
Em seu comentário, o historiador Flávio Lúcio Vieira analisa a recente trajetória do ex-deputado Pedro Cunha Lima, da forma como quase leva a eleição de 2022, para, depois, mergulhar politicamente, e deixar o protagonismo de oposição para o senador Efraim Filho (UP) e o prefeito Cícero Lucena (MDB), ficando fora da disputa ao Governo. A Pedro, segundo Flávio Lúcio, restaria ou apoiar Efraim ou Cícero, e, não integrar chapa majoriária, seria “um desperdício”. Confira íntegra...
A escolha do timing é um dos maiores desafios do político, sobretudo dos mais experientes — os novatos, ou aqueles que ainda não sabem lidar com o tamanho que adquiriram, impelidos pelas circunstâncias, costumam cometer mais erros: ou se apressam para anunciar decisões importantes, ou demoram demais para fazê-lo.
Em 2022, Pedro Cunha Lima ganhou luz própria. Até então, era visto sobretudo como o filho de uma das maiores lideranças políticas da Paraíba nos últimos 20 anos, Cássio Cunha Lima. A forma como conduziu a campanha para o governo, a defesa de propostas corajosas — como a redução do orçamento da Assembleia Legislativa — e o resultado apertado da eleição, disputada voto a voto contra o todo-poderoso candidato à reeleição, João Azevêdo, deram a Pedro estatura política para que ele liderarasse a oposição nos anos seguintes.
Inexplicavelmente, porém, em vez de atuar como figura aglutinadora, capaz de orientar o discurso e as ações de uma desorientada oposição de centro, sobretudo na Assembleia, muitas vezes confundida com os barulhentos deputados bolsonaristas, Pedro Cunha Lima preferiu a reclusão, o exílio político voluntário, e pouco participou das grandes discussões ao longo dos últimos três anos e meio.
O espaço vazio gerado acabou por estimular o senador Efraim Filho a se lançar na disputa pelo governo, movimento que marcou o início da divisão das forças que quase venceram a eleição de 2022 — para alívio do governismo, que deseja ardentemente enfrentar nas urnas um político com o perfil do senador, hoje bolsonarista.
A partir do momento em que um político com o peso político e eleitoral do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, resolveu entrar na disputa pelo governo como candidato de oposição, a eventual postulação de Pedro Cunha Lima — se é que ela de fato existia — tornou-se praticamente inviável.
Restam a Pedro, assim, dois caminhos: emprestar seu prestígio político conquistado em 2022 à candidatura centrista de Cícero Lucena, hoje favorita, ou incorporar-se ao gueto político bolsonarista, opção que acabou restando a Efraim Filho.
Já estamos em 2026 e Pedro Cunha Lima continua sem anunciar qual rumo pretende trilhar. Cansadas de esperar, as peças do tabuleiro da oposição começam a se mexer por conta própria. O anúncio de que a família Toscano — que comanda a prefeitura de Guarabira e é, talvez, a aliada mais fiel do grupo Cunha Lima — deve apoiar Cícero Lucena é mais uma evidência de que Pedro corre o risco de ser atropelado pelas circunstâncias.
Não apenas isso. A simples ideia de que Pedro Cunha Lima possa não integrar nenhuma chapa majoritária em 2026 transmite uma inevitável sensação de desperdício: desperdício de tempo e de esforços — dele e de seus apoiadores —, de expectativas daqueles que nele acreditaram e, sobretudo, de liderança. Desperdício de uma jovem liderança com preocupações programáticas, o que anda muito em falta na Paraíba e no Brasil, e que certamente ainda tem muito a dizer e a fazer pela Paraíba.
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