
O cineasta Durval Leal Filho trata, em seu comentário, sobre os pactos que as pessoas realizam durante a vida. Também enfatiza o sofrimento que lhe trouxe, primeiro a morte do mãe, depois, o adoecimento de sua mãe, em consequências de perseguições políticas. “Quando penso nela hoje, percebo que o primeiro pacto da minha vida continua existindo. A memória. Mas a memória continuará sendo a testemunha mais incômoda contra a mediocridade dos homens que confundiram pactos de poder com crueldade”, pontua. Confira íntegra…
Há poucos dias compreendi que os pactos mais importantes da vida raramente são cartoriais. Não possuem testemunhas, reconhecimento ou validade jurídica. Mesmo assim, determinam quase tudo que somos. Talvez porque os pactos verdadeiros sejam feitos antes mesmo de aprendermos a falar.
Meu primeiro pacto foi com minha mãe, terminei a pouco.
Antes de qualquer amor ou amizade, existiu aquele acordo silencioso entre um corpo que gerava e outro que era gerado. Durante meses vivi no céu particular dela. Depois veio a ruptura. O corte do cordão umbilical foi também o primeiro rompimento de um pacto, da primeira dependência.
Nasci de parto normal, entre gritos, no escândalo das dores, de minha mãe, que as enfermeiras ainda contavam, e meu tio Geraldo Garcia, obstetra, confirmava muitos anos depois.
Ali estava consumado o primeiro pacto, mãe e filho.
Ela rompeu a ligação física para que eu pudesse existir sozinho. Em troca, ofereceu outro vínculo. O pacto do leite, do colo e da proteção. Costumava dizer que eu era um menino guloso. Dizia isso rindo. Amamentou enquanto pôde.
Gostava daquele contato. Mas a vida exigia outros compromissos. Funcionária pública, precisou voltar ao trabalho. Cortou a amamentação e, mais tarde, confessou que carregava certo arrependimento por aquilo.
Talvez porque todo pacto exija perdas, desde o nascimento.
Minha mãe sempre foi uma mulher intensa. Amava e trabalhava intensamente.
Cobrava intensamente dos próximos. Era daquelas pessoas que ocupam todos os espaços de uma casa e de uma família. Criou quatro filhos homens. Ajudou criar 14 irmãos. Sustentou responsabilidades que muitas vezes nem eram suas.
Na adolescência, nos educou com mão pesada. Anos depois reconheceu isso. Dizia que se arrependia das surras. Não porque deixara de acreditar na disciplina, mas porque o cansaço, o trabalho e as preocupações a transformavam numa pessoa mais dura do que desejava ser. Era uma confissão sincera de quem entendia os próprios excessos sem negar a própria história.
Ainda assim, o afeto nunca desapareceu. E não me tornei um serial killer, e nem meus irmãos.
Porque os pactos familiares possuem uma característica curiosa. Eles sobrevivem às contradições e às mágoas. Sobrevivem aos erros e até aos arrependimentos.
Meu pai morreu quando minha mãe tinha quarenta e nove anos, eu estava com vinte e cinco anos. Foi o primeiro grande terremoto da nossa família. Durante três meses ela chorou. Chorava todos os dias. Chorava de manhã, de tarde e de noite. Eu via aquele sofrimento e afundava junto com ele. Foi então que fiz o primeiro pacto verdadeiramente consciente da minha vida.
Decidi que não teria mais pena ou dó, seguiria meu caminho.
Não por falta de amor. Pelo contrário. Porque o amor estava me destruindo, sentir a dor de minha mãe me machucava.
Compreendi que, se continuasse mergulhado naquele sofrimento, acabaria incapaz de ajudá-la e incapaz de sobreviver. Pela primeira vez percebi que existem pactos que fazemos com os outros e pactos que fazemos conosco, e carregaremos.
Escolhi sobreviver, e tentar ser eu mesmo sem o sofrimento dela. Até hoje não sei se foi coragem ou covardia, mas a dor do outro me deu resistência, sem buscar ser piegas.
A verdade é que muitas vezes o afeto exige distância. Nem sempre amar significa permanecer ao lado. Às vezes amar significa preservar a própria capacidade de continuar existindo, para poder ser verdadeiro. Minha mãe nunca compreendeu completamente esse afastamento. Eu também não. Mas ele aconteceu e foi necessário, para minha sanidade e formação.
Depois que saí de casa, ela conseguiu reorganizar a própria vida. Seguiu em frente. Voltou a respirar. Voltou a construir rotinas. Anos depois até me agradeceu por ter percebido algumas coisas. Mas nunca deixou de estranhar a minha necessidade de espaço.
Porque minha mãe possuía um talento raro para absorver todas as dores ao redor, e querer dominar e sentir as dores dos outros, desde que estivessem sobre seu controle.
Os problemas dela vinham acompanhados pelos problemas dos irmãos, dos amigos, e de qualquer pessoa que ela amasse. Ela carregava o mundo nas costas e tentava colocá-lo também sobre os ombros dos filhos. Eu resistia. Resistia porque entendia que cada ser humano já possui dificuldades suficientes para administrar.
Talvez aí exista uma das maiores hipocrisias dos pactos humanos. Costumamos dizer que eles são construídos pelos laços de afeto. Não são. O afeto inicia os pactos.
Mas, o ego os governa e tenta sobrecarregar o todo.
A necessidade de pertencimento cria alianças. A necessidade de controle as mantém. Famílias e casamentos fazem isso. Igrejas e empresas exploram isso. Os pactos começam no amor e frequentemente terminam na disputa por influência no poder.
Ao longo da vida fui percebendo que muitos relacionamentos fracassam justamente porque confundem afeto com posse. O pacto deixa de ser uma construção entre iguais e passa a ser uma tentativa silenciosa de ocupação do outro.
Minha mãe nunca fez pacto com a maldade. Fez porque acreditava que cuidar significava participar de tudo. E talvez essa seja uma característica comum das pessoas que amam demais.
Hoje, aos sessenta e três anos, olho para trás e continuo me perguntando se poderia ter feito mais Hoje após sua perda. A resposta muda conforme o dia. Em alguns momentos acredito que sim. Em outros percebo que fiz exatamente o que era possível.
Nem mais. Nem menos.
Convivi sessenta e três anos com minha mãe. Amei minha mãe. Briguei com minha mãe. Fugi da minha mãe. Voltei sempre para minha mãe. Pois entendi que a solidão dela não seria a minha.
Houve apenas um momento em que a vi verdadeiramente fragilizada. Foi quando perdeu direitos ligados à sua aposentadoria durante decisões governamentais que atingiram servidores vinculados ao IPEP. Aquela situação produziu nela uma tristeza profunda. Vi uma mulher forte, acostumada à autonomia, perder a esperança e temer a dependência, aos filhos.
Minha mãe chorou muito quando perdeu meu pai. Mas nunca a vi tão derrotada quanto nos anos em que foi submetida à insegurança produzida pelas decisões inescrupulosas do exgoverno o “Excrotinho”, que fez um pactos de bandido, e não protegeu os aposentados da previdência do Estado.
Aquilo não foi apenas uma questão administrativa. Foi um pacto com a perversidade com a violência moral. Foi uma agressão silenciosa contra pessoas que já haviam cumprido sua parte do contrato de serviços a Paraíba.
O resultado do pacto de canalhice apareceu nas casas daqueles que perderam o mínimo necessário para seu final de vida, minimamente digno. Apareceu na angústia dos aposentados que se suicidaram. Assombrou como fantasma maligno nas noites de quem passava sem dormir, sem esperança no seu sustento e a compra dos medicamentos que acabaram.
O “Excrotinho”, em um pacto maligno, fez a debilidade da saúde, sem piedade, de quem já carregava o peso de uma vida inteira de trabalho. Minha mãe perdeu parte da visão nesse período, edema de mácula. Chorou até adoecer. Chorou até que o corpo começasse a pagar a conta daquilo que a política produziu.
Talvez, o pacto maligno do “Excrotinho” jamais saiba quantos anos de vida ele roubou de pessoas, como da minha mãe. Talvez jamais compreenda quantas lágrimas ficaram escondidas atrás dos números frios da administração pública. Porque o poder possui uma perversidade, no pacto de ser egoísta e nefasto.
Por isso, quando lembro de minha mãe, me vem essa injustiça. Não por ressentimento. Por memória. Porque existe uma diferença entre errar administrativamente e tratar vidas humanas em um pacto de desprezo. O erro admite reparação. O pacto a indiferença revela caráter.
Minha mãe sobreviveu. As vezes a justiça prevalece. Recuperou parte da dignidade. Reergueu-se mais uma vez. Mas ficou em mim a convicção de que nenhum governante merece respeito ao fazer o pacto com a mediocridade da corrupção.
O “Excrotinho” terminou seu governo como um CORRUPTO LADRÃO, segundo denúncias e investigações conduzidas pelo Ministério Público da Paraíba, por meio do GAECO.
E se os pactos revelam quem somos, minha mãe honrou todos os seus. O tempo passa para todos. Mas a memória possui uma crueldade própria: ela nunca absolve quem transformou o sofrimento dos outros em instrumento do pacto de poder.
Se os pactos revelam quem somos, minha mãe foi a pessoa que transformou responsabilidade em prática cotidiana.
Quando penso nela hoje, percebo que o primeiro pacto da minha vida continua existindo. A memória. Mas a memória continuará sendo a testemunha mais incômoda contra a mediocridade dos homens que confundiram pactos de poder com crueldade.
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