PENSAMENTO PLURAL Presunção envergonhada, por Durval Leal Filho

Em seu comentário, o cineasta Durval Leal Filho afirma o quanto se vê como “um jovem velho que observa as coisas se repetirem ao longo do tempo, principalmente porque guardo uma patologia grave: a de lembrar, de ter uma memória seletiva das informações”. Então, trata da intolerância e do bullyng contra os que pensam diferente. “Cometem barbáries com palavras por se sentirem ou se acharem melhores do que o outro, mas não se olham”, lamenta. Confira integra…

Inicio fazendo uma autocrítica: uma leitura de como me vejo diante do espelho.

Vejo-me um jovem velho que observa as coisas se repetirem ao longo do tempo, principalmente porque guardo uma patologia grave: a de lembrar, de ter uma memória seletiva das informações.

Essa memória me dá a presunção de querer expressar um sentimento, uma visão do que já esteve na leitura crítica das mídias, do que já foi colocado a público com evidências.

O lado A ou o lado B quer apenas se defender, dentro de uma presunção de inocência que considero inexistente, porque os fatos são claros.

Então, diante de um espelho, eu me vejo.

Vejo a minha máscara. Uma máscara que é uma farsa, mas que existe cotidianamente. Não me maquio: não busco marcar os olhos nem evidenciar os lábios para aumentar a hipocrisia diante dos outros.

A minha maquiagem é crua: é o que o tempo fez no meu semblante e no meu juízo.

Assim, sentindo-me uma farsa diante do espelho, mas, ao mesmo tempo, enxergando como os outros se veem, percebo algo interessante: eles revelam a sua crueldade e baixeza ao projetarem nos outros aquilo que veem em seu próprio espelho. E assim chegamos a conhecer pessoas.

O bom das pessoas é que elas se revelam com o tempo.

Sempre tive cuidado ao me revelar à primeira vista: um tolo, vaidoso, envergonhado, perguntador, mas sem maquiagem, sem hipocrisia disfarçada, direto e objetivo. Busco entregar o que há de melhor em mim e o que posso construir ao me sentir gente.

Porque a entrega é a única coisa que temos, fato, como expressão da nossa personalidade. O restante é fácil: é hipocrisia. Tudo se nivela pelo que se vê e se encontra no outro (?!).

Sempre que olho no espelho, tento olhar diretamente nos meus olhos. Sinto o quanto estão fundos e tristes. Diante deles, perguntome o que percebo e o que posso melhorar naquilo que sou e faço.

Já que me vejo como uma farsa, procuro não disfarçá-la, na tentativa de ser real, de expor o que há de mais pessoal em mim.

E, assim, no espelho, vejo-me Narciso, no nível de muitos. Mas tenhamos paciência, porque há muita coisa por baixo do espelho d’água. E não se pode chegar ao ponto de se igualar a tão venais criaturas.

Entre elas, chamo a atenção para os senhores políticos e os partidários, organizados em partidos divididos, bandos e facções, pois são eles que nos movem à vaidade e nos colocam em pontos de vista sem termos vista dos pontos: apenas a alienação de olhar a sua boiada e seguir.

Porque a retórica de quem adota os pontos de vista dos outros é simplesmente seguir. E, para seguir, é preciso saber qual é o limite, até onde se vai chegar.

Ao olhar no espelho, tento ver onde está, em cada olhar, em cada traço, em cada ruga, a vergonha do jardim de adjetivos que tenho recebido por VOTAR NULO: “isentão”, “fascista de direita”, “Bolzolóide”, “PeTralha”, “desnaturado, você não ama o Brasil”. Essas são as definições que as pessoas dão ao seu espelho e aos seus olhos fingidores.

Cada pessoa remete ao outro aquilo que está no seu ser, no seu eu falho, para dividir a dificuldade de não se entender, de ser um nada. Buscar no outro uma sinceridade que não se tem é uma falha do coletivo em rede.

Do bullying nasce a intolerância; da intolerância, a pouca inteligência. Não se separam. Parafraseando: onde mora a intolerância, não mora a inteligência. É assim que se tratam, atualmente, as posições políticas e as pessoas.

Ou você está com uma ditadura miliciana ou com a perversão de uma ditadura judicial, ambas corruptas e amorais. Assim se revelam: uma se acha do lado direito; a outra, do lado esquerdo. Cada um se identifique em espelho.

Infelizmente, não consigo me identificar totalmente com nenhum dos dois olhares. E assim me expresso, como um tolo: não comungo com nenhum dos dois, simples escarro fatos.

Não há horizonte: de cada lado, alguém se sente mais do que o nada do outro lado. Igualam-se. Ficam demonstrados o tamanho da hipocrisia e o disfarce dos pseudointelectuais e dos politicamente corretos.

Cometem barbáries com palavras por se sentirem ou se acharem melhores do que o outro, mas não se olham.

Ao me expressar e dizer que não concordo, que não pulo nem para o lado A nem para o lado B, logo me rotulam: “você é de direita”, “você tem tendência”, “você é comunista”, “você é um amador”, “funcionário público”. São manifestações da intolerância dos ignorantes, tristemente observadas.

Incrível: INICIAMOS A ERA DOS TOLOS IGNORANTES.

A retórica do cachorro brigando com o próprio rabo. Sim, eu simplesmente não tive a sorte de escapar da adjetivação animal.

Estava esperando que me chamassem de qualquer outro animal, porque adoro mais os outros animais do que o Homo sapiens, non erectus.

 

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