
A polarização enfraquece o Brasil, transforma adversários em inimigos e subordina o interesse nacional à disputa pelo pode, alerta o escritor Palmarí de Lucena. Governar exige responsabilidade; legislar, negociar e fiscalizar exigem compromisso público. Em um mundo movido por interesses, a divisão interna reduz a força de negociação do país. O Brasil não precisa de unanimidade, mas de maturidade política para converter diferenças em soluções e defender seus objetivos estratégicos. A campanha termina na urna; a responsabilidade com a nação começa no dia seguinte. Confira íntegra…
Polarização, responsabilidade pública e os interesses permanentes do Brasil
O Brasil corre o risco de transformar a polarização política em uma forma de enfraquecimento nacional. Enquanto suas lideranças buscam conquistar e preservar o poder explorando ressentimentos, acusações e antagonismos, o país perde capacidade de enfrentar seus problemas internos e defender seus interesses no exterior. A contradição é evidente: a retórica que mobiliza eleitores nem sempre prepara alguém para governar. Vencer uma eleição exige conquistar maiorias; governar um país exige responsabilidade, competência e capacidade de negociar com um mundo que não vai esperar que os brasileiros se entendam.
A democracia não exige unanimidade. Exige, porém, que as divergências sejam tratadas dentro de limites compatíveis com o interesse público. Quando o adversário é apresentado como inimigo e qualquer concessão se torna sinal de fraqueza, a política deixa de ser um instrumento de solução e passa a alimentar antagonismos. Enquanto os grupos políticos medem forças, o Brasil continua precisando de crescimento econômico, empregos, segurança pública, educação de qualidade, serviços de saúde eficientes e contas públicas sustentáveis. Esses desafios não se resolvem com discursos inflamados nem com a transferência permanente de responsabilidades.
É na passagem da campanha para o governo que se revela a diferença entre conquistar o poder e saber exercê-lo. Na eleição, candidatos procuram convencer, mobilizar eleitores e apresentar propostas. O problema começa quando a conquista dos votos depende mais da desqualificação dos concorrentes e da exploração do medo do que da consistência das soluções. Encerrada a votação, a lógica precisa mudar: o candidato deixa de falar apenas aos próprios eleitores e passa a governar toda a sociedade, inclusive aqueles que não votaram nele. Já não basta denunciar problemas; é preciso enfrentá-los. Não basta prometer prosperidade; é necessário criar condições para alcançá-la.
A campanha pode premiar quem melhor mobiliza paixões; o governo exige de quem melhor administra a realidade. A vitória nas urnas confere legitimidade para exercer o poder, mas não comprova, por si só, capacidade administrativa. O mandato não é propriedade do vencedor nem autorização para prolongar indefinidamente a campanha eleitoral. É uma responsabilidade pública. Antecessores, oposição e crises internacionais podem explicar parte das dificuldades de uma gestão, mas não devem servir de justificativa universal para seus fracassos. Cabe a quem governa prestar contas, corrigir erros e explicar suas escolhas. A população tem o direito de avaliar a administração pelo que foi feito, não apenas pelo que foi anunciado.
Essa cobrança não deve se confundir com a expectativa de que todo problema possa ser resolvido imediatamente, nem ignorar limites orçamentários, institucionais ou externos. Governar envolve escolhas difíceis, prioridades concorrentes e consequências que nem sempre são previsíveis. Justamente por isso, transparência, critérios claros e disposição para rever decisões são indispensáveis. A prestação de contas não é um favor do governante: é parte essencial da responsabilidade democrática.
O problema não se limita ao Executivo. O Congresso Nacional também tem responsabilidade na qualidade da vida pública. Quando a atuação parlamentar se concentra em ataques, discursos inflamados e obstruções recorrentes, enquanto faltam propostas consistentes e disposição para negociar, o Legislativo corre o risco de trocar sua função institucional pelo espetáculo político. O Parlamento existe para representar a sociedade, elaborar leis, fiscalizar o Executivo e mediar interesses divergentes — não para confundir o volume do ruído com a força de uma ideia, nem a capacidade de bloquear decisões com a capacidade de legislar.
A fiscalização rigorosa é indispensável, assim como uma oposição capaz de impedir abusos. Divergir do governo não é falha institucional; pode ser uma de suas garantias. Mas fiscalizar não é simplesmente obstruir, e contestar não dispensa a apresentação de alternativas. Um mandato parlamentar deve ser avaliado pela qualidade das leis, pela consistência das propostas, pela independência da fiscalização e pela contribuição ao interesse público. O governo não deve exigir submissão, e o Congresso não deve tratar toda negociação como capitulação. Entre a obediência cega e a obstrução permanente está o espaço próprio da política democrática: debate fundamentado, negociação transparente e compromissos sujeitos à avaliação pública.
Essa questão ultrapassa as fronteiras nacionais. As relações internacionais são movidas por interesses econômicos, comerciais, políticos e estratégicos. Países procuram ampliar mercados, garantir recursos, atrair investimentos, proteger tecnologias e consolidar influência. Nesse ambiente, a coesão interna é um ativo: objetivos claros e instituições capazes de sustentá-los aumentam a previsibilidade e fortalecem o poder de barganha.
Um Brasil consumido por rivalidades permanentes corre o risco de transformar sua política externa em extensão das querelas domésticas. Acordos passam a ser julgados pela identidade de quem os negociou, e não apenas por seus termos; compromissos estratégicos ficam sujeitos às alternâncias de governo; decisões de longo prazo podem ser sacrificadas em nome de vantagens eleitorais imediatas. A continuidade não exige que governos diferentes adotem políticas idênticas, mas que mudanças de orientação sejam justificadas pelo interesse nacional, e não apenas pela necessidade de desautorizar quem veio antes.
Não é preciso supor conspirações estrangeiras para reconhecer o risco. Cada país procura defender seus próprios interesses e aproveitar as oportunidades que encontra. Quando as fragilidades internas de um parceiro limitam sua capacidade de decisão, outros atores podem obter vantagens comerciais, políticas ou estratégicas. Um país dividido não está condenado à derrota, mas pode negociar em condições menos favoráveis quando sua própria instabilidade obscurece prioridades e reduz a confiança na continuidade de seus compromissos.
O Brasil dispõe de recursos naturais, capacidade agrícola, matriz energética diversificada, mercado consumidor expressivo e potencial científico e industrial. Essas vantagens, contudo, não garantem influência por si mesmas. Precisam ser convertidas em produtividade, desenvolvimento, inovação e capacidade de negociação. O tamanho do país oferece possibilidades; a qualidade das escolhas públicas determina em que medida elas serão aproveitadas.
Buscar entendimentos mínimos entre as forças políticas não significa eliminar a oposição, silenciar críticas ou exigir unanimidade. Significa reconhecer que a soberania, a estabilidade institucional, a competitividade econômica e a autonomia estratégica não devem ficar subordinadas às conveniências eleitorais. Governos passam e partidos se alternam; os interesses permanentes da nação exigem continuidade, ainda que os meios para defendê-los sejam objeto de debate legítimo.
Uma democracia madura não precisa abolir suas divergências; precisa impedir que elas inviabilizem objetivos comuns. Cabe ao governo administrar e prestar contas; à oposição, fiscalizar e oferecer alternativas; ao Congresso, legislar com independência e responsabilidade; e à sociedade, cobrar de todos o cumprimento de suas obrigações. Nenhuma instituição deve ser imune à crítica, mas nenhuma rivalidade partidária deveria estar acima do interesse público.
O mundo não suspenderá a competição econômica e geopolítica enquanto o Brasil resolve suas diferenças internas. Os mercados mudarão, as oportunidades surgirão e outros países continuarão defendendo suas prioridades. A questão é se o Brasil estará preparado para atuar com clareza e consistência ou se desperdiçará energia em embates que rendem dividendos eleitorais, mas pouco contribuem para um projeto nacional duradouro.
Vencer uma eleição é conquistar o direito de governar; governar é assumir a responsabilidade pelas próprias decisões. Defender o Brasil exige também reconhecer que nem todos os interesses nacionais cabem na lógica da rivalidade partidária. A força de uma nação não depende de seus cidadãos pensarem da mesma maneira, mas da capacidade de suas instituições de defender objetivos comuns apesar das diferenças.
A campanha termina na urna. A responsabilidade pública começa no dia seguinte. Em um cenário internacional movido por interesses, a divisão interna não é apenas um problema político: pode se tornar uma desvantagem estratégica. O Brasil não precisa de unanimidade, mas de maturidade para distinguir a legítima competição pelo poder da responsabilidade de construir uma nação capaz de defender seus próprios interesses.
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