
O artigo do escritor Palmarí de Lucena analisa o clima de intimidação internacional produzido por retóricas beligerantes e pela personalização extrema do poder, nas quais o improviso substitui a prudência estratégica. Em um mundo multipolar e interdependente, a normalização da ameaça enfraquece instituições, tratados e a diplomacia, ampliando o risco de erros de cálculo. “A experiência recente mostra que a paz depende menos da bravata e mais de previsibilidade, regras compartilhadas e lideranças capazes de conter impulsos individuais em favor da razão coletiva”, diz. Confira íntegra...
Há momentos na história em que o mundo parece funcionar por automatismos perigosos. Protocolos rígidos, retóricas infladas e lideranças convencidas de sua própria infalibilidade passam a substituir a prudência política. O resultado não é necessariamente a guerra imediata, mas um ambiente de intimidação permanente, no qual o risco deixa de ser exceção e passa a integrar o cotidiano das relações internacionais.
O cenário atual carrega esse traço inquietante. A retórica beligerante de Donald Trump — marcada por ameaças públicas, desprezo por alianças tradicionais e uma confiança quase performática na força como linguagem diplomática — reintroduziu no debate global a ideia de que o conflito pode ser instrumento legítimo de negociação. Não se trata apenas do conteúdo das declarações, mas do efeito sistêmico que elas produzem: aliados inseguros, adversários em alerta e instituições multilaterais esvaziadas de autoridade.
A lógica que sustenta esse clima não é nova. Ela se baseia na crença de que o medo garante a paz e de que a imprevisibilidade intimida mais do que a estabilidade. O problema é que, quando levada ao limite, essa racionalidade se torna autodestrutiva. Sistemas pensados para evitar o conflito passam a depender da sanidade individual de quem ocupa o comando. A dissuasão, então, deixa de ser um equilíbrio entre forças e se transforma em um jogo de nervos.
O mundo de hoje é mais complexo do que o da Guerra Fria. Há múltiplos polos de poder, cadeias econômicas interdependentes e conflitos regionais capazes de escalar rapidamente. Nesse contexto, a retórica belicista não opera no vazio: ela dialoga com guerras em curso, com disputas tecnológicas e com tensões energéticas. Ao normalizar a ameaça, reduz-se o espaço para a diplomacia e amplia-se o risco de erros de cálculo — aqueles que não nascem de planos malignos, mas de excessos verbais, decisões apressadas e interpretações equivocadas.
Não é necessário supor intenções catastróficas para reconhecer o perigo. Basta observar como o enfraquecimento de tratados, o desprezo por organismos multilaterais e a personalização extrema do poder corroem os freios institucionais. Quando a política externa passa a ser conduzida como espetáculo, a racionalidade estratégica cede lugar ao improviso. E o improviso, em matéria de armas e alianças, cobra um preço alto.
A lição que emerge desse quadro é menos moral e mais prática. A paz não se sustenta na intimidação contínua, mas na previsibilidade, na confiança mínima entre adversários e na existência de regras compartilhadas. Lideranças que flertam com o caos podem até colher dividendos políticos internos, mas exportam insegurança para o sistema internacional como um todo.
O mundo não está condenado a repetir seus piores pesadelos. Mas tampouco está imune a eles. Entre a firmeza legítima e a bravata irresponsável existe uma linha tênue, que só instituições sólidas e lideranças conscientes conseguem respeitar. Quando essa linha se rompe, o risco deixa de ser abstrato. E o planeta volta a viver sob a sombra de decisões tomadas não pela razão coletiva, mas pela vontade de um só.
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