PENSAMENTO PLURAL Jogar conversa fora, por Durval Leal Filho

“Jogar conversa fora é resistência. É dizer não à lógica do algoritmo que quer me prender em bolha. É dizer sim ao caos bonito de uma conversa que começa em política e termina em receita de bolo”, é o postula em seu comantário o cineasta Durval Leal. E ainda: “Desde a caverna até as redes neurais, a gente só queria isso: alguém por perto quando a noite escurece. Alguém que mostre as suas sombras.” Confira íntegra…

Tenho me sentido triste ultimamente, não é uma tristeza de choro e soluço.

É uma tristeza quieta, do tipo que aparece quando a gente percebe que perdeu um hábito antigo: jogar conversa fora.

Estou perdendo companhias de gente, queridas, com quem eu gosto de estar junto, sem pressa, sem assunto definidos. Gente que aprendeu a ouvir o outro, a tentar entender, a perceber o outro e a trilha que seguiu a partir da escuta, da empatia, da crença no outro.

Sou feliz também, apesar disso. Sou feliz porque ainda existem amigos com quem converso depois do Bom Dia Brasil, depois de tomar a medicação, depois de aceitar os limites do corpo, com o incenso abrindo os caminhos.

Conversar, mesmo com delay, mesmo sem o olho no olho, mesmo sem o riso imediato que pega fogo quando o outro ri primeiro. São poucos esses momentos, mas existem. E existir já é muito. Às vezes e muitas por celular.

Jogar conversa fora é TUDO DE BOM porque as falas se entrelaçam. Numa conversa de verdade existem pausas que são caminhos. No meio da frase do outro, a gente escuta e descobre um atalho para dentro de si. Escutar vira exercício de memória. Vira brincadeira. Vira vontade de entender. Os teóricos da natureza humana já discutiram isso: o homem se fez humano pela escuta e pela narração. Juntos.

Desde os primórdios, a gente se reúne ao redor da carcaça e do fogo. Nem sempre havia carniça para dividir, mas sempre havia necessidade de se agrupar. Para combinar, para correr atrás do alimento, para escutar. A fogueira, a noite, alimentava os medos da caçada. As sombras das labaredas dançavam. A sonoridade do crepitar das chamas criava um clima de mistério. E, a partir daí, nasceu a narração. Nasceu a escuta. Nasceu a proteção.

Dormia-se mais perto do fogo, longe do medo das sombras que atravessavam a noite. Acreditava-se que, depois da escuridão, nasceria o grande rei Sol.

Assim o homem começou: jogando conversa fora. Contando o dia, inventando o amanhã, nomeando o medo para que ele ficasse menor. Fez o primeiro deus o SOL. Jogar conversa fora com um amigo é arte, discorrer dos delírios. Você escuta. Faz pergunta inconveniente. Quer saber até onde vai a verdade daquela narrativa. Ao mesmo tempo, você acende luz para o resto do grupo.

A amizade se faz assim: escutar, aprender, sentir um fio de inveja boa e, mesmo assim, emanar o desejo do bem. Bem comum. Bem do outro para mim, o rebatimento da volta, querer o bem meu, do eu, para o outro, sem receio e sem compromisso.

Horas e horas se vão assim. Viajamos do grego aos titãs, das mães de santo das águas à aridez da caatinga ao solo pedregoso da Grécia, das mulheres do Jequitinhonha que moldam o artesanato até o sujeito que ficou rico sem criar nada, sem trabalhar, sem ter empresa e esbanja. Ficou rico e não sabe falar, não sabe entrar, não sabe sair. A gente joga conversa fora olhando para o mundo. E, olhando para o mundo, a gente fica triste.

Fica triste porque não enxergamos, por enquanto, um futuro fácil para os nossos bisnetos ou tataranetos, se tivermos. O que se constrói hoje, nessa raça de gente que está construindo o mundo, vai tornar difícil imaginar um lugar bom para os nossos descendentes e trinetos.

Eu sonhei com um sítio, sonhei com água e terra. Com netos plantando e comendo coentro, batata, inhame, macaxeira, cuidando das águas para se fartarem da água para matar a sede e cozinhar o básico. Com espaço para ocupar e suar. Não sei ainda se verei isso e quando teremos isso. Não sei se meus netos vão querer. Sonho de conversa jogada fora.

São perguntas que aparecem quando a gente conversa e vê os filhos crescerem e busca encontrar os netos. São histórias dos netos em que a gente precisa acreditar para contar. Hoje as crianças pensam muito rápido. São nativos digitais, não sobem mais em árvores, criam bichos com o veterinário, da esquina, explorando sua carência com sua insegurança como o bicho.

Eu me pego pensando se os netos vão entender isso. Se vão saber o valor de uma tarde perdida conversando sobre nada. Sobre tudo. Sobre o preço do coentro e sobre o sentido da vida na mesma frase. Se vão ter paciência para o “jogar conversa fora” num mundo que cobra produtividade até do descanso.

Acredito nas sinapses neurais e no ócio. Elas precisam de gatilhos. O gatilho precisa de reação. A reação precisa de tempo para processar, para pensar, para refletir. Com os dados e os algoritmos, ninguém mais pensa. Ninguém constrói. Ninguém busca a escuta, que é o processo de pensar. A humanidade, agora é o produto.

Na conversa jogada fora existe a narrativa. Existe modo operacional do que ocorreu com o tempo. Existe pessoa, não “eu digital”.

A conversa ficou de fora, foi jogada para a base de dados. Virou volume. Virou consumo temporal. Comeu o ciclo. Comeu o tempo de raciocinar, de pensar. Se alimenta de dados que alimentam de narrativas que se precisam armazenar, e, para tal, a energia é necessária e a água para esfriar, não se faz, tanto atrito para suportar dados, e tanto consumo para poucos ficarem ricos.

Está difícil jogar conversa fora quando o seu ciclo viu percurso do telégrafo à inteligência artificial. Mudanças em curto espaço de tempo.

A espera da notícia virou a mudança do amanhã para o agora. A chegada da notícia dava um intervalo entre o acontecimento e reação. Hoje esse intervalo sumiu. Tudo é agora, ou scroll, rola-se pra frente. E agora não tem pausa.

Jogar conversa fora é ter tempo para o momento.

É brincar com o oportuno. É dar espaço para a escuta. É entregar a narração para que o outro acredite e devolva. Sem pressa de responder. Sem medo do silêncio. O silêncio, na conversa de verdade, também fala.

A gente precisa do encontro. Precisa do afeto. A tela aproxima, mas não aquece. O áudio manda a voz, mas não manda o cheiro do café, o toque no ombro, a lágrima que escorre sem aviso. O afeto é corpo. É presença. É risco. É escolher ficar mesmo quando a conversa não rende piada.

Talvez por isso eu sinta falta. Falta de gente que segura a minha história sem julgar. Gente que me devolve a história maior, com um detalhe que eu tinha esquecido. Gente que ri da minha bobagem e me corrige com carinho, “desce daí balão”, quando eu viajo demais.

Saudades de gente que me lembra quem eu sou quando eu esqueço. O encontro humano é lento. A natureza da escuta é lenta. A árvore não cresce em um dia. O rio não muda de curso com um clique. O afeto também não, ele precisa de repetição.

Mas acredito. Acredito porque vi gente aprender a escutar depois dos sessenta. Vi gente dura amolecer no meio de uma história. Vi olhos brilharem quando alguém disse: “eu te entendo”. Não é pouco. É tudo, como aceitar café requentado, um “depois te ligo” que vira ligação de duas horas.

Então, mesmo triste pela ausência, eu celebro o que ainda existe. Celebro o amigo que me manda mensagem depois do remédio. Celebro o grupo que comenta a notícia com raiva e depois com piada. Celebro a memória que volta quando alguém pergunta: “lembra daquele dia?”.

Jogar conversa fora é resistência. É dizer não à lógica do algoritmo que quer me prender em bolha. É dizer sim ao caos bonito de uma conversa que começa em política e termina em receita de bolo. É aceitar que não vamos resolver o mundo hoje, mas vamos dividir o peso dele por um tempo, ou de um baseado.

O afeto entre humanos não se programa. Ele acontece na brecha. Na pausa. No “deixa eu te contar”. Acontece quando alguém topa ficar mais cinco minutos. Quando alguém pergunta: “você está bem mesmo?”. Quando alguém escuta a resposta inteira.

Eu quero isso para mim. Quero para os meus filhos. Quero para os meus netos, se eles vierem. Quero um mundo onde a gente ainda saiba perder tempo juntos. Porque perder tempo juntos é a forma mais honesta de ganhar vida, não de ganhar na vida.

Enquanto isso não volta por completo, eu vou guardando os pedaços. A mensagem de áudio de dois minutos. O “saudades”. O meme que só aquele amigo entende. São migalhas, mas migalha também alimenta, é como trazer Joãozinho e Maria para o caminho da volta, um GPS que alimenta seres e não dados.

E sigo acreditando que a conversa fora vai voltar. Não igual. Nada volta igual. Mas volta com outro James Webb, outra galáxia com outro ritmo e outro fogo. O importante é que tenha roda. Que tenha gente, SERES, que tenham escuta.

Desde a caverna até as redes neurais, a gente só queria isso: alguém por perto quando a noite escurece. Alguém que mostre as suas sombras. Alguém que acredite que, depois da noite, o Sol nasce de novo. E que vale a pena ficar acordado conversando até ele aparecer e clarear o TUDO.

A CIDA LOBO, WILSON GUERREIRO, KLEBER KRUBEL “ALEMÃO”, PÔLA PAZZANESE, CÉSAR MENDES, BRUNO LINHARES.

(* Imagem acima do Tripadvisor)

 

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