
O texto do escritor Palmarí de Lucena defende a ideia que o jornalismo de opinião não é sinônimo de polêmica, mas um exercício de interpretação responsável dos fatos. Argumenta que o equilíbrio editorial não depende da ausência de posição, e sim do rigor argumentativo, do respeito aos fatos e da distinção entre opinião, editorial e coluna. Sustenta ainda que a opinião séria incomoda autoridades — sobretudo regimes autoritários — porque rompe o controle da narrativa, cria memória e expõe contradições entre discurso e prática. Confira íntegra…
É recorrente a crítica de que textos de opinião seriam, por natureza, polêmicos — e, por isso mesmo, incompatíveis com o ideal de equilíbrio jornalístico. A associação parece intuitiva, mas é imprecisa. Polêmica não é uma categoria editorial; é um efeito possível. Confundir uma coisa com a outra empobrece o debate público e obscurece uma distinção fundamental entre gêneros do jornalismo.
O jornalismo de opinião não nasce para produzir ruído, mas para interpretar fatos à luz de princípios. Seu ponto de partida não é a controvérsia, mas a realidade observável. Quando um texto de opinião incomoda, isso raramente decorre de excesso retórico. Na maioria das vezes, decorre do simples fato de que decisões públicas, quando examinadas com método, contexto e memória, resistem mal ao escrutínio racional.
Convém, antes de tudo, diferenciar os papéis. O artigo de opinião expressa a leitura de um autor identificado, que assume publicamente sua interpretação dos fatos. O editorial reflete a posição institucional do jornal, com responsabilidade coletiva e linguagem mais contida. Já a coluna é um espaço híbrido, de voz continuada, onde análise, estilo e observação convivem. Nenhum desses formatos existe para inflamar o debate; todos existem para qualificá-lo.
A polêmica surge quando há fricção entre discurso e prática, entre promessa e resultado, entre legalidade e legitimidade. Nesses casos, o incômodo não é criado pelo texto — ele já está presente nos fatos. A opinião apenas o organiza, o nomeia e o oferece ao leitor como reflexão. Silenciar essa etapa não produz equilíbrio; produz opacidade.
É nesse ponto que se torna necessária outra distinção: opinião argumentada não é militância. A primeira se ancora em fatos verificáveis, admite nuances e aceita a discordância como parte do jogo democrático. A segunda parte de conclusões prévias e seleciona dados para confirmá-las. Quando isso ocorre, não é a opinião que falha como gênero; é o texto que abandona o método jornalístico.
Também se acusa a opinião de “tomar partido”. A crítica ignora que toda análise parte de valores mínimos compartilhados por sociedades democráticas — legalidade, transparência, responsabilidade pública, respeito a direitos fundamentais. Defender esses princípios não é partidarismo; é compromisso cívico. Neutralidade absoluta diante de desvios evidentes não é virtude editorial, mas omissão travestida de prudência.
O equilíbrio, no jornalismo de opinião, não se mede pela ausência de posição, mas pela qualidade da argumentação. Um texto equilibrado reconhece limites, pondera consequências, evita personalizações indevidas e distingue crítica institucional de ataque pessoal. É possível — e desejável — ser firme sem ser estridente, claro sem ser panfletário.
Não é por acaso que a opinião responsável incomoda mais regimes autoritários. Eles toleram dados, relatórios e estatísticas, desde que controlem sua interpretação. O que não toleram é a leitura independente dos fatos, a comparação com o passado, a lembrança de promessas esquecidas. A opinião quebra o monopólio da narrativa, cria memória e retira do poder o conforto do esquecimento.
Reduzir a opinião à condição de polêmica é, no fundo, uma forma conveniente de descartá-la. Se tudo é “polêmico”, nada precisa ser respondido no mérito. Essa estratégia empobrece o debate democrático e transforma o dissenso — elemento vital da vida pública — em algo suspeito.
Num ambiente saturado de ruído, o jornalismo de opinião continua a cumprir uma função insubstituível: pensar em público com responsabilidade. Quando isso gera desconforto, o problema raramente está no texto. Está na realidade que ele insiste em iluminar.
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