PENSAMENTO PLURAL Gigantes emergentes querem mudar as regras do dinheiro global, por Palmarí de Lucena

A articulação dos BRICS em torno de moedas digitais reflete a busca por maior autonomia em um sistema financeiro ainda dominado pelo dólar, aponta do escritor Palmarí de Lucena em seu texto. Com cerca de 40% da população e da economia mundial, o bloco tenta reduzir vulnerabilidades a pressões externas, como tarifas e sanções. A iniciativa pode simplificar transações e fortalecer o comércio interno, mas enfrenta desafios técnicos e políticos. No pano de fundo, está a disputa por influência na redefinição das regras econômicas globais. Confira íntegra…

A reorganização silenciosa da economia global já não pode ser ignorada. Ela não se anuncia por rupturas abruptas, mas por movimentos graduais que, somados, indicam uma transição em curso. A articulação entre países dos BRICS — agora ampliados — em torno de instrumentos financeiros próprios, como a integração de moedas digitais, é um dos sinais mais claros dessa mudança.

Não se trata de um gesto isolado nem meramente tecnológico. A proposta de conectar moedas digitais soberanas reflete um incômodo estrutural: economias que concentram parcela significativa da produção e da população mundial continuam operando sob um sistema que depende, em grande medida, de uma única moeda e de instituições externas ao seu controle.

Os números ajudam a dimensionar essa contradição. O bloco reúne algo entre 40% e 45% da população global — mais de três bilhões de pessoas — e responde por cerca de 40% da atividade econômica mundial quando medida por paridade de poder de compra. Trata-se de um conjunto de países que combina escala demográfica, capacidade produtiva e relevância comercial. Ainda assim, essa presença não se traduz proporcionalmente em autonomia financeira.

A dependência do dólar como moeda intermediária no comércio internacional permanece como um dos principais vetores dessa assimetria. Mesmo transações entre países que não têm relação direta com os Estados Unidos acabam passando por esse circuito, o que implica custos adicionais, exposição cambial e vulnerabilidade a decisões de política monetária externa. Em momentos de tensão, essa dependência pode se transformar em instrumento de pressão.

Não por acaso, medidas como tarifas punitivas, restrições indiretas por meio de exigências sanitárias e o uso de sanções financeiras têm sido utilizadas como ferramentas de influência geopolítica. Para economias emergentes, os efeitos são imediatos: redução de competitividade, incerteza nos fluxos comerciais e limitação de acesso a mecanismos de financiamento.

É nesse contexto que a integração de moedas digitais ganha relevância. Ao permitir transações diretas entre moedas nacionais, sem a necessidade de conversões sucessivas, a iniciativa aponta para um modelo potencialmente mais eficiente e menos dependente. Mais do que inovação, trata-se de uma tentativa de alinhar a infraestrutura financeira ao peso real dessas economias.

O impacto, se concretizado, pode ir além das grandes operações comerciais. Pagamentos internacionais mais simples, redução de custos para empresas e até facilitação de gastos cotidianos — como no turismo entre países do bloco — são desdobramentos possíveis. A digitalização, nesse caso, funciona como catalisador de uma integração mais profunda.

Mas o caminho está longe de ser trivial. A interoperabilidade entre sistemas nacionais distintos, com arquiteturas tecnológicas e marcos regulatórios próprios, é um desafio de alta complexidade. Questões relacionadas à segurança, privacidade e governança de dados também precisam ser equacionadas. A tecnologia, embora promissora, não elimina a necessidade de coordenação política.

E esse talvez seja o ponto mais delicado. O bloco é marcado por heterogeneidade: diferentes níveis de desenvolvimento, prioridades nacionais diversas e visões nem sempre convergentes sobre o papel do Estado e do mercado. Transformar potencial agregado em ação coordenada exige mais do que alinhamento circunstancial — requer estratégia de longo prazo.

Ao mesmo tempo, há limites claros para qualquer tentativa de ruptura. O sistema financeiro internacional não se reorganiza apenas com base em حجم econômico ou populacional. Confiança, previsibilidade e estabilidade institucional continuam sendo ativos decisivos — e são construídos ao longo do tempo.

Ainda assim, o movimento em curso aponta para uma tendência inequívoca: a de um mundo menos concentrado e mais multipolar. A hegemonia de uma única moeda tende a ser progressivamente tensionada, não necessariamente substituída, mas cercada por alternativas viáveis. Nesse cenário, a criação de mecanismos próprios de pagamento, financiamento e regulação passa a ser menos uma escolha e mais uma necessidade.

Proteger-se de pressões externas — sejam elas comerciais, regulatórias ou financeiras — não implica isolamento, mas diversificação. Para os BRICS, isso significa reduzir vulnerabilidades sem abdicar da inserção global. Significa, sobretudo, transformar peso econômico e demográfico em capacidade efetiva de influência.

O debate sobre moedas digitais, tarifas ou padrões sanitários é, no fundo, apenas a superfície de uma questão mais ampla: quem define as regras do sistema internacional. À medida que novas forças econômicas se consolidam, a resposta tende a deixar de ser única — e o equilíbrio global, inevitavelmente, se tornará mais complexo.

 

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