
Em seu comentário, o cineasta Durval Leal Filho avalia os efeitos da intervenção dos Estados Unidos, que levou à prisão do ditador venezuelano, Nicolás Maduro. E, em sua leitura, explica como “em contextos de competição estratégica, conectam-se a agendas nacionais por contratos, incentivos e alinhamentos regulatórios”. E ainda: “Essa convergência produz um modelo híbrido: o Estado fornece coerção, diplomacia e segurança; o complexo energético fornece caixa e interesse material.” Confira íntegra...
A disputa internacional raramente se move por delicadeza ética. Move-se por cálculo. A geopolítica, na prática, não é um tribunal de virtudes, é uma engenharia de interesses. Nesse sentido, o caso venezuelano costuma ser interpretado menos como uma aula de moral e mais como um nó de ativos estratégicos: petróleo como renda, território como corredor e Amazônia setentrional como projeção de influência hídrica e mineral.
O debate público tende a simplificar o cenário por meio de rótulos, “ditador”, “traficante”, “libertador”. Os rótulos funcionam como atalhos cognitivos e como instrumentos de mobilização. O problema é que eles servem também para mascarar seletividades. O mesmo sistema internacional que condena governos por violações de direitos pode tolerar, apoiar ou negociar com regimes autoritários quando isso convém a rotas, reservas e alianças.
A coerência vira luxo, o pragmatismo vira método. O resultado é um teatro de princípios em que a plateia é convocada a aplaudir, enquanto o roteiro real é escrito em contratos, sanções, exceções e “parcerias estratégicas”.
É nesse ponto que a figura de Donald Trump, tratada aqui como símbolo político de uma racionalidade de poder, se torna útil para a crítica. A política externa apresentada como “negócio” tende a operar como rolo compressor: reduz dilemas complexos a slogans, converte diplomacia em ameaça e transforma a agenda energética em dogma.
Quando a transição para renováveis é lida como obstáculo, e não como oportunidade, a consequência é previsível: reforço dos hidrocarbonetos, alinhamento com atores do petróleo e desdém por pactos ambientais que imponham custos ou restrições. No discurso, tudo é “liberdade”. Na prática, liberdade costuma significar margem de manobra para quem já tem força.
A leitura crítica, porém, não se encerra no petróleo. O eixo mais estrutural para a próxima década tende a se deslocar para a água. A água não é apenas um bem ambiental, é um ativo estratégico e um agregado crítico da geopolítica universal. Em cenários de estresse climático, pressão urbana, intensificação do agronegócio e expansão industrial, a segurança hídrica se aproxima do centro das agendas nacionais e corporativas.
Quem dominar a gestão das águas, superficiais e subterrâneas, e quem controlar as infraestruturas de monitoramento, captação, licenciamento e certificação terá vantagem política e econômica.
Nesse enquadramento, a Amazônia ampliada, brasileira, venezuelana, equatoriana, colombiana e peruana, não aparece apenas como bioma. Aparece como cofre de múltiplos ativos: água abundante (inclusive subterrânea), biodiversidade, potencial energético, corredores logísticos e reservas minerais críticas. É também uma região onde a narrativa de “risco” pode ser mobilizada com facilidade: desmatamento, crime transnacional, pressão migratória, garimpo, disputas fronteiriças.
Esses elementos, independentemente da gravidade real de cada um, funcionam como linguagem pronta para justificar “tutelas”, “intervenções técnicas” e “mecanismos transnacionais”. A retórica da proteção, nesse vocabulário, torna-se chave mestra: abre portas para monitorar, condicionar, certificar e, por consequência, controlar.
Toda vez que alguém afirma “vamos proteger”, convém perguntar “proteger para quem e com quais instrumentos?”. Proteger da ONG, proteger do crime, proteger do caos, proteger do atraso: a fórmula é elástica. Em termos políticos, ela produz autorização. Em termos econômicos, ela cria plataformas de captura de valor.
O território deixa de ser apenas soberania e vira “ativo global”; a floresta deixa de ser vida e vira “serviço ambiental”; a água deixa de ser direito e vira “segurança”. E, quando a palavra “segurança” entra em cena, a exceção costuma caminhar na frente da lei.
A variável que adensa essa dinâmica é a convergência entre poder estatal, poder energético e big tech. Empresas de tecnologia não operam apenas como “setor privado” neutro. Elas controlam infraestrutura digital (nuvem, satélites, cabos, plataformas), definem padrões e escalas, influenciam fluxos informacionais e estabelecem dependências técnicas.
Em contextos de competição estratégica, conectam-se a agendas nacionais por contratos, incentivos e alinhamentos regulatórios. Essa convergência produz um modelo híbrido: o Estado fornece coerção, diplomacia e segurança; o complexo energético fornece caixa e interesse material; as big techs fornecem infraestrutura, dados e capacidade de coordenação. A pauta ambiental, por sua vez, fornece legitimidade, linguagem e instrumentos de padronização.
Esse modelo híbrido tem um mecanismo operacional claro: monitorar para governar e governar para capturar valor. Monitoramento territorial por satélite, modelagem climática, certificação de carbono, rastreabilidade de cadeias produtivas, mapeamento de minerais, vigilância de fronteiras e plataformas de compliance ambiental tornam-se instrumentos de poder.
O que se apresenta como “boa governança” pode, simultaneamente, produzir assimetria: países amazônicos ficam como fornecedores de ativos naturais e ambientais sob regras externas, enquanto os ganhos de alta complexidade permanecem concentrados onde estão as patentes, os data centers, os serviços de nuvem, as plataformas e a capacidade de financiar e auditar padrões.
A economia digital, inclusive, reforça a centralidade da água por razões técnicas e industriais. Infraestruturas intensivas em processamento exigem energia constante e, em muitos modelos, dependem de água para resfriamento. Cadeias tecnológicas avançadas, como semicondutores, são fortemente intensivas em água ultrapura e em minerais críticos. Assim, a disputa por “tecnologia” não é abstrata: ela exige insumos físicos, energia e água.
A consequência geopolítica é direta: quem dominar cadeias de minerais críticos e segurança hídrica amplia sua autonomia estratégica e sua capacidade de impor condições. E, como as big techs tendem a se alinhar a ambientes regulatórios e políticos que assegurem previsibilidade de insumos, a “parceria” com governos se torna parte do desenho de poder.
Nesse contexto, a Venezuela pode operar como elo sensível. Além de sua relevância energética, seu território e sua posição regional se conectam a dinâmicas amazônicas, fronteiriças e logísticas. Pressões internacionais, sanções, negociações e reconfigurações diplomáticas podem ser lidas como instrumentos para ajustar o ambiente regional, reduzir incertezas e abrir margens de influência.
A questão não é afirmar invasões como fatos consumados, mas observar como se constrói uma arquitetura de autorização: primeiro a narrativa do risco, depois a promessa de proteção, por fim a institucionalização do controle por meio de mecanismos técnicos, financeiros e securitários.
A vulnerabilidade não se materializa apenas por tropas; materializa-se por contratos, padrões, condicionalidades, certificações, dependências tecnológicas e “parcerias” que deslocam a decisão para fora. A ironia final é simples: em nome de “proteger”, pode-se organizar o caminho para controlar.
O cerne é a água. Mais do que petróleo, a água tende a definir disputas duradouras porque organiza energia, alimento, indústria e tecnologia. A Amazônia ampliada concentra ativos hídricos e minerais cujo valor estratégico tende a crescer. Quem dominar a governança, regras, dados, infraestrutura, auditoria e capacidade de impor padrões, dominará vantagens decisivas.
O futuro, nesse debate, não é uma abstração: é governança hídrica, minerais críticos e infraestrutura digital. O restante é narrativa para consumo público, com slogans suficientes para parecer virtude e elasticidade suficiente para virar negócio.
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