PENSAMENTO PLURAL… UFCG e a perda do espírito universitário, por Emir Candeia

Em seu comentário, o professor Emir Candeia questiona o papel realmente universitário da UFCG. “Quando a universidade deixa de ser um espaço de convivência intelectual intensa e passa a funcionar como mero ponto de passagem, perde-se algo essencial: a formação invisível, aquela que não aparece na ementa, mas molda o profissional e o pesquisador”, pontua. Confira íntegra...

Como instituição como o MIT se tornarem centros de excelência: Uma universidade de alto nível não é apenas sala de aula, prova e diploma. É convivência, presença, troca intelectual, cultura de pesquisa e formação humana contínua. No MIT, por exemplo, a residência no campus no primeiro ano não é tratada como detalhe logístico, mas como parte da experiência educacional. O próprio instituto destaca a vida em comunidade como espaço de conexão, liderança e desenvolvimento coletivo.

O MIT produziu mais de 100 laureados com Nobel e seus ex-alunos criaram milhares de empresas com impacto econômico gigantesco. Não é magia. É ecossistema. É o aluno vivendo cercado por colegas ambiciosos, professores acessíveis, laboratórios ativos e conversas que continuam depois da aula. É ali, no corredor, no restaurante, no alojamento, no laboratório e no contato informal, que muitas ideias ganham corpo. O conhecimento, nesse ambiente, não circula apenas por apostilas; ele circula entre pessoas.

O contraste com boa parte da realidade brasileira é duro. E, em Campina Grande, a UFCG infelizmente parece cada vez mais distante desse ideal universitário.

Campina Grande sempre revelou talentos. O problema hoje é a fragilidade do ambiente acadêmico como comunidade viva. Quando a universidade deixa de ser um espaço de convivência intelectual intensa e passa a funcionar como mero ponto de passagem, perde-se algo essencial: a formação invisível, aquela que não aparece na ementa, mas molda o profissional e o pesquisador.

Uma universidade forte , forma gente que aprende a argumentar, a discordar com respeito, a trabalhar em grupo, a procurar professor, a participar de projeto, a frequentar laboratório, a amadurecer pelo convívio. Quando isso enfraquece, o campus deixa de ser um centro de criação e vira um espaço burocrático de certificação.

É essa a sensação que hoje muitos têm em relação à UFCG: a de um ambiente fragmentado, frio e pouco orgânico. O aluno chega, assiste ao que for estritamente necessário e vai embora. Não permanece. Não circula. Não cria vínculo mais profundo com a instituição. Não encontra, com frequência suficiente, um ambiente que o convide a ficar, conversar, experimentar, errar, refazer e crescer.

Pior ainda: quando a presença docente se reduz ao mínimo formal, a universidade perde densidade. Professor não é apenas alguém que transmite conteúdo em horários marcados. Professor universitário também deveria ser referência intelectual visível, presença de corredor, orientador acessível, provocador de ideias, articulador de grupos e inspirador de vocações. Quando esse papel desaparece ou se enfraquece, a universidade começa a se parecer com um ambulatório educacional: o aluno entra, recebe a “receita” da disciplina e volta para casa. Aprende o suficiente para cumprir tabela, mas não vive a experiência universitária em sua plenitude.

Ideias mais ousadas quase nunca nascem do isolamento. Elas nascem do atrito produtivo entre pessoas inteligentes, curiosas e presentes. Nascem quando um aluno conversa com outro , quando um professor enxerga potencial num jovem ainda inseguro, quando um grupo se forma espontaneamente em torno de um problema real. Sem essa vida comunitária, a universidade perde a capacidade de virar usina de projetos, startups, patentes, grupos fortes de pesquisa e lideranças técnicas.

Não se trata de idealizar que o MIT pode ser copiado integralmente na UFCG. Seria ingenuidade. Mas há uma lição universal que não depende de orçamento bilionário: excelência acadêmica exige presença humana real. Universidade não é só grade curricular. Universidade é ambiente. E ambiente se constrói com gente disponível, engajada e comprometida com algo maior do que a própria carga horária.

Não se trata de atacar professores individualmente. O problema é maior do que pessoas isoladas. Trata-se de uma cultura institucional que, quando tolera distanciamento excessivo, convivência rarefeita e vínculos acadêmicos superficiais, empobrece a experiência estudantil. O prejuízo não é apenas afetivo. É intelectual, científico e profissional.

A UFCG tem história, tradição e capital humano para ser muito mais do que isso. Mas, para isso, precisa recuperar o espírito universitário. Precisa voltar a ser lugar de permanência, e não apenas de passagem. Lugar de comunidade, e não apenas de matrícula. Lugar de encontro entre mestres e alunos, e não de simples cumprimento de agenda.

Hoje, em muitos aspectos, o drama da UFCG parece ser justamente este: ela continua sendo universidade no nome, mas corre o risco de deixar de ser universidade no sentido mais profundo da palavra.

 

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