PENSAMENTO PLURAL O Rio Sanhauá Não Esquece, por Palmarí de Lucena

Em sua crônica, o escritor Palmarí de Lucena alerta para o avanço de ocupações irregulares às margens do Rio Sanhauá expõe mais do que um conflito ambiental: revela a omissão histórica do planejamento urbano em João Pessoa. A supressão do manguezal, a permanência de moradias em áreas de risco e o déficit habitacional persistente transformam cheias previsíveis em crises recorrentes. “O rio, comprimido e ignorado, tornou-se metáfora concreta de desigualdade territorial — um limite físico que a cidade insiste em testar, mas que inevitavelmente retorna”, acrescenta. Confira íntegra...

O Rio Sanhauá corre à margem do Centro como quem aprendeu a não pedir licença. Já foi via, já foi promessa, já foi espelho da cidade nascente. Hoje, segue comprimido entre o mangue degradado e a urgência humana. Suas bordas, ocupadas ao longo de décadas, contam uma história que não cabe no rótulo simplificador de “invasão”. Contam, antes, a crônica recorrente de uma cidade que empurra para a beira quem não encontra lugar no território formal.

As casas avançam sobre o que antes era raiz, lama viva, berçário de espécies e infraestrutura natural de drenagem. Telhados substituem o mangue; ruas improvisadas ocupam áreas legalmente classificadas como de preservação permanente. Não se trata de episódio isolado. Estimativas urbanas indicam que a ocupação irregular nas margens do Sanhauá se intensificou a partir dos anos 1980, acompanhando o crescimento do déficit habitacional, hoje calculado entre 30 e 40 mil moradias em João Pessoa, segundo dados consolidados do IBGE e diagnósticos municipais.

Reduzir o problema a um impasse ambiental ou jurídico é insuficiente — e conveniente. O que o Sanhauá expõe é a falência prática do planejamento urbano. O poder público alterna tolerância e ameaça: permite a consolidação das moradias, posterga soluções estruturais e, quando o risco se materializa, recorre ao discurso emergencial da remoção. Nesse intervalo, o manguezal recua. Levantamentos ambientais apontam que mais de 40% da cobertura original de mangue em trechos do baixo Sanhauá foi suprimida nas últimas décadas, comprometendo diretamente a capacidade de absorção hídrica do estuário.

Quando a chuva se intensifica ou a maré sobe, a água não “invade”. Ela ocupa. Ocupa o espaço que lhe foi retirado sem compensação ambiental e sem infraestrutura alternativa. As cheias são recorrentes e previsíveis. Relatórios da Defesa Civil indicam que milhares de famílias vivem hoje em áreas classificadas como de risco médio ou alto de alagamento na bacia do Sanhauá, muitas delas sem acesso regular a saneamento básico — fator que amplia o impacto sanitário das cheias.

É um paradoxo urbano que o rio que participou da fundação da cidade tenha sido relegado à condição de sobra territorial. Longe das áreas valorizadas e do discurso turístico, o Sanhauá tornou-se linha divisória entre a cidade formal e a cidade tolerada. Ali, a paisagem não é exceção: é sintoma mensurável de desigualdade territorial.

Tratar as ocupações do Sanhauá exige abandonar a retórica moralista e enfrentar o núcleo do problema com números e decisões. Não há solução sustentável sem política habitacional capaz de reduzir o déficit, reassentamento planejado, recuperação do manguezal e presença contínua do Estado. Criminalizar moradores sem corrigir a omissão estrutural é apenas deslocar o problema no espaço — e ampliá-lo no tempo.

O rio permanece. Pressionado, estreitado, mas presente. Ele continuará lembrando à cidade seus limites físicos e sociais. A pergunta é se João Pessoa seguirá tratando esses alertas como exceção ou se decidirá, finalmente, responder com política pública à altura de um problema que já conhece — e há muito tempo mede.

 

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