
O escritor Palmarí de Lucena adverte, em seu texto, como, em João Pessoa, o saneamento expõe a distância entre discurso político e política pública efetiva. Embora o abastecimento de água esteja próximo da universalização, o esgotamento sanitário segue como elo frágil, refletido na poluição de rios e praias. Emendas parlamentares podem ajudar, mas, quando pulverizadas e desconectadas do planejamento, rendem visibilidade sem resolver problemas. No saneamento, mais que retórica, exige-se coerência: quem decide o destino dos recursos responde pelos resultados ambientais e sociais. Confira íntegra...
Em João Pessoa, saneamento não é um tema “técnico”. É a linha invisível que separa a cidade-cartão-postal da cidade real. A capital avançou no abastecimento de água — a cobertura se aproxima da universalização — e mantém índices de esgotamento acima da média estadual. Ainda assim, permanece distante do ideal. Há contingentes relevantes sem coleta de esgoto, e essa lacuna reaparece onde mais dói: na balneabilidade das praias e na pressão contínua sobre rios, manguezais e galerias pluviais.
Nesse cenário, multiplicam-se críticas parlamentares à gestão do saneamento e às falhas no fornecimento de água. O problema começa quando essas cobranças ignoram um dado central do arranjo institucional: muitos dos que apontam a falta de investimentos participam diretamente da definição e do destino das emendas parlamentares — um dos principais canais de financiamento do setor. Criticar sem explicitar como os próprios recursos foram alocados, ou por que não foram, acrescenta ruído político e pouco contribui para a solução.
As emendas, aliás, são instrumento ambivalente. Bem aplicadas, funcionam como alavanca: destravam elevatórias, completam interceptores, reforçam redes e reduzem extravasamentos. Mal desenhadas, tornam-se uma coleção de obras pequenas e desconectadas do plano municipal de saneamento, do planejamento por bacias e do cronograma do operador. Rendendo placa e fotografia, mas não indicador. A política se satisfaz com a visibilidade imediata; o esgoto, não.
O contraste entre água e esgoto expõe o limite desse modelo fragmentado. Enquanto o sistema de abastecimento opera próximo da universalização, o esgotamento sanitário segue como elo frágil da cadeia ambiental. As falhas reaparecem nos boletins de balneabilidade, lembrando que soluções pontuais não substituem integração, continuidade e escala. A água chega; o esgoto fica. E o litoral — vitrine econômica e simbólica da cidade — funciona como termômetro de uma política pública incompleta.
Saneamento exige planejamento de longo prazo. A agenda nacional de universalização pressupõe contratos com metas claras, regulação efetiva e financiamento contínuo. Nesse contexto, emendas funcionam melhor quando reforçam projetos estruturantes já maduros, e não quando tentam substituir o investimento regular por intervenções improvisadas. João Pessoa, aliás, dá sinais de que o caminho existe: há obras de grande porte em curso e uma carteira de investimentos anunciada que aponta para uma estratégia incompatível com o improviso.
É aqui que a atuação parlamentar pode deixar de ser retórica e tornar-se efetiva. Menos denúncia genérica e mais pactuação de prioridades; menos pulverização e mais concentração de recursos em etapas críticas — interligações, interceptores, automação, setorização — capazes de reduzir extravasamentos e melhorar a qualidade ambiental. Emenda paga importa menos do que obra concluída e sistema operando.
No saneamento, coerência pesa mais que discurso: quem decide o destino do dinheiro responde também pelo resultado.
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