
Em sua crônica, o cineasta Durval Leal observa como “ao longo do tempo, por onde ando, fico olhando as criaturas humanas andam e se comunicam em movimento. Não por mania de julgamento, mas por curiosidade de linguagem: o corpo anuncia antes da boca”, e indaga: “como é que alguém enfrenta desafios, se até o próprio corpo parece caminhar em dúvida?”. Confira íntegra...
Não é que soe falso: eu realmente não sei andar. Não porque me faltem pernas, mas porque me falta postura, e postura, convenhamos, não é acessório, ela é acima de tudo estrutura. Eu tento construí-la diante do fato, como quem arma um tripé no terreno irregular, você consegue mas exige atenção.
Quando caminho, sinto que não “represento” bem o andar, como se eu errasse a marca no chão. Não consigo fazer cena nem por 25% do tempo do meu juízo. E aí a pergunta volta, teimosa: como é que alguém enfrenta desafios, se até o próprio corpo parece caminhar em dúvida?
SOUBE CEDO QUE O ANDAR É LINGUAGEM.
Na minha trajetória no cinema, desde quando iniciei como cabo man, antes se enrolava muito fios durantes as filmagens e na caminhada cheguei na produçãoexecutiva, entendi que cada departamento tem um jeito de existir, e um jeito de se mover. São muitos segmentos no fazer audiovisual, muitos bastidores e muitas singularidades ao longo do caminho. Fui da produção de locação, atividade que eu mais admirei e gostei de fazer, até esbarrar no produtor de elenco.
E é aí que o “saber andar” deixa de ser metáfora e vira critério. Porque, no set, até o corpo precisa estar afinado com a intenção.
No cinema, há vários fatores que compõem o quadro: a paisagem ligada à fotografia, a direção de arte que compões o detalhe, os objetos que parecem calados, mas falam. E, no centro disso, a figura humana.
A figura humana é, essencialmente, a narradora daquele espaço. Como narradora, ela se mobiliza: caminha ao longo da cena, sustenta o personagem, carrega o tempo. O andar vira ação e sua postura, uma espécie de argumento silencioso. E eu, que tanto observo enquadramento, luz e ritmo, volto a tropeçar no básico: como colocar a coluna, para que a ideia não chegue toda torta?
Percebi tudo isso também no cineclube: como espectador e como formador de platéia. Iniciei minhas atividades no NUDOC/UFPB, em 1987, viajando pelos sete campi da UFPB na Paraíba, exibindo filmes 16 mm para jovens universitários que desejavam ver, ler e aprender um pouco da linguagem do cinema.
Eu mais aprendi do que ensinei, levei, organizei, mas recebi muito mais. A troca me mostrou nuances: como cada um constrói perguntas, como cada um carrega dúvidas no corpo sem perceber. Alguns sentavam como quem se defende; outros andavam como quem pede licença ao próprio destino.
Com personagem em cena, saber andar é dominar a ação. E isso não é poesia mas gera uma observação. Eu era jovem quando fui designado para fazer um teste de seleção de elenco. Era para um comercial, não para um filme, e não sabia como resolveria aquela missão, era o início de carreira.
O produtor não podia ir e me jogou a batata quente na mão. Fiquei angustiado, sem saber resolver. Um colega, experiente no Recife, me disse: “Fica frio. Presta atenção em como as pessoas andam. Pede para sentar. Se for mulher, pede para cruzar as pernas. Não te preocupas, no comercial raramente tem falas. Fica atento pois a verdade, primeiro, estará escrita no andar.”
Eu fiz, e aprendi. E, ao longo do tempo, por onde ando, fico olhando as criaturas humanas andam e se comunicam em movimento. Não por mania de julgamento, mas por curiosidade de linguagem: o corpo anuncia antes da boca.
Começo a lembrar de Lucy, a Australopithecus Afarensis, “uma das primeiras hominídeas associadas ao andar bipede”. A ideia me persegue porque a evolução, ali, parece uma aula de ergonomia: levantar, alinhar, seguir. A beleza que a gente procura às vezes está no simples perceber o caminhar com menos ruído interno.
Afinal, se o corpo se organiza, a cabeça tem chance de pensar no horizonte a frente sem ter o mundo nas costas.
Afinal, se o corpo se organiza, a cabeça tem chance de pensar no horizonte a frente sem ter o mundo nas costas.
E há um humor involuntário nisso: a gente fala de “enfrentar desafios” como se fosse só coragem, e esquece que coragem também depende de conforto. Quando a postura falha, o desafio cresce; quando a coluna reclama, o mundo fica pesado.
Eu penso na beleza e na desenvoltura do cavalo árabe, no seu “livre e doce trotar”, e me dou conta de que até a elegância tem mecânica. O andar, além de aprendizado, é dádiva: coluna ereta, cabeça olhando para frente, o mundo inteiro a ser visto no caminho a frente. E eu, às vezes, andando como se pedisse desculpa.
A ergonomia do andar, no meu caso, vira um lembrete prático: sentir-se bem para agir de forma consciente. Não é luxo mas uma condição. Um corpo desalinhado puxa a atenção para o incômodo. Um corpo mais ajustado libera a atenção para a escolha. Nas escolhas é onde mora a consciência.
Quando eu me pego tentando “construir postura”, entendo que não estou só endireitando ombros, também estou organizando a intenção. Porque, se eu caminho melhor, eu penso melhor; se eu penso melhor, eu decido melhor. E isso serve para qualquer cidadão que queira bem-estar físico sem virar refém da própria tensão.
No fim, eu volto à frase inicial e a trato com menos drama e mais método: talvez eu saiba andar, só não sei ainda sustentar o andar como narrativa.
E narrativa, eu sei, não nasce pronta; ela se ensaia como Gilberto Gil escreveu a letra e música “A RAÇA HUMANA”.
“A raça humana risca, rabisca, pinta
A tinta, a lápis, carvão ou giz
O rosto da saudade
Que traz do gênesis…”
Entre o set e a calçada, o princípio é o mesmo: alinhar o corpo para alinhar o gesto para conquistar mais alguns metros a frente.
E, ENTÃO, SEGUIR CAMINHAR. COM HUMOR, E COM RUMO.
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