PENSAMENTO PLURAL Quando a violência do Estado atravessa a linha, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena trata de recentes episódios de violência estatal em solo americano que “podem produzir efeitos políticos semelhantes aos da Guerra do Vietnã”. Ao lembrar o massacre de estudantes em Kent State, em 1970, o texto analisa o impacto simbólico da morte de uma cidadã americana em operação conduzida por agentes da ICE. “O argumento central é que a repetição do uso letal da força contra civis corrói a legitimidade do Estado e fragiliza o pacto democrático”, alerta. Confira íntegra...

Há momentos na história de uma democracia em que fatos isolados deixam de ser episódicos e passam a operar como sinais. Não pelo número de vítimas, mas pela natureza do ato e pelo agente que o pratica. O tiroteio contra estudantes na Kent State University, em 1970, não criou a oposição à Guerra do Vietnã — mas marcou o instante em que parte decisiva da sociedade americana percebeu que a lógica da guerra havia retornado para casa.

O Vietnã não foi politicamente perdido apenas nos arrozais do Sudeste Asiático. Foi corroído quando o uso da força, legitimado no exterior, começou a se manifestar no espaço civil doméstico. A morte de jovens desarmados, atingidos por tropas da Guarda Nacional em um campus universitário, rompeu a fronteira simbólica que separa segurança de repressão.

É por isso que episódios contemporâneos de violência letal cometida por agentes do Estado em solo americano — ainda que em contextos distintos, sob investigação ou disputa narrativa — produzem inquietação legítima. Quando efetivos da ICE — o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos, agência federal vinculada ao Departamento de Segurança Interna e originalmente criada para fiscalizar imigração irregular, fronteiras e crimes transnacionais — participam de uma operação que resulta na morte de uma cidadã americana, a questão deixa de ser apenas jurídica ou operacional. Torna-se política e moral.

A presença de uma agência voltada ao controle migratório em ações com desfecho letal em território doméstico amplia a gravidade do episódio. Não se trata apenas de erro individual, mas do deslocamento de funções, em que estruturas concebidas para lidar com fluxos migratórios passam a atuar, direta ou indiretamente, como força de segurança interna com poder de vida e morte. Esse deslizamento institucional fragiliza limites que democracias maduras se esforçam para preservar.

Democracias se sustentam menos pela força que detêm e mais pela confiança que inspiram. O uso da violência estatal é tolerado apenas enquanto exceção trágica, submetida a limites claros, fiscalização rigorosa e responsabilização inequívoca. Quando essa exceção começa a parecer rotina, o efeito não é imediato, mas cumulativo: erosão da legitimidade, radicalização do discurso e retração do consenso cívico.

A analogia com o Vietnã não deve ser feita de forma leviana. Não se trata de equiparar conflitos externos a episódios domésticos, nem de confundir escalas históricas. O ponto de contato está em outro lugar: na percepção pública de que o Estado passou a tratar seus próprios cidadãos como problema a ser contido, e não como sujeitos de direito a serem protegidos.

Kent State ensinou que a autoridade democrática não se perde em um único ato, mas em sequências mal explicadas, mal investigadas e mal corrigidas. A recusa em reconhecer erros, o fechamento corporativo e a normalização do discurso de força aceleram esse processo.

A história mostra que guerras terminam quando perdem sentido político, não apenas quando cessam combates. Da mesma forma, democracias entram em crise quando a população passa a temer aqueles que deveriam garantir sua segurança. O risco não está no episódio isolado, mas no precedente que ele estabelece — e no silêncio institucional que o acompanha.

Preservar a ordem não exige apenas poder; exige contenção. E nenhuma democracia sobrevive por muito tempo quando confunde autoridade com intimidação.

 

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