PENSAMENTO PLURAL O Brasil onde as palavras fazem hora extra, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa, com humor e ironia, como expressões técnicas perdem o significado original ao entrarem no cotidiano brasileiro. Termos como “investimento”, “resiliência” e “memória afetiva” passam a ser usados em contextos comerciais, corporativos e sociais, tornando-se modismos e estratégias de marketing. O autor mostra que a linguagem, no Brasil, é constantemente reinventada pela cultura popular, transformando conceitos sérios em metáforas, performances sociais e formas de expressão emocional. Confira íntegra...

Toda expressão técnica no Brasil parece possuir apenas dois destinos possíveis: virar nome de hamburgueria ou surgir numa reunião de escritório às oito e meia da manhã. As mais bem-sucedidas conseguem os dois ao mesmo tempo.

As palavras costumam nascer discretas, geralmente em universidades, laboratórios ou departamentos de economia. Começam sérias, objetivas, protegidas por certo rigor conceitual. Depois atravessam podcasts, apresentações de PowerPoint e perfis de empreendedorismo no Instagram como quem cruza uma fronteira sem fiscalização. Quando finalmente chegam ao cotidiano, já abandonaram qualquer compromisso rigoroso com a realidade.

Foi assim com “investimento”.

Durante muito tempo, investimento significava aplicar recursos esperando retorno futuro. Hoje, significa sobretudo comprar algo caro sem experimentar culpa nas primeiras vinte e quatro horas. Um celular parcelado vira “investimento em produtividade”. Um jantar de trezentos reais converte-se imediatamente em “investimento em experiência”. O brasileiro contemporâneo já não gasta dinheiro; apenas realiza aportes emocionais temporariamente parcelados.

“Valor agregado” sofreu destino semelhante. Em teoria, trata-se do aumento econômico obtido após transformação produtiva. Na prática, basta servir qualquer prato sobre uma tábua de madeira para que ele adquira valor agregado instantaneamente e, em certos bairros, até sotaque europeu.

A expressão costuma aparecer em restaurantes de lâmpadas âmbar, paredes de cimento queimado e garçons com barbas desenhadas com precisão cartográfica. O hambúrguer recebe pão brioche, o refrigerante vem em garrafa retrô e, de repente, todos os ingredientes passam a aparentar ter feito intercâmbio em Barcelona.

Nesse mesmo ecossistema floresce “artesanal”.

Ao lado dele surgiu também a obsessão contemporânea por produtos “de origem”. O termo, que originalmente deveria apenas indicar procedência rastreável — do café, do queijo, do cacau ou da matéria-prima — passou a funcionar como senha automática de sofisticação.

Hoje, qualquer estabelecimento com três samambaias penduradas, iluminação baixa e uma playlist de jazz minimalista oferece alguma coisa “de origem”. Café de origem. Hambúrguer de origem. Chocolate de origem. A expressão sugere uma cadeia produtiva quase mística, como se o alimento tivesse sido cultivado por monges melancólicos numa montanha permanentemente coberta por neblina.

Na prática, muitas vezes ninguém sabe exatamente qual é a origem. Mas o simples fato de existir uma origem já parece suficiente para justificar acréscimo de quarenta reais no preço final.

Originalmente, o termo indicava produção manual, em pequena escala. Hoje funciona quase como selo espiritual de superioridade moral. Existe brownie artesanal, gelo artesanal, ketchup artesanal e provavelmente algum indivíduo neste exato momento tentando vender água artesanal por assinatura.

Pouco importa que o produto tenha saído de uma fábrica gigantesca. Basta embrulhar em papel kraft, escrever o nome em fonte cursiva e mencionar “fermentação lenta”. O consumidor imediatamente sente que está financiando uma pequena revolução cultural através de doze parcelas sem juros.

Mais impressionante ainda foi a ascensão de “memória afetiva”.

A expressão nasceu na psicologia, mas foi lentamente sequestrada pela gastronomia. Nenhum prato contemporâneo pode mais ser apenas gostoso. Ele precisa despertar lembranças da infância, da avó, de tardes chuvosas ou de uma fazenda que talvez nunca tenha existido.

Hoje, comer tornou-se uma atividade literária. O brasileiro já não almoça; revisita emocionalmente o próprio passado através de um purê servido em cerâmica rústica.

No universo corporativo, entretanto, as palavras atravessam processo ainda mais cruel.

“Feedback” deveria indicar retorno construtivo. No entanto, a frase “vamos marcar um feedback” produz no trabalhador médio a mesma sensação fisiológica de ouvir “precisamos conversar”.

“Resiliência”, antes restrita à engenharia dos materiais, passou a significar suportar sofrimento profissional sem derrubar a produtividade. Já “brainstorm” descreve reuniões em que quinze pessoas fingem espontaneidade até alguém repetir exatamente a ideia do chefe.

“Sinergia”, por sua vez, tornou-se palavra tão abstrata que provavelmente sobreviveria até mesmo ao colapso da civilização.

A tecnologia também não escapou.

“Hackear” virou sinônimo exclusivo de crime digital. “Bug” abandonou os computadores e passou a explicar qualquer pequena tragédia cotidiana: esquecer senha, mandar mensagem errada, chorar ouvindo música antiga ou ter crise existencial no caixa do supermercado.

Hoje é perfeitamente aceitável alguém afirmar que “deu bug emocional”. E, de fato, ninguém mais estranha.

Na saúde mental, a banalização ganhou contornos mais delicados.

“Ansiedade”, “depressão” e “bipolaridade” passaram a circular como descrições genéricas de qualquer emoção humana minimamente intensa. A linguagem clínica dissolveu-se, pouco a pouco, em legendas de rede social e vídeos motivacionais de quinze segundos.

Até expressões aparentemente neutras foram sequestradas.

“Faixa etária”, por exemplo, deveria indicar grupos organizados por idade. Mas o brasileiro conseguiu transformar o termo em indicador econômico informal.

Quando alguém afirma que “aquele restaurante não é da sua faixa etária”, raramente está discutindo demografia. O significado real costuma ser apenas: “o preço do risoto ameaça seu CPF”.

O Nordeste brasileiro ainda produziu algumas das versões mais sofisticadas desse fenômeno linguístico. “Boyzinho” e “boyzinha” deixaram de indicar idade ou gênero e passaram a designar um estilo de vida inteiro.

Já não descrevem apenas pessoas. Descrevem cafeterias minimalistas, academias premium, carros financiados em setenta e duas parcelas e fotos tiradas diante de paredes cinzas com frases em neon.

O mesmo mecanismo aparece na moda popular.

Expressões como “short blogueirinha”, “short enterrado” ou “kit quenga” raramente servem apenas para descrever roupas. Funcionam como pequenos diagnósticos sociais improvisados.

Talvez “kit quenga” seja o exemplo mais fascinante. A palavra “quenga”, que originalmente nomeava recipientes feitos de coco seco, atravessou décadas até virar categoria estética informal. Hoje, o termo não descreve apenas vestuário; descreve uma narrativa inteira. Existe uma playlist implícita, uma calçada implícita e provavelmente uma motocicleta estacionada diante do cenário.

No fundo, todas essas expressões revelam algo profundamente brasileiro: nossa absoluta incapacidade coletiva de deixar uma palavra em paz.

Aqui, nenhum termo permanece técnico por muito tempo. Tudo eventualmente acaba virando metáfora, performance social, piada coletiva ou estratégia de marketing.

Talvez economistas sofram ao ouvir sushi sendo chamado de investimento. Talvez engenheiros sintam arrepios ao descobrir que resiliência agora significa sobreviver a grupos corporativos de WhatsApp.

Ainda assim, existe uma espécie de elegância involuntária nesse caos.

A língua portuguesa falada no Brasil parece possuir horror natural à objetividade. E talvez seja justamente isso que a mantenha viva: a permanente disposição popular de desmontar conceitos sofisticados e remontá-los conforme as necessidades emocionais do cotidiano.

 

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