
A partir do filme Au revoir les enfants, o texto do escritor Palmarí de Lucena reflete sobre o patriotismo como escolha ética, não como exibição simbólica. Mostra como o silêncio e a acomodação podem corroer valores democráticos e traça um paralelo com o Brasil contemporâneo, onde a exaltação da pátria convive com desigualdades e relativização da lei. Defende um patriotismo maduro, baseado em responsabilidade cívica, senso crítico e compromisso efetivo com a justiça e as instituições. Confira íntegra…
Há obras que falam baixo e, justamente por isso, permanecem. No filme Au revoir les Enfants, o patriotismo não aparece como palavra de ordem nem como bandeira hasteada. Ele se insinua na forma de silêncio, de medo e de escolhas miúdas, feitas à sombra de um conflito maior. O internato francês do filme acredita estar protegido da guerra; descobre, tarde demais, que neutralidade moral não é abrigo.
A força da narrativa está em mostrar que o colapso ético raramente começa com gestos espetaculares. Começa com acomodações. Com a ideia de que é possível preservar a normalidade ignorando o que acontece ao redor. O patriotismo, ali, não se manifesta como resistência coletiva, mas como adaptação individual — e é essa adaptação que abre caminho para a injustiça.
A distância entre aquele cenário europeu e o Brasil contemporâneo não é tão grande quanto parece. Aqui, o patriotismo também tem sido frequentemente reduzido a símbolos, palavras e rituais. A bandeira, o hino e a retórica da pátria ganharam centralidade, enquanto valores menos visíveis — igualdade perante a lei, respeito às instituições, compromisso com o bem comum — passaram a ocupar lugar secundário no debate público.
Não se trata de negar o valor do sentimento nacional. Pertencer a um país é reconhecer uma história compartilhada, com suas conquistas e suas falhas. O problema surge quando o patriotismo se transforma em filtro moral seletivo: severo com adversários, indulgente com abusos cometidos em nome da própria causa. Nesse ponto, ele deixa de ser virtude cívica e passa a funcionar como álibi.
O Brasil vive hoje uma dessas contradições. Exalta-se a pátria enquanto se naturalizam desigualdades profundas. Invoca-se a ordem enquanto se relativiza a legalidade. Defende-se a nação em abstrato, mas hesita-se em proteger, na prática, os direitos que dão substância a essa mesma nação. O patriotismo performático convive, sem constrangimento, com a tolerância ao improviso institucional e à exclusão social.
O filme de Louis Malle lembra que o silêncio também é uma escolha política. No internato, ninguém se vê como cúmplice. Cada um acredita estar apenas cumprindo seu papel, preservando o cotidiano, evitando riscos desnecessários. Ainda assim, o resultado é a ruptura irreversível daquilo que se pretendia proteger. A lição é incômoda porque dispensa vilões grandiosos: basta a soma de omissões.
Um patriotismo maduro exige mais do que entusiasmo simbólico. Exige senso crítico, disposição para o dissenso e fidelidade a princípios que valem inclusive — e sobretudo — quando contrariam interesses imediatos. Amar um país não é blindá-lo contra críticas, mas contra a repetição de seus erros. Não é gritar mais alto, mas sustentar regras comuns quando o ambiente incentiva o contrário.
Talvez a maior contradição brasileira esteja justamente aí: proclama-se amor à pátria enquanto se evita o trabalho paciente de torná-la mais justa. Entre o orgulho e a responsabilidade, escolhe-se com frequência o primeiro, por ser mais simples e menos custoso. O cinema, às vezes, ajuda a lembrar que essa escolha tem consequências.
Em Au revoir les enfants, a despedida final não é apenas entre personagens. É a despedida da ilusão de que se pode atravessar tempos difíceis sem tomar posição. No Brasil de hoje, o desafio do patriotismo passa por reconhecer que símbolos não substituem compromissos — e que a lealdade a um país se mede menos pelo que se exibe e mais pelo que se está disposto a defender.
Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.