PENSAMENTO PLURAL Trump, María Corina e a sedução do Nobel, por Palmarí de Lucena

O texto do escritor Palmarí de Lucena analisa como o Prêmio Nobel da Paz deixou de ser reconhecimento para se tornar instrumento político imediato. Examina a cobiça de Donald Trump pelo prêmio e o dilema de María Corina Machado, que, ao buscar apoio externo, flerta com concessões simbólicas perigosas — do aceno a um Nobel “compartilhado” à validação de teorias conspiratórias eleitorais. “O resultado é o risco de troca de legitimidade interna por patrocínio externo, enfraquecendo a própria causa democrática venezuelana”, pontua. Confira íntegra...

O Prêmio Nobel voltou ao centro do tabuleiro internacional não como coroamento tardio de processos bem-sucedidos, mas como incentivo imediato — capaz de orientar discursos, apressar gestos e deformar prioridades. Quando um prêmio passa a influenciar a ação antes que os fatos a justifiquem, algo essencial se perde: o sentido do próprio reconhecimento.

É nesse terreno instável que se cruzam a cobiça de Donald Trump e o dilema, cada vez mais exposto, de María Corina Machado. Trump não disfarça sua obsessão pelo Nobel da Paz. Não o enxerga como consequência de um percurso coletivo e verificável, mas como troféu pessoal, certificado simbólico de grandeza. A diplomacia, nesse registro, vira vitrine: anúncios rápidos, acordos frágeis, sanções calibradas para manchetes. A paz é proclamada antes de existir.

A Venezuela surge, então, como palco conveniente. E é aqui que a sedução do prêmio revela seu custo. Ao acenar com a possibilidade — ainda que retórica — de um Nobel “compartilhado”, María Corina se aproxima perigosamente da lógica que transforma a luta democrática em moeda simbólica. Compartilhar um prêmio inexistente equivale a antecipar a glória antes da obra, oferecendo reconhecimento a quem ainda não entregou resultados concretos. Trump ganha narrativa; a causa venezuelana perde densidade.

Nesse mesmo movimento de alinhamento, a líder oposicionista foi além. No intuito de agradar Trump, ecoou a alegação de que as urnas eletrônicas usadas na eleição presidencial americana teriam sido “fabricadas na Venezuela” — uma afirmação já desmentida por instâncias técnicas e judiciais nos Estados Unidos. Ao fazê-lo, acabou validando, ainda que indiretamente, a teoria conspiratória de fraude eleitoral que corroeu a confiança democrática no próprio país cujo apoio ela busca. O problema não é apenas a fragilidade factual do argumento; é o efeito político: ao importar um discurso negacionista sobre eleições alheias, enfraquece-se o princípio que sustenta a denúncia das fraudes internas do chavismo.

A ironia é dura. Para denunciar a fraude estrutural do regime venezuelano, a oposição sempre se apoiou em critérios técnicos, observação internacional e verificabilidade. Ao corroborar, por conveniência retórica, uma narrativa conspiratória sobre eleições americanas, a causa democrática se desarma por dentro. O pragmatismo escorrega para a submissão; a estratégia cede lugar à concessão de princípios.

Não se trata de moralismo. Apoio externo é necessário quando a repressão é real e o custo pessoal da liderança é alto. O erro está em subordinar a causa ao calendário, à vaidade e ao niilismo estratégico de quem trata a política externa como transação. Democracias não se constroem em coletivas de imprensa. Exigem garantias eleitorais verificáveis, liberdades concretas, recomposição institucional e alívio real para a população — tarefas incompatíveis com a pressa do troféu.

Nesse jogo, a alegação de Trump de que María Corina “não é popular” na Venezuela funciona como alavanca retórica. Não é diagnóstico; é método. Em um país sem eleições livres, mídia plenamente independente ou competição justa, exigir popularidade segundo métricas convencionais é critério deslocado — e, por isso mesmo, útil para rebaixar o interlocutor. Ao lançar a dúvida, cria-se dependência: quem não é “popular” vira substituível; quem é substituível aceita condições piores.

A contradição é evidente. A liderança que mobiliza ruas sob repressão, sustenta redes cívicas e paga custos pessoais elevados passa a ser tratada como frágil porque convém enfraquecê-la no discurso. É técnica antiga: reduzir a legitimidade do outro para ampliar o próprio protagonismo. A Venezuela vira cenário; o ator principal, outro.

O risco imediato é trocar legitimidade interna por patrocínio externo. É um mau negócio. O servilhismo simbólico — seja na promessa de um Nobel compartilhado, seja na validação de teorias conspiratórias para agradar um aliado volátil — corrói a autonomia da causa e confunde liderança com dependência.

A pergunta que importa não é quem merece um prêmio, nem quem o dividiria. É o que muda, de fato, no dia seguinte: há cessar da repressão? há garantias eleitorais verificáveis? há alívio concreto para a população? Sem respostas presentes, o Nobel empobrece e a política vira ornamento.

Para María Corina Machado, o desafio é preservar a autonomia moral e política da luta venezuelana — vencer sem atalhos, resistindo à sedução de símbolos que prometem brilho rápido e cobram custo alto. Para Trump, a cobiça pelo Nobel revela o método: quando o reconhecimento vira fim, a paz vira performance. E, nesse jogo, a glória antecipada cobra seu preço em silêncio.

 

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