
Em um dia de sol intenso, pessoas de diferentes idades e condições sociais dirigem-se às urnas para exercer o direito de votar, observa o escritor Palmarí de Lucena. “A eleição transcorre com pouca propaganda, filas organizadas e tranquilidade. A urna eletrônica integra um processo marcado por sigilo, fiscalização e transparência”, pontua. Entre bandeiras brasileiras e cidadãos comuns, cada eleitor faz sua escolha em silêncio. Ao final, a crônica destaca que, apesar das diferenças, todos compartilham o mesmo direito de participar da democracia e contribuir para os rumos do país. Confira íntegra…
Sob um sol feroz, caminhavam idosos, casais jovens com crianças, pessoas com deficiência, trabalhadores, aposentados e gente de todas as idades e condições sociais do chamado povão. Todos tinham o mesmo destino: a zona eleitoral instalada em um colégio da cidade.
Era dia de eleição.
Alguns iam por civismo; outros, por obrigação, hábito ou interesse. Talvez houvesse também quem votasse sem grande convicção. Não importava. A escolha pertenceria a cada um e, diante da urna, somente o eleitor saberia em quem havia votado.
Nas ruas, chamava atenção justamente aquilo que não havia. Eram poucos os adesivos nos carros, raras as camisetas de candidatos e quase nenhum cabo eleitoral ocupando as esquinas. Os tradicionais santinhos apareciam aqui e ali, mas em quantidade muito menor. As bandeiras de campanha, que tantas vezes transformam as ruas em extensão dos palanques, praticamente desapareceram.
A polarização política e o receio de confrontos pareciam ter produzido uma espécie de prudência. Expor a preferência política já não parecia tão simples. Em uma eleição marcada por posições distintas, muitos preferiam guardar para si a escolha que fariam diante da urna.
Alguns, entretanto, carregavam a bandeira do Brasil sobre os ombros, como uma capa de super-herói. Caminhavam sob o sol com o verde e amarelo às costas, numa mistura de patriotismo, identidade e talvez apenas a vontade de dizer que aquele país também lhes pertencia. Só eles saberiam o significado daquela capa.
Dentro da seção eleitoral, a cena era de normalidade. As filas estavam organizadas, os mesários atentos e as orientações eram dadas de maneira objetiva. Não havia a costumeira algazarra que acompanha grandes concentrações de brasileiros. A movimentação era intensa, mas sem tumulto.
Havia uma certa solenidade naquela simplicidade. O eleitor chegava, aguardava sua vez, apresentava o documento e recebia as instruções. A urna eletrônica, depois de tantos anos incorporada ao cotidiano eleitoral, fazia parte daquele ritual quase como um objeto familiar.
Para alguns, ela representa tecnologia e agilidade; para outros, desperta dúvidas que precisam ser respondidas por mecanismos de fiscalização e transparência. Mas a confiança no processo eleitoral não está apenas na máquina. Ela se constrói em um conjunto de procedimentos que começa antes do voto e continua depois dele, envolvendo identificação do eleitor, sigilo, fiscalização, apuração e divulgação dos resultados.
Para quem está na fila, porém, tudo isso se resume a poucos minutos. O documento é conferido, o nome é localizado, o eleitor entra na cabine, faz sua escolha e confirma o voto. Então vem aquele pequeno som da urna, um simples bip, quase insignificante para quem está do lado de fora, mas que, para quem está diante da tela, representa o instante em que uma decisão individual passa a fazer parte de uma decisão coletiva.
Havia ainda uma novidade para muitos: o comparecimento às urnas poderia servir como prova de vida para aposentados. Uma mesma ida ao colégio eleitoral resolvia, assim, duas obrigações da vida cotidiana.
Depois, a cabine. Ali dentro não havia candidato, cabo eleitoral, discurso ou bandeira. Não havia ninguém para persuadir ou observar. Apenas o eleitor diante da tela e de sua própria consciência.
A urna não perguntava profissão, renda, idade ou posição social. Não queria saber se aquele eleitor era poderoso ou anônimo. Apenas recebia sua escolha dentro das regras estabelecidas. E talvez seja justamente aí que a democracia revele uma de suas dimensões mais concretas: na fila, somos diferentes; diante da urna, temos o mesmo direito.
O voto do aposentado vale tanto quanto o do empresário. O da mulher que chegou carregando uma criança vale tanto quanto o do homem que atravessou a rua com uma bandeira brasileira transformada em capa de super-herói. Depois do voto, todos voltam à mesma calçada, enfrentam o mesmo sol e retomam a vida.
As opiniões continuam diferentes, as dúvidas também, mas alguma coisa aconteceu. Milhares de escolhas silenciosas foram feitas por pessoas que, durante alguns minutos, exerceram individualmente um direito que só ganha sentido quando é coletivo.
Talvez a democracia seja justamente isso: não a ausência de conflitos, nem a obrigação de pensar igual, mas a capacidade de transformar diferenças em um procedimento comum. Naquela manhã, ninguém precisava saber em quem o outro votou. Bastava saber que todos tiveram a oportunidade de entrar na cabine e fazer sua escolha.
Ninguém sabe o voto do outro. E é justamente assim que deve ser.
A senhora que esperou na fila, o jovem casal com os filhos, o trabalhador que enfrentou o sol e o homem que carregava a bandeira brasileira como capa de super-herói saíram da escola levando consigo uma escolha que pertencia somente a cada um.
Dentro da urna ficou o segredo. Do lado de fora, a democracia continuou: feita de diferenças, de escolhas e da possibilidade de todos participarem.
Talvez ninguém se lembre do pequeno bip ouvido naquele instante. Mas foram milhares desses sons que registraram a presença de um povo.
Não havia heróis naquela cabine.
Havia cidadãos.
E o Brasil seguiu adiante — diferente nas escolhas, mas igual no direito de escolher.
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