PENSAMENTO PLURAL O Brasil que nunca coube em projetos, por Palmarí de Lucena

Em seu texto, o escritor Palmarí de Lucena observa como a cultura brasileira não nasceu de um plano, mas de processos históricos marcados por encontros forçados, exclusões e adaptações. Indígenas, africanos escravizados e sucessivas ondas migratórias moldaram um país que nunca se ajustou a projetos de correção social ou identitária. Tentativas de enquadramento — inclusive por teorias raciais hoje desacreditadas — fracassaram diante da força da mistura. O Brasil formou-se contra os esquemas, e é dessa tensão que nasce sua vitalidade cultural. Confira íntegra...

A cultura brasileira não resulta de um plano. Resulta de processos. E quase sempre de processos mal resolvidos. Desde a colonização, o país foi sendo formado por encontros forçados, deslocamentos involuntários e tentativas sucessivas de organizar uma sociedade que crescia mais rápido do que a capacidade do Estado de compreendê-la.

Os povos indígenas foram a base inicial dessa construção. Ensinaram caminhos, técnicas de cultivo, formas de relação com o território e conhecimentos essenciais à sobrevivência no ambiente tropical. A língua, a alimentação e o próprio modo brasileiro de ocupar o espaço carregam marcas indígenas profundas. Ainda assim, ao longo da história, sua presença foi frequentemente tratada como obstáculo ao progresso, e não como parte constitutiva da nação.

A escravidão africana estruturou o Brasil por mais de três séculos. Não apenas como sistema econômico, mas como forma de organização da vida cotidiana. Música, religiosidade, culinária e oralidade brasileiras foram moldadas por matrizes africanas. A abolição, porém, não foi acompanhada de políticas consistentes de integração social. A liberdade jurídica não se converteu em cidadania plena, e a desigualdade herdada foi deixada como problema para o futuro.

No final do século XIX, essa ausência de solução passou a ser reinterpretada como falha de origem. Sob a influência de correntes europeias então dominantes, parte da elite intelectual brasileira passou a tratar a formação social do país como algo a ser corrigido. Autores como Nina Rodrigues, a partir das categorias científicas de seu tempo, produziram diagnósticos hoje reconhecidos como historicamente datados. Sílvio Romero, em registro mais ensaístico, acreditava que o tempo, a miscigenação e a imigração promoveriam uma adaptação gradual aos modelos considerados modernos.

Essas ideias influenciaram decisões concretas. A imigração europeia foi incentivada como política pública em diversas regiões, associando modernização econômica a determinados referenciais culturais. Enquanto isso, as políticas de integração dos libertos permaneceram limitadas. Apostou-se na substituição demográfica e no passar do tempo como soluções indiretas para desigualdades profundas.

O país real seguiu outro caminho. Os imigrantes europeus chegaram em condições diversas e foram incorporados a uma sociedade mais complexa do que previam os formuladores do projeto. O Brasil não se uniformizou. Misturou-se ainda mais. No início do século XX, a imigração japonesa respondeu a uma lógica distinta: não simbólica, mas produtiva. Direcionados sobretudo à agricultura, esses grupos introduziram técnicas, organização familiar do trabalho e estratégias de adaptação, enfrentando resistências comuns a processos migratórios.

A imigração sírio-libanesa percorreu trajetória própria. Provenientes do então Império Otomano, chegaram sem grandes programas estatais de incentivo e se inseriram majoritariamente nos circuitos urbanos. Acompanhando a expansão das cidades e do mercado interno, contribuíram para a circulação econômica e para a formação de redes sociais, como parte de um processo espontâneo de integração.

Entre as duas guerras mundiais e, sobretudo, após a Segunda Guerra, o Brasil recebeu judeus deslocados por perseguições e conflitos. Integraram-se mantendo vínculos comunitários e ampliaram a vida intelectual, científica e urbana do país. Mais recentemente, haitianos, sírios e venezuelanos passaram a chegar empurrados por crises humanitárias e instabilidade política. São migrações de urgência, que testam a capacidade institucional do país, mas também revelam práticas cotidianas de convivência e adaptação.

Apesar dessa trajetória marcada pela diversidade, teorias raciais desacreditadas continuam a reaparecer no debate público. Movimentos políticos extremistas recorrem a esse repertório de forma indireta, substituindo a linguagem biológica explícita por discursos sobre ameaça cultural, identidade fixa ou homogeneidade nacional. São narrativas que simplificam problemas complexos e transformam diferenças em inimigos.

A história brasileira oferece um contraponto claro a esse tipo de pensamento. Um país formado pela mistura, pela mobilidade e pela adaptação não se sustenta sobre ideias de pureza ou hierarquia. Sua própria cultura demonstra que identidades não são essenciais a preservar, mas processos a administrar.

Talvez essa seja a lição central. O Brasil nunca coube nos projetos que tentaram redesenhá-lo. E é justamente essa resistência aos esquemas — imperfeita, conflituosa e incompleta — que explica tanto suas fragilidades quanto sua vitalidade cultural.

 

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