
A Copa do Mundo de 2026 simboliza a transformação do futebol em um espetáculo global, onde emoção, negócios e política convivem em permanente tensão, pontua o escritor Palmarí de Lucena em sua crônica. Inspirada nas reflexões de The Ugly Game, a crônica mostra que, embora interesses econômicos e geopolíticos tenham ampliado sua influência sobre o esporte, a essência do futebol permanece viva na paixão dos torcedores, na imprevisibilidade do jogo e na capacidade da bola de unir pessoas e despertar esperança. Confira íntegra...
Há um instante que o futebol ainda consegue preservar. O árbitro apita, a bola rola e, por alguns segundos, o mundo parece esquecer de si mesmo. Não existem fronteiras, campanhas publicitárias, disputas diplomáticas ou balanços financeiros. Existem apenas vinte e dois jogadores, milhões de olhares e a antiga esperança de que o impossível ainda possa acontecer.
Mas esse instante é breve.
Basta a câmera se afastar do gramado para revelar a dimensão do espetáculo. A Copa do Mundo de 2026, a maior já realizada, distribuída por três países e dezenas de cidades, tornou-se mais do que um torneio esportivo. É um acontecimento econômico, político e cultural de escala global, onde governos projetam influência, empresas disputam mercados e marcas competem pela atenção de bilhões de espectadores.
O futebol permanece no centro da cena, mas já não ocupa o palco sozinho.
Durante muito tempo, alimentou-se a ideia de que o esporte existia em um território imune às disputas do poder. As investigações reunidas em The Ugly Game contribuíram para desfazer essa ilusão ao expor como interesses econômicos, alianças políticas e decisões de bastidores influenciaram os rumos da principal competição do planeta. O encanto do jogo não desapareceu; apenas perdeu a inocência.
Desde então, assistir a uma Copa do Mundo tornou-se acompanhar duas partidas simultâneas.
A primeira acontece no gramado. É feita de talento, improviso, tensão e beleza. Vive do drible inesperado, da defesa impossível e do silêncio que antecede um pênalti decisivo.
A segunda desenrola-se longe das arquibancadas. Nela, negociam-se direitos de transmissão, contratos de patrocínio, investimentos bilionários, estratégias diplomáticas e narrativas capazes de projetar a imagem de países inteiros. Enquanto um atacante procura espaço entre os zagueiros, governos procuram espaço na geopolítica. Enquanto um goleiro salva uma seleção, corporações disputam segundos de visibilidade nas telas do mundo.
Nenhuma dessas partidas elimina a outra. Elas coexistem.
Talvez essa seja a grande marca do futebol contemporâneo: ele deixou de ser apenas um esporte para tornar-se uma linguagem universal onde emoção, mercado e poder convivem em permanente tensão.
Ainda assim, existe algo que insiste em escapar dessa engrenagem.
O menino que improvisa traves com dois chinelos não sonha com contratos de transmissão nem com estratégias de marketing. Sonha em marcar o gol da final da Copa. A torcedora que atravessa um oceano para acompanhar sua seleção não embarca por causa dos patrocinadores. Viaja porque acredita que noventa minutos podem justificar uma vida inteira de espera.
É essa capacidade de preservar a emoção que impede o futebol de ser reduzido a uma mercadoria.
Os dirigentes administram instituições. Os governos administram interesses. As empresas administram mercados. Mas nenhum deles consegue produzir o silêncio absoluto que antecede uma cobrança de falta ou o grito espontâneo que explode quando a bola encontra a rede. Essas emoções permanecem inalcançáveis pelos contratos.
A Copa de 2026 simboliza o auge da transformação do futebol em espetáculo global. Não porque tenha abandonado sua essência, mas porque a envolve em uma estrutura cada vez mais sofisticada, na qual entretenimento, negócios e política caminham lado a lado. O jogo continua o mesmo; o mundo ao seu redor mudou profundamente.
Talvez essa seja a maior contradição do futebol moderno. Quanto maior se torna a indústria, mais valiosa parece a autenticidade de um passe improvável, de uma comemoração improvisada ou de um gol marcado nos acréscimos. É justamente aquilo que não pode ser planejado nem comprado que mantém viva a magia do esporte.
Quando os refletores se apagam, as transmissões terminam e os patrocinadores recolhem suas marcas, permanece uma pergunta que atravessa todas as Copas: afinal, quem é o verdadeiro dono do futebol?
A resposta talvez nunca esteja nas salas de reunião.
Ela continua nas arquibancadas, nas ruas e nos campinhos improvisados, onde alguém ainda acredita que uma bola, sozinha, é capaz de mudar uma tarde, uma cidade ou até um país.
Enquanto essa crença sobreviver, o espetáculo poderá crescer, os negócios poderão multiplicar-se e a política continuará ocupando as tribunas. Mas haverá sempre algo que escapará ao controle de todos eles.
O futebol, em sua essência, continuará pertencendo àqueles que ainda se emocionam quando a bola começa a rolar.
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