, do lado de fora.

 

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