PENSAMENTO PLURAL O hotel, o povo real e a encruzilhada da cidade, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena usa o Hotel Tambaú como metáfora da encruzilhada urbana de João Pessoa. Critica o modelo de turismo predatório, a precarização da orla, a pressão sobre áreas verdes e a repetição de alagamentos previsíveis, atribuídos à falta de planejamento. Questiona o uso populista da expressão “escolhido pelo povo” e defende que a legitimidade eleitoral exige responsabilidade técnica e ética. Conclui que o futuro da cidade depende da maturidade do voto e da cobrança por gestão estruturada. Confira íntegra...

O Hotel Tambaú não é apenas um edifício fechado à beira-mar. É um símbolo involuntário da encruzilhada em que João Pessoa se encontra. Durante décadas, foi cartão-postal, referência arquitetônica e motor do turismo local. Hoje, tornou-se metáfora de uma cidade que parece oscilar entre o improviso e o planejamento, entre o discurso fácil e a responsabilidade estrutural.

Invoca-se o turismo como justificativa para quase tudo. Entretanto, o que se observa é um modelo predatório: ocupa-se rapidamente, regula-se pouco, fiscaliza-se menos ainda. Em nome do fluxo de visitantes, permite-se a erosão da qualidade urbana. O improviso vira regra; a exceção vira paisagem.

Ao redor do hotel, consolidou-se uma dinâmica que mistura precarização da orla, ocupações desordenadas e ausência de políticas integradas. Áreas verdes estratégicas sofrem pressão constante. Alagamentos previsíveis repetem-se a cada estação chuvosa, como se fossem fatalidades inevitáveis — quando, na verdade, revelam falhas históricas de drenagem e planejamento. O entorno que deveria valorizar o principal equipamento turístico da cidade acaba por fragilizá-lo ainda mais.

O Hotel Tambaú, já enfraquecido por anos de disputa judicial, parece assistir a essa transformação como um paciente à janela de um hospital que também adoece. Um equipamento desse porte exige entorno qualificado, mobilidade organizada, ordenamento comercial, políticas sociais articuladas. Sem isso, qualquer reabertura começará em desvantagem competitiva e simbólica.

Não passa um dia sem que algum político se autoproclame “escolhido pelo povo”. A frase ecoa como salvo-conduto moral. Mas há diferença entre o povo invocado no palanque e o povo real que enfrenta enchentes, congestionamentos, perda de áreas verdes e a lenta descaracterização da paisagem urbana.

Muitas vezes, os votos que sustentam tais proclamações são costurados por lideranças informais, alianças circunstanciais e apoios cuja transparência raramente é debatida com profundidade. A legitimidade eleitoral, contudo, não é autorização para governar sem critério. É compromisso com planejamento, fiscalização e responsabilidade ética.

O povo real precisa falar — e falar alto — nas urnas. Precisa exigir menos marketing e mais projeto urbano consistente. Precisa distinguir entre eventos pontuais e políticas públicas estruturantes. Precisa cobrar metas claras para drenagem, preservação ambiental, ordenamento da orla e revitalização qualificada do Hotel Tambaú.

A pergunta que se impõe não é apenas quando o hotel reabrirá. A pergunta central é qual modelo de cidade queremos consolidar. Uma cidade conduzida por bordões populistas e soluções improvisadas ou uma cidade guiada por visão técnica e responsabilidade de longo prazo?

O destino do Hotel Tambaú é empresarial. O destino de João Pessoa é coletivo. E esse destino começa na maturidade do voto. Quando o povo real decidir falar com consciência crítica, talvez o hotel volte a ser símbolo de progresso — e não de advertência.

 

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