
O texto do escritor Palmarí de Lucena examina a crescente normalização de palavrões e insinuações sexuais na política, especialmente nos Estados Unidos, onde o vocabulário agressivo passou a integrar estratégias de marketing eleitoral .Embora defendido como sinal de autenticidade, esse recurso desloca o foco do debate substantivo para o espetáculo, reforça estereótipos e empobrece a esfera pública. Ao institucionalizar a linguagem chula, a política arrisca substituir consistência por viralização e enfraquecer a maturidade democrática. Confira íntegra...
A política sempre foi terreno de confronto verbal. O embate de ideias, a crítica contundente e a ironia fazem parte da tradição democrática. Nos últimos anos, porém, observa-se a ampliação do uso de linguagem profana, de insinuações de viés sexual e até de comentários sobre a suposta potência sexual de candidatos. O que antes seria considerado deslize ou grosseria passou, em certos ambientes, a integrar estratégias de comunicação.
Defensores desse estilo argumentam que o vocabulário cru aproxima o líder do cidadão comum. Ao abandonar formalidades, o político pareceria mais autêntico e espontâneo. Em um cenário saturado de discursos técnicos e promessas previsíveis, a palavra forte — inclusive o palavrão — pode soar como expressão de indignação legítima.
Nos Estados Unidos, essa tendência ganhou contornos particularmente visíveis. Palavrões, antes restritos a comícios inflamados ou declarações improvisadas, passaram a aparecer em entrevistas televisivas, redes sociais e até em anúncios oficiais de campanha. O uso explícito de termos agressivos tornou-se, em certos casos, elemento calculado de marketing político, sinalizando combatividade e rejeição ao establishment. O que outrora seria escândalo converteu-se, para parte do eleitorado, em prova de autenticidade.
Contudo, há custos evidentes. A linguagem pública molda o ambiente democrático. Quando o debate é permeado por expressões chulas ou insinuações de cunho sexual, o foco desloca-se da substância para o espetáculo. O argumento cede lugar à provocação; a divergência programática é substituída por ataques pessoais.
Nesse contexto, surgem comentários sobre a vida íntima ou sobre a suposta potência sexual de candidatos — seja como tentativa de exaltação viril, seja como forma de ridicularização. Trata-se de um recurso que pouco acrescenta ao debate público. Ao associar liderança a atributos de masculinidade física ou desempenho íntimo, reforçam-se estereótipos e desvia-se a atenção das competências políticas efetivas.
A sexualização do discurso cria ainda um ambiente assimétrico. Mulheres e minorias tendem a ser mais frequentemente alvo de comentários sobre aparência ou vida privada. Ao normalizar esse padrão, a política torna-se menos inclusiva e menos centrada em propostas concretas.
É verdade que a comunicação digital recompensa frases de impacto e provocações rápidas. A competição por atenção incentiva o exagero. No entanto, engajamento não equivale a qualidade deliberativa. Quando a intimidade é instrumentalizada como arma retórica, a política perde densidade e ganha superficialidade.
Não se trata de impor um puritanismo artificial. O debate pode ser firme, crítico e até ácido sem recorrer à degradação pessoal. A questão central é a responsabilidade institucional. Líderes públicos falam como indivíduos, mas também como representantes de cargos que simbolizam o Estado.
Governar é também escolher palavras. Quando o vocabulário político abandona o terreno das ideias para explorar a intimidade, a sexualização e o choque deliberado, não se trata apenas de estilo — trata-se de padrão. A normalização do palavrão e da insinuação como ferramentas legítimas de campanha, inclusive em peças publicitárias oficiais, sinaliza uma mudança cultural profunda: o que antes era desvio torna-se método; o que era exceção vira estratégia. Ao institucionalizar esse registro, a política arrisca reduzir-se a performance permanente, onde a contundência substitui a consistência e a viralização ocupa o lugar da reflexão.
Democracias não se fragilizam apenas por rupturas abruptas, mas também por erosões graduais de linguagem e de limites. Quando o espetáculo verbal passa a definir o debate, empobrece-se a esfera pública e enfraquece-se a confiança nas instituições. Entre a autenticidade e a responsabilidade institucional, maturidade democrática não é censura — é autocontenção consciente e compromisso com a elevação do espaço comum.
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