
O artigo do escritor Palmarí de Lucena analisa a hipótese de retorno do herdeiro do xá ao centro do poder iraniano, confrontando simbolismo histórico e realidade institucional. Recorda que a repressão e a corrupção do antigo regime, especialmente por meio da SAVAK, contribuíram para sua queda e para a ascensão dos aiatolás. Destaca ainda a diversidade étnica e religiosa do país e os riscos de fragmentação diante de crises internas. Conclui que o “futuro do Irã dependerá menos de linhagens e mais de legitimidade institucional e consenso político”. Confira íntegra…
Sempre que o Irã retorna ao centro do noticiário internacional, ressurge uma indagação que mistura história e hipótese: poderia o herdeiro do último xá desempenhar algum papel num eventual processo de transformação política? A pergunta reaparece como símbolo de alternativa, mas também como expressão de impasse. Entre evocação histórica e realidade institucional, o debate exige sobriedade.
Reza Pahlavi, filho de Mohammad Reza Pahlavi, deposto em 1979, afirma não reivindicar restauração automática da monarquia, mas defender um referendo que permita aos iranianos escolher livremente sua forma de governo. O discurso desloca o foco do trono para a urna. Ainda assim, o sobrenome carrega peso político — e a memória da monarquia permanece ligada às circunstâncias que levaram à revolução.
Qualquer reflexão sobre eventual retorno monárquico exige enfrentar o legado do próprio regime do xá. A modernização econômica conviveu com um sistema político pouco tolerante ao dissenso. A concentração de poder, denúncias de corrupção entre setores próximos ao palácio e a crescente distância entre governo e sociedade alimentaram ressentimentos profundos.
Nesse contexto, a atuação da SAVAK, polícia secreta do regime, tornou-se símbolo do autoritarismo estatal. Acusações de vigilância extensiva, prisões arbitrárias e métodos coercitivos reforçaram a percepção de que a estabilidade era mantida mais pelo medo do que pelo consentimento. A repressão, concebida para proteger a monarquia, corroeu sua legitimidade.
O efeito foi paradoxal. Ao tentar neutralizar opositores, o regime aproximou correntes ideológicas distintas — liberais, nacionalistas, grupos de esquerda e lideranças religiosas — em torno da derrubada do xá. A crise de confiança abriu espaço para que os aiatolás emergissem como referência capaz de canalizar o descontentamento.
Quase meio século depois, o país vive sob outra arquitetura de poder. A República Islâmica consolidou estruturas institucionais próprias, com mecanismos internos de sucessão e forças de segurança influentes. Não há, no arranjo vigente, caminho simples para restauração dinástica. Qualquer transição dependeria de ruptura profunda ou de pacto político amplamente legitimado.
O Irã não é homogêneo. Embora majoritariamente xiita, abriga diversidade étnica e religiosa significativa. Persas convivem com azeris, curdos, árabes, baluchis e turcomenos, compondo mosaico historicamente integrado, mas não isento de tensões. Demandas regionais por maior autonomia já emergiram em diferentes momentos. A unidade territorial depende de equilíbrio político contínuo.
Eventos traumáticos podem alterar esse equilíbrio. O assassinato de um líder religioso xiita de grande projeção não seria apenas episódio doméstico. Seus efeitos reverberariam em comunidades xiitas no Iraque, no Líbano, no Paquistão e em outros países da região. A morte de autoridade espiritual com influência política tende a mobilizar luto coletivo e narrativas de agressão identitária.
Internamente, tal fato poderia produzir efeitos ambíguos: reforçar coesão em torno da defesa religiosa e nacional ou intensificar fissuras políticas e regionais. Em sociedades plurais, acontecimentos dessa magnitude funcionam como catalisadores — tanto consolidam quanto fragmentam.
A evocação do passado pode servir como crítica ao presente, mas não substitui o desafio de construir instituições capazes de acomodar diversidade e produzir legitimidade. Nenhum símbolo dinástico resolve, por si, demandas contemporâneas por representação e estabilidade.
O futuro do Irã não se definirá por linhagem, mas por capacidade institucional. Entre heranças históricas e pressões atuais, o país enfrenta encruzilhada que exige mais do que memória — exige engenharia política. Se houver mudança, dependerá menos de nomes e mais de consensos, e da habilidade de preservar coesão nacional em meio às próprias fissuras.
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