PENSAMENTO PLURAL Os ataques à Constituição cidadã, por Rui Leitão

A crônica do escritor e historiador Rui Leitão traz como reflexão as manifestações recentemente registradas no Chile, quando a população foi às ruas e, em plebiscito, decidiu majoritariamente pelo fim da constituição herdada do governo do ditador Augusto Pinochet. Rui cita, como no Brasil ainda há, curiosamente, quem defenda princípios que violentam os direitos civis e até pregam mudança na Constituição Federal para atender aos seus interesses. Confira a íntegra de seu comentário…

Essa questão de cidadania não é muito do agrado dos ideólogos da direita. O exercício dos direitos civis, políticos e sociais pelos cidadãos de um país é mais adequado a princípios socialistas, segundo eles. Coisa dos que pregam a necessidade de uma melhor organização social. Não se consegue exercer plenamente a cidadania sem a consciência dos seus direitos e obrigações. E quem dispõe sobre isso é a Constituição. Logo, a Carta Magna de 1988 contraria seus interesses. No pensamento dos que militam na “direita”, o indivíduo deve ter mais deveres do que direitos.  Por isso, tentam, a qualquer custo, “matar” a democracia, prevalecendo a força dos poderes políticos e econômicos.

No ato de promulgação da Constituição Cidadã, o deputado Ulysses Guimarães falou: “A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. Que a promulgação seja nosso grito: Muda para vencer! Muda, Brasil!”. Ora, ela nascia na redemocratização e trazia no seu conteúdo normativas que garantiam essa transformação, protegendo-nos de ataques aos direitos individuais e coletivos conquistados e oferecendo-nos um ambiente onde  prevaleça a liberdade, pressuposto básico da democracia.

Inconcebível esse pensamento na contemporaneidade nacional, onde avanços sociais são considerados ideias de esquerdistas. Os que eventualmente assumiram o comando dos destinos de nosso país, praticam o obscurantismo, contrariando o discurso de Ulysses Guimarães quando dizia que a Constituição seria o nosso grito de mudança. Ele proclamava a necessidade de tirar o Brasil do regime de opressão que vivemos ao tempo da ditadura militar. E como imaginar um processo de transformação social e política sem que a população tenha acesso ao conhecimento?

Estão a todo momento emendando a Constituição, retirando direitos e descaracterizando o conceito de cidadania que marcou a sua formatação de origem. Querem mudar até a interpretação  das cláusulas pétreas, tais como a que estabelece o Artigo 5, Inciso XVII, de forma a permitir que possam exercer ações persecutórias, de acordo com as suas preferências políticas e ideológicas. Buscam produzir na opinião pública a impressão de que a Constituição Cidadã estimula a impunidade. Praticam desavergonhadamente o retrocesso jurisprudencial em matéria de direitos e garantias fundamentais, com argumentos inidôneos, atacando o que dispõe o Artigo 5 da Constituição Federal.

Ainda bem que no Supremo Tribunal Federal encontramos ministros que resistem a essas tentativas de violação da nossa Constituição, salvando-a dos agravos que a ela querem desferir. Os garantistas assumem, portanto, a nobre responsabilidade de assegurar os direitos que nos foram conferidos na Constituição Cidadã de 1988. O ódio à Constituição fica para os que não têm amor patriótico ao Brasil e aos que insistem em desrespeitar os instrumentos jurídicos que visam proteger os cidadãos. Quem não gosta de democracia, tem saudades da ditadura e homenageia torturadores e tem ódio ao exercício de cidadania.

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