PENSAMENTO PLURAL Quando a exceção vira método, por Palmarí de Lucena

Inspirado em O poder dos sem poder, de Václav Havel, o artigo do escritor Palmarí de Lucena analisa como a substituição de regras por pressão permanente transforma a exceção em método político. Ao dispensar consenso e previsibilidade, a intimidação passa a organizar decisões antes mesmo do conflito. O risco não está apenas na assimetria de poder, mas na adaptação silenciosa que normaliza a mentira, enfraquece o multilateralismo e esvazia a responsabilidade institucional nas relações internacionais. Confira íntegra...

A reaparição de uma versão contemporânea da Doutrina Monroe recoloca a América Latina diante de um dilema antigo, agora agravado pela erosão deliberada das regras que, por décadas, organizaram a política hemisférica. Mais do que uma inflexão estratégica dos Estados Unidos, trata-se de uma mudança no modo de exercer o poder. Quando a exceção deixa de ser resposta circunstancial e passa a orientar decisões, o método se impõe sobre a norma. Para compreender esse deslocamento, a leitura de O poder dos sem poder, de Václav Havel, oferece uma chave mais esclarecedora do que os esquemas tradicionais da geopolítica.

Convém situar o autor para evitar equívocos interpretativos. Havel foi um opositor direto do comunismo real, não como polemista ideológico ou propagandista liberal, mas como dissidente que conheceu a censura, a vigilância e a prisão. Sua crítica não se dirigia a partidos, governos ou modelos econômicos específicos, mas a um sistema político que transformou a mentira em prática cotidiana de governo e exigiu dos indivíduos a abdicação sistemática da responsabilidade moral.

Em O poder dos sem poder, Havel descreve regimes autoritários como sistemas de encenação. O poder não exige adesão sincera, apenas conformidade visível. Bastam gestos corretos, slogans repetidos, silêncios estratégicos. A mentira deixa de ser exceção e passa a funcionar como idioma ordinário da vida pública.

A política hemisférica associada à nova Doutrina Monroe opera segundo lógica semelhante, ainda que em contexto histórico e ideológico distinto. Ela não busca consenso nem se ancora em instituições estáveis. Prefere a intimidação explícita, a ameaça pública, a sanção seletiva e a imprevisibilidade calculada. A previsibilidade das regras cede lugar à volatilidade do gesto. O alinhamento deixa de ser negociado e passa a ser antecipado pelo medo.

O efeito dessa lógica não se mede apenas por intervenções concretas, mas pelo comportamento que induz. A pressão permanente produz autocensura diplomática, reduz margens de autonomia e normaliza a exceção. Não é necessário impor a força de modo contínuo; basta torná-la plausível. O poder passa a operar por antecipação, reorganizando decisões antes mesmo que o conflito se materialize.

Nesse ambiente, a mentira assume função estrutural. Não se trata apenas de distorção factual, mas da produção deliberada de narrativas instáveis, mutáveis e contraditórias, que corroem a confiança nas normas comuns. A verdade deixa de ser um referencial compartilhado e passa a ser um recurso circunstancial. Como advertia Havel, quando a mentira se torna sistêmica, o regime depende da participação cotidiana daqueles que sabem que ela é falsa.

O risco para a América Latina não reside apenas na assimetria de poder, mas na naturalização desse mecanismo. A adaptação silenciosa pode parecer racional no curto prazo, mas cobra um preço elevado: a erosão progressiva da soberania decisória, a fragilização do multilateralismo e a substituição do direito por relações personalizadas de força.

O “poder dos sem poder”, em Havel, não é a confrontação direta com a hegemonia, mas a recusa em representar o ritual da mentira. No plano internacional, isso se traduz menos em gestos retóricos e mais em consistência institucional, coordenação regional e compromisso efetivo com regras que não dependam do humor do governante de turno.

Quando a exceção vira método, a arbitrariedade deixa de ser desvio e passa a estruturar o sistema. Como ensinou Havel — crítico do comunismo justamente por ter identificado nele um modelo de poder baseado na submissão moral —, regimes assim não se sustentam apenas pela força externa, mas pela adesão silenciosa à falsidade cotidiana. A questão central, hoje, não é a capacidade de confronto, mas a disposição de não viver indefinidamente na mentira como forma de sobrevivência política.

 

Os textos publicados nesta seção “Pensamento Plural” são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.