PENSAMENTO PLURAL Para onde vão as universidades?, por Emir Candeia

Em seu comentário, o professor Emir Candeia questiona o atual papel das universidades, em meio ao avanço da Inteligência Artificial, e projeta que somente sobreviverão aquelas instituições que sejam capazes de compreender a importância da academia e se adpatem aos novos paradigmas. Confira íntegra...

Durante muito tempo, a universidade foi vista como uma das grandes promessas da classe média. Para milhões de famílias, colocar um filho na universidade significava abrir as portas da estabilidade econômica, do prestígio social e de uma vida profissional mais segura.

O diploma era tratado quase como uma chave mágica: quem o possuía teria acesso a bons empregos; quem não o possuía ficaria para trás.

Essa crença sustentou, por décadas, a expansão do ensino superior. Criaram-se cursos, abriram-se faculdades, multiplicaram-se universidades públicas e privadas, como se a procura por diplomas fosse crescer infinitamente.

Mas a realidade mudou. Hoje, muitas salas estão vazias. Muitos cursos perderam atratividade. Muitos diplomas já não encantam empresas, famílias nem estudantes. O ensino superior atravessa uma ruptura estrutural profunda, talvez a maior de sua história recente.

A pergunta que precisa ser feita, sem medo, é simples: para onde vão as universidades?

O diploma perdeu parte do seu poder: o antigo pacto social era claro: a família investia tempo e dinheiro, o jovem estudava quatro, cinco ou seis anos, e ao final recebia um diploma capaz de abrir portas no mercado de trabalho.

Esse pacto está quebrado: A queda da natalidade reduz o número de jovens disponíveis para ingressar no ensino superior. O mercado de trabalho mudou. As empresas passaram a valorizar cada vez mais competências concretas, domínio técnico, capacidade de resolver problemas, experiência prática e produtividade real.

O diploma deixou de ser prova suficiente. Antes, ele funcionava como um selo de confiança. Hoje, muitas empresas perguntam: o que este candidato sabe fazer? E, para responder a isso, criam seus próprios testes, processos seletivos, desafios práticos e avaliações de desempenho. É como se o diploma fosse uma embalagem bonita, mas o mercado agora quisesse abrir a caixa para verificar o conteúdo.

A inteligência artificial agravou a crise. A chegada da inteligência artificial tornou essa crise ainda mais séria. Historicamente, muitos jovens formados começavam a carreira realizando tarefas básicas: relatórios simples, análises elementares, levantamento de dados, textos preliminares, pesquisas iniciais, organização de informações. Era por essa porta de entrada que o jovem profissional ganhava experiência.

Mas a IA já consegue executar grande parte dessas tarefas com velocidade, baixo custo e qualidade crescente. Isso muda completamente a lógica da formação universitária. Antes, o jovem subia uma escada difícil, mas existente. Hoje, essa escada parece uma escada rolante em sentido contrário: se ele parar, desce; se não aprender rápido, fica para trás; se depender apenas do diploma, será ultrapassado.

A universidade que continuar formando pessoas apenas para empregos repetitivos, burocráticos e previsíveis estará formando alunos para funções que estão desaparecendo.

As perguntas das famílias mudaram. As famílias e os jovens estão mais pragmáticos. Já não basta perguntar: “qual curso meu filho vai fazer?”, as perguntas agora são outras: Qual emprego real existe ao final deste curso? Que competência concreta o estudante levará consigo? Que rede de contatos será construída? Qual será o retorno financeiro diante do custo e do tempo investidos? Que prova prática de capacidade esse diploma oferece ao mercado? Essas perguntas são duras, mas legítimas.

Nenhuma família deveria ser estimulada a gastar anos de vida e recursos financeiros em uma formação que não entrega maturidade intelectual, competência profissional nem possibilidade real de inserção econômica.

A universidade virou, em muitos casos, uma fábrica de diplomas. O problema não está na existência da universidade. O problema está na transformação de muitas instituições em fábricas burocráticas de credenciais. Em vez de produzir conhecimento, repetem conteúdos. Em vez de formar pessoas capazes de pensar, treinam alunos para cumprir exigências formais.

Em vez de preparar para o mundo real, criam ambientes fechados, distantes da economia, das empresas, da tecnologia e das necessidades concretas da sociedade. Muitos cursos funcionam como rituais sociais envelhecidos: o estudante entra, assiste aulas, faz provas, cumpre carga horária, recebe diploma e sai sem domínio real de uma profissão. A universidade, que deveria ser ponte para a vida adulta, em muitos casos virou apenas um adiamento da vida real.

O caso brasileiro é ainda mais grave. No Brasil, essa crise assume contornos de tragédia institucional. O sistema universitário brasileiro, especialmente o público, enfrenta uma tempestade perfeita: baixa renovação demográfica, queda de atratividade de alguns cursos, distância em relação ao mercado, rigidez burocrática e resistência corporativa à mudança.

A burocracia é frequentemente confundida com qualidade. Exige-se carga horária, número de semanas, modelo tradicional de aula, avaliação padronizada e estrutura curricular rígida. Mas pouco se pergunta sobre o essencial: o aluno aprendeu? Tornou-se competente? Está preparado para criar valor? O sistema parece mais preocupado em cumprir regulamentos do que em entregar resultados.

Sem risco, não há urgência. Outro problema é a ausência de responsabilização. Se uma universidade perde alunos, raramente sofre consequências reais. Se um curso forma centenas de jovens para o desemprego, nada acontece. Se a estrutura física se deteriora, se os currículos envelhecem, se os professores deixam de inspirar, o contribuinte continua pagando a conta.

No setor privado, uma empresa que não entrega valor perde clientes e fecha. No ensino superior protegido pelo Estado, a lógica é diferente: muitas instituições seguem funcionando mesmo quando já não demonstram utilidade social proporcional ao seu custo. Sem risco de fracasso, desaparece a urgência de buscar o sucesso.

O corporativismo bloqueia a mudança. A governança de muitas universidades públicas é fechada sobre si mesma. Reitores e conselhos são escolhidos, direta ou indiretamente, pela própria corporação acadêmica. Cria-se um circuito interno de dependências, favores e acomodações.

Quem governa depende do voto de quem será governado. Quem precisa reformar depende do apoio de quem muitas vezes será afetado pela reforma. O resultado é previsível: conservação do status quo, medo de mudanças profundas, defesa de privilégios e pouca prestação de contas à sociedade que financia o sistema.

A chamada *autonomia universitária* , necessária para proteger a liberdade intelectual, não pode ser confundida com imunidade à avaliação, à cobrança e à responsabilidade pública. Autonomia não é licença para ineficiência.

A universidade que sobreviverá. O futuro não exige o fim das universidades. Exige uma grande triagem. Sobreviverão as instituições capazes de criar verdadeiro capital humano. Isso significa formar pessoas com: pensamento crítico profundo; capacidade de resolver problemas reais; domínio de tecnologias; competência prática; curiosidade intelectual; capacidade de aprender continuamente e redes de valor com empresas, laboratórios, instituições públicas e sociedade civil.

A universidade do futuro não poderá ser apenas um prédio com salas, professores e provas. Ela precisará ser um ambiente vivo de criação de conhecimento, experimentação e aplicação prática.

A pesquisa e o ensino não podem andar separados. O estudante precisa aprender enfrentando problemas reais, participando da criação de soluções, lidando com perguntas para as quais ainda não existem respostas prontas.

É justamente aí que a universidade ainda pode ser insubstituível. O professor também precisa mudar. O professor do futuro não pode ser apenas um transmissor de conteúdo. Isso a inteligência artificial já faz, muitas vezes com mais rapidez e disponibilidade. O verdadeiro professor será aquele capaz de provocar perguntas, orientar raciocínios, corrigir caminhos, estimular curiosidade e ensinar o aluno a pensar diante do desconhecido.

Ensinar fatos já não basta. O papel mais nobre do professor será formar inteligência, julgamento, prudência, método e capacidade de criação. A IA pode entregar respostas. O bom professor ensina o aluno a formular melhores perguntas.

As instituições sem condições devem encerrar atividades. É preciso dizer com clareza: nem toda universidade merece continuar funcionando. Instituições que não produzem conhecimento, não formam bem, não atraem estudantes, não dialogam com o mundo real e não entregam retorno social proporcional ao custo que impõem à sociedade precisam ser profundamente reformadas.

E, quando não apresentarem condições reais de recuperação, devem encerrar suas atividades ou ser incorporadas a instituições mais eficientes. Manter estruturas inúteis apenas para preservar cargos, prédios, departamentos e vaidades acadêmicas é um desperdício de dinheiro público e uma fraude contra os jovens.

O estudante não pode ser tratado como matéria-prima de uma máquina burocrática. A sociedade não pode continuar financiando instituições que já não cumprem sua missão.

A reforma necessária.  O Brasil precisa de uma reestruturação corajosa do ensino superior. Isso passa por rever cursos obsoletos, reduzir estruturas improdutivas, aproximar universidades das empresas, flexibilizar currículos, criar formações mais curtas e práticas, valorizar professores por desempenho real, ampliar parcerias tecnológicas e medir resultados com seriedade.

É necessário avaliar quantos alunos entram, quantos concluem, quantos trabalham na área, quanto ganham, que competências adquiriram e que impacto a instituição gera para a sociedade.

A universidade precisa prestar contas. Não basta dizer que é pública. Precisa demonstrar que é útil. Não basta dizer que é autônoma. Precisa provar que é responsável. Não basta entregar diploma. Precisa formar pessoas capazes de viver, trabalhar, pensar e criar valor num mundo em transformação acelerada.

Conclusão. As universidades estão diante de uma escolha histórica. Ou se transformam em centros vivos de conhecimento, inovação, pensamento crítico e formação prática, ou serão vistas cada vez mais como monumentos caros de um mundo que passou.

A inteligência artificial, a mudança demográfica e o novo mercado de trabalho não pedem licença. Eles já estão reorganizando a sociedade. A universidade que entender isso poderá continuar sendo essencial. A universidade que resistir, escondida atrás da burocracia, do corporativismo e da falsa segurança institucional, caminhará para a irrelevância.

O futuro não acabará com todas as universidades. Mas será impiedoso com aquelas que esqueceram por que existem.

 

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