PENSAMENTO PLURAL O 8 de Janeiro e a falência do patriotismo performático, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa o esvaziamento do patriotismo quando ele se dissocia da Constituição e das instituições republicanas. Critica o nacionalismo performático e a mediocridade legislativa marcada por slogans, ataques pessoais e desprezo pela técnica. Sustenta que o empobrecimento do discurso corrói a democracia e enfraquece a produção da lei. Defende um patriotismo disciplinado, baseado no respeito às regras, no devido processo legal e na responsabilidade da palavra pública. Confira íntegra...

Há uma forma de patriotismo que dispensa o grito, o gesto teatral e a exibição ostensiva de símbolos. Ela se manifesta na defesa rigorosa da legalidade, no respeito às instituições e no cuidado com a palavra pública. Quando esse parâmetro se perde, o que ocupa seu lugar é um nacionalismo performático: muito ruído, pouca substância, quase nenhum compromisso com a República.

Os patriotas de ocasião costumam confundir amor ao país com fidelidade a grupos, líderes ou crenças transitórias. Invocam a nação enquanto relativizam o devido processo legal, tratam o contraditório como ameaça e veem os limites institucionais como obstáculos ilegítimos. Nesse ambiente, a Constituição deixa de ser o eixo do pacto democrático e passa a ser um acessório incômodo, respeitado apenas quando confirma convicções prévias.

Essa inversão de valores cobra um preço alto no Legislativo. O Parlamento, que deveria ser o espaço da reflexão qualificada e do confronto civilizado de ideias, degrada-se quando abdica do estudo, da técnica e da linguagem precisa. A mediocridade legislativa não nasce da divergência — inerente à democracia —, mas do desprezo deliberado pela complexidade. Substitui-se o argumento pelo ataque, o debate pelo slogan, a política pelo espetáculo.

É nesse ponto que ecoa, com desconfortável atualidade, a advertência clássica: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” A frase não descreve apenas um estado de espírito individual; aponta um risco coletivo. Quando a mediocridade se normaliza, ela corrói a confiança na vida pública e mina o próprio sentido da representação.

Há um elo direto entre empobrecimento do discurso e empobrecimento da democracia. Quando a palavra pública perde densidade, perde-se também a capacidade de formular leis à altura dos problemas reais. Um Legislativo que fala mal tende a pensar mal; e, pensando mal, legisla pior. Não se trata de erudição ornamental, mas de responsabilidade cívica: a lei é linguagem organizada, e sua fragilização começa na pobreza do verbo.

Outro traço recorrente desse falso patriotismo é a hostilidade seletiva às instituições de controle. Sempre que decisões judiciais, reportagens ou dados objetivos contrariam narrativas convenientes, acusa-se conspiração, traição ou inimigos internos. É o velho impulso autoritário com verniz contemporâneo. Defender o país, nessa lógica, passa a significar enfraquecer exatamente os mecanismos que limitam o abuso de poder.

O compromisso republicano autêntico opera no sentido oposto. Reconhece que a democracia não se sustenta sem freios, que a maioria não pode tudo e que a lei existe precisamente para conter os impulsos do momento. Patriotismo, nessa chave, não é paixão descontrolada, mas disciplina institucional. Não é unanimidade forçada, mas respeito às regras do jogo.

Não há nostalgia nem elitismo nesse diagnóstico. Há apenas a constatação de que a democracia exige mais do que entusiasmo simbólico. Exige preparo, sobriedade e lealdade ao pacto constitucional. Bandeiras não substituem ideias. Ruído não substitui argumento. E o amor ao país não se prova pela hostilidade às instituições, mas pela disposição de fortalecê-las — sobretudo quando elas impõem limites incômodos.

Num tempo de aplausos fáceis e indignações performáticas, convém reafirmar o óbvio: a pátria não está ameaçada pela lei, mas pela sua banalização. O Parlamento não se engrandece pelo barulho, mas pela qualidade do que produz. E o patriotismo só deixa de ser retórico quando aceita que, numa República, ninguém está acima da Constituição.

 

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