PENSAMENTO PLURAL Teorema do PT, Lula, Lulinha e Zé Dirceu, por Emir Candeia

Em seu texto, o professor Emir Candeia usa a matemática para afirmar que se Lulinha é Lula e Lulinha é Zé Dirceu, então Lula é Zé Dirceu. Cita o escândalo do Mensalão e, mais recentemente, do desconto de aposentados do INSS e também aborda o caso do Banco Master. “Se você quiser ser forte sem ser frágil, o alvo mais sólido não é afirmar culpa; é apontar o ambiente: aparelhamento, redes de influência, sindicatos/entidades, e a obrigação de transparência total — “investigue tudo, doa a quem doer”, acrescenta. Confira íntegra…

Teorema do PT: se Lula = Lulinha e Lulinha = Zé Dirceu, então Lula = Zé Dirceu”* Jacaré demais no brejo: por que o histórico do PT alimenta a suspeita de corrupção. Na política, existe uma diferença importante entre prova judicial e evidência política. Prova judicial exige cadeia de custódia, contraditório e sentença final. Evidência política é o conjunto de padrões repetidos, decisões de tribunais, confissões, delações, operações policiais e fatos documentados que, somados, indicam um modo de operar.

É como na vida real: uma conta de água alta pode ser acaso; três meses seguidos, com infiltração e mofo aparecendo, já parece “problema estrutural”, não “azar”. A seguir, os pontos mais fortes — com o que é condenação, o que é acusação e o que acabou anulado/arquivado.

1) Mensalão: não foi “boato”, foi julgamento no STF. O caso do Mensalão (Ação Penal 470) marcou um divisor porque não ficou no “diz que me disse”: virou processo penal julgado pelo Supremo, com condenações relevantes de dirigentes e figuras centrais ligadas ao PT e ao governo da época. O próprio relatório do STF sobre a AP 470 descreve o núcleo político e a lógica do esquema, e houve definição de penas em 2012.

Mesmo com revisões posteriores em pontos específicos (por exemplo, discussões sobre “quadrilha”), a espinha dorsal do caso deixou um recado claro para o país: houve um esquema de compra de apoio político e corrupção envolvendo liderança partidária.

Leitura política: quando a cúpula de um partido é condenada num caso desse tamanho, fica difícil sustentar que “é tudo invenção do adversário”.

2) Lava Jato/Petrobras: corrupção sistêmica, com dinheiro recuperado e condenações. A Operação Lava Jato expôs um ecossistema de propinas e contratos públicos, especialmente na Petrobras, e produziu condenações criminais e recuperação bilionária de recursos, segundo balanços institucionais do Ministério Público Federal.

É crucial reconhecer um ponto (para manter credibilidade): não era um esquema de um partido só — havia múltiplos atores e partidos. Mas, politicamente, o PT paga um preço maior porque estava no comando do Executivo federal durante grande parte do período investigado, e figuras associadas ao partido apareceram no centro de apurações e processos.

3) Lula: condenações existiram, mas foram anuladas; e parte acabou prescrita. Aqui está o ponto que muita gente distorce de propósito. Lula foi condenado em casos da Lava Jato e chegou a ficar preso. Depois, o STF anulou as condenações por entender que a 13ª Vara de Curitiba era incompetente para julgar aqueles casos.

E, no caso do tríplex, a 2ª Turma do STF reconheceu a suspeição/parcialidade de Sergio Moro naquele processo. O que aconteceu depois, na prática? Em alguns casos, com a anulação e a mudança de foro, houve reconhecimento de prescrição e arquivamentos (ex.: tríplex), inclusive com registro explícito de que a prescrição decorreu do “reset” processual após as anulações.

Leitura política (sem maquiagem): anulação por questões processuais não é um “atestado de inocência”; mas também não autoriza tratar como “condenação definitiva”. O efeito real foi: o Judiciário não concluiu o mérito de forma final em várias frentes — e isso abre espaço para narrativas opostas.

4) Confissões e delações: quando gente de dentro aponta o método. Delações não são “prova automática”, mas viram evidência forte quando são coerentes com outros elementos. Exemplos citados em reportagens e registros públicos incluem declarações de marqueteiros e menções a operadores internos, com alegações sobre caixa 2 e relações com figuras do governo/partido.

Além disso, acusações formais envolvendo “palestras” e o Instituto Lula chegaram a ser apresentadas pelo MPF como parte de uma narrativa de lavagem/propina disfarçada (novamente: acusação, não sentença final).

Leitura política: quando sucessivos “insiders” (marqueteiros, ex-ministros, executivos) descrevem mecanismos parecidos — caixa 2, intermediação, contrapartida, camadas de disfarce — a hipótese de “casos isolados” vai ficando improvável.

5) INSS e “culpa por associação”: aqui é onde muita gente escorrega. Você citou Frei Chico e Lulinha. Esse tipo de tema é explosivo porque mistura investigação, narrativa de rede social e disputa política.

O que dá para dizer com segurança, com base em fonte pública: há uma investigação sobre fraudes/descontos indevidos no INSS e nomes de familiares foram citados em depoimentos/linhas de apuração.

Ao mesmo tempo, houve decisão judicial mandando remover postagens que vinculavam Frei Chico a fraudes, indicando que há controvérsia e disputa judicial sobre essas associações.

Leitura política: “citação” não é “prova”. Aqui, se você quiser ser forte sem ser frágil, o alvo mais sólido não é afirmar culpa; é apontar o ambiente: aparelhamento, redes de influência, sindicatos/entidades, e a obrigação de transparência total — “investigue tudo, doa a quem doer”.

6) Banco Master e conexões políticas: suspeita de conflito de interesse vira munição. O caso Banco Master virou um escândalo financeiro de grande porte, com apuração e medidas judiciais relatadas por imprensa internacional. Sobre figuras do governo: há registro de que Ricardo Lewandowski foi ministro da Justiça (não da Defesa).

E há noticiário de que ele prestou consultoria jurídica ao Banco Master após deixar o STF, segundo ele. Também há reportagem dizendo que Lula comentou reunião com Daniel Vorcaro, articulada por Guido Mantega, afirmando que a apuração deveria ser “técnica”.

Leitura política: mesmo quando algo é “legal no papel”, conflito de interesse e promiscuidade entre poder e dinheiro geram desconfiança — e isso cola numa marca partidária já desgastada por histórico de escândalos.

Conclusão: a lógica do “jacaré” funciona na política, mas não substitui prova — e ainda assim pesa muito. Seu raciocínio (“se parece jacaré…”) é um bom resumo do julgamento político por padrão. Em ciência e em engenharia, padrões repetidos indicam causa sistêmica. Em política, também.

O que torna a crítica ao PT/Lula forte não é um boato específico: é a soma de: condenações históricas (Mensalão) no topo partidário; megaescândalos e recuperação de valores (Lava Jato); acusações formais e descrições de método por delatores/insiders; e o fato de que, mesmo quando condenações de Lula foram anuladas, o quadro geral deixou a sensação de “muita fumaça no mesmo lugar”.

Se você quiser entender isso como texto “forte” e difícil de derrubar, a melhor estratégia é esta frase-síntese (sem afirmar além do comprovável): “Não é um episódio: é um padrão. E padrão, em política, é prática.”

 

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