
Em sua crônica de domingo, o escritor Palmarí de Lucena reflete como, num ambiente saturado por estímulos e respostas imediatas, o livro não é mais atacado por proibição direta, mas pela erosão das condições que tornam a leitura possível. A dispersão permanente enfraquece a atenção, esvazia a reflexão e desloca o livro para um papel simbólico. Nesse contexto, diz :”Censuras difusas e pressões morais atuam sobre os poucos espaços restantes de leitura profunda, empobrecendo o debate público e a formação intelectual”. Confira íntegra...
No filme Fahrenheit 451, dirigido por François Truffaut, os livros são queimados porque representam uma ameaça objetiva à ordem: exigem tempo, contradição, interioridade e dúvida. Eliminar o livro é eliminar a possibilidade de um pensamento que amadurece sem pressa. No mundo real, ensaia-se algo mais eficaz. Os livros são preservados, impressos ou digitais, enquanto se esvazia gradualmente a capacidade de lê-los. Não há fogueiras nem censores visíveis. Há um sistema que normaliza a dispersão e transforma a atenção em exceção.
O mundo contemporâneo não ataca o livro frontalmente; reorganiza o ambiente em que ele deveria operar. A sublevação não se dá pelo veto, mas pela alteração das condições cognitivas da leitura. O livro permanece disponível em catálogos vastos e acessíveis. O que muda é o lugar que ele ocupa na economia da atenção. A internet não extingue o livro; redefine o tempo mental necessário para que ele seja lido, compreendido e assimilado.
Ler um livro pressupõe continuidade, silêncio e hierarquia de atenção. Supõe aceitar que uma ideia se desenvolve ao longo do tempo e que a compreensão exige permanência. O ambiente digital opera por lógica distinta: fragmenta, interrompe, estimula respostas rápidas e recompensa a reação, não a reflexão. O resultado é uma atenção intermitente, pouco apta a sustentar raciocínios longos sem ceder à dispersão.
Essa inversão não é neutra. Quando a atenção se torna instável, o pensamento prolongado passa a parecer improdutivo. Quando a informação circula sem pausa, a interpretação perde valor. O livro deixa de ser instrumento central de formação intelectual e passa a ocupar posição quase simbólica: respeitado em tese, mas pouco praticado na experiência cotidiana.
É nesse contexto que ressurgem tentativas explícitas de censura de livros, frequentemente justificadas por vieses religiosos, morais ou culturais. Obras passam a ser questionadas não por seu valor literário ou intelectual, mas por confrontarem crenças consideradas inegociáveis por determinados grupos. Em geral, não se trata de proibições formais, mas de pressões difusas sobre escolas, bibliotecas e editoras, criando um ambiente em que a intimidação antecede o conflito e a autocensura se impõe.
Esse movimento convive com o excesso informacional. Enquanto a dispersão reduz o número de leitores dispostos à leitura longa, a censura seletiva atua sobre os poucos espaços em que o livro ainda exerce influência formativa. O resultado é duplo: menos leitores e menor diversidade de ideias disponíveis. O livro não apenas perde centralidade; passa também a ser vigiado.
Aqui reside a diferença decisiva em relação às distopias clássicas. Em Fahrenheit 451, o Estado precisa destruir livros para impedir que as pessoas pensem. No presente, não é necessário impedir nada. Cria-se um ambiente em que pensar longamente se torna improvável e em que determinadas ideias são desencorajadas antes mesmo de serem lidas. A censura cede lugar à saturação; a proibição, à pressão moral; o controle, à economia da atenção.
As consequências extrapolam o campo cultural. A capacidade de sustentar argumentos complexos, tolerar ambiguidade e conviver com ideias desconfortáveis é condição da vida cívica. Quando essa capacidade se erode, o espaço público se empobrece. Ideias cedem lugar a slogans; debates, a reações imediatas; decisões coletivas passam a responder mais à urgência do que à reflexão informada.
Diante desse quadro, ler deixa de ser apenas um hábito cultural e se converte em gesto de afirmação intelectual. Não contra a tecnologia em si, nem contra convicções religiosas ou culturais, mas contra a noção de que o pensamento deve ser rápido, homogêneo e indolor. Uma sociedade que abdica da leitura longa e plural não precisa destruir livros para renunciar às ideias que eles contêm.
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