PENSAMENTO PLURAL Vestiram a carapuça, por Durval Leal Filho

Em seu comentário, o cineasta Durval Leal Filho cita uma crônica de Nelson Rordrigues, “Perdoa-me por me traíres”, em que o autor expõe toda a hipocrisia da burguesia, mas tem como mote resgatar recente passado da Paraíba, especialmente no escândalo caso da perseguição aos servidores do Ipep, que revelou os bastidores de um dos momentos mais sórdidos da política do Estado. “Há quem se ofenda quando alguém resolve lembrar”, pontua, lembrando. Confira íntegra...

PERDOA-ME POR ME TRAÍRES.

Várias vezes já comentei, nas minhas crônicas onde trato de “Subjetividade Aleatória”, que sou fã incondicional de Nélson Rodrigues. Imaginemos a década de 50: Nélson Rodrigues, dramaturgo, cronista diário respeitadíssimo no Rio de Janeiro, burguês vindo do Recife, escreve com toda sinceridade o que vê e o que percebe da sociedade carioca e das famílias tradicionais que vivem em seu entorno.

Nélson Rodrigues escreveu das pernas tortas de Garrincha às felicidades que Pelé trazia ao povo brasileiro, diante das angústias da final da Copa de 50. Em 1957, o Brasil ainda não tinha ganho a sua primeira Copa. Ele sentenciou “PERDOA-ME POR ME TRAÍRES” é uma crônica burguesa que fala da traição, fala daquilo que há de mais real na sociedade: a hipocrisia, as falsidades que assolam as famílias.

As famílias, em si, trazem no seu entorno tanto as coisas mais belas quanto as mais ultrajantes que se conquistam e se constroem na sociedade. São as hipocrisias, as ranhuras internas, que servem para mascarar suas fragilidades. A aparência de estabilidade esconde fissuras profundas, silenciosas, cultivadas no cotidiano da convivência.

Acredito que, hoje, Nélson Rodrigues seria cancelado. Seria cancelado por vários grupos de WhatsApp, por vários amigos, por vários colegas de profissão. Porque a sinceridade que Nélson Rodrigues levava à tona, além de incomodar, apontava. E apontar sempre foi uma coisa frágil, porque o que se aponta retorna diretamente para o peito de quem aponta.

Ele viu isso claramente na década de 60. Um homem de direita, que apoiou o golpe militar de 64, viu seu filho ser preso e torturado. Quando ele enaltecia a necessidade do governo militar de reprimir com força aquela “baderna”, não imaginava que a violência atravessaria a porta da sua própria casa.

Quando ele viu o filho torturado, mudou completamente a sua posição. E, no seu silêncio, mostrou a sua fragilidade diante do que se sente e do que se sofre. Ele vestiu a carapuça. É isso o que acontece quando, hoje, pessoas que se envolveram com governos corruptos da Paraíba se acham injustiçadas, perseguidas, sentem-se infligidas com a lembrança.

Acreditam que tudo, com o tempo, é esquecido. De fato, o tempo faz esquecer muita coisa. O tempo é senhor das horas e primo da solidão. O tempo é cruel porque desmascara toda face estabelecida por aqueles que se dizem senhores, ditadores de narrativas e de versões.

Mas não há como esquecer. Não há como esquecer o governo dos girassóis irmanados na Paraíba. Não há como esquecer porque eles submeteram pensionistas e aposentados a condições que levaram ao sofrimento e à perda de dignidade. O caso do IPEP foi uma das maiores barbáries já cometidas contra pessoas que dedicaram suas vidas ao serviço público, que trabalharam pelos outros e foram abandonadas.

Um governo mesquinho e arrogante, durante anos, tirou desses velhos a possibilidade de ter uma vida digna. E, quando a gente lembra toda essa devassidão e perversidade humana, dizem que estamos sendo desonestos. Mas desonesto é tentar limpar o que aconteceu. Esse mesmo governador, brevemente, será candidato a algum posto onde possa cometer a que traz sua gênese.

Ninguém quer revirar um monte de cinzas. Mas existe uma brasa acesa lá embaixo. E é nessa brasa que está a dor adormecida. A dor de quem viu sua mãe perder a visão, perder aquilo que tinha de mais rico na sua velhice: a capacidade de ver, de reconhecer, de lembrar através das imagens.

Olhar o filho que envelhece junto com ela. Mas aquele governo, de tão famigerado, fez com que ela sofresse tanto que levou embora a sua visão nos poucos anos que ainda lhe restavam. Isso não é narrativa. Isso é marca. Isso é memória viva.

Assim, quando a gente chama à tona que precisamos esclarecer, lembrar que existiu um governo corrupto, que passou anos surrupiando na educação, na saúde, machucando pensionistas, aposentados e velhos, eu não estou fazendo nada além do que alertar.

Porque vale a pena alertar. Porque a história se repete. Porque o filho do golpista Bolsonarista está aí. Porque estamos sempre à beira de novos ciclos de poder travestidos de novidade, mas sustentados por velhas práticas.

Os Bolsonaros são isso, golpistas. Há quatro anos avisamos, mostramos que haveria retorno, que haveria repetição. A volta do Lula foi anunciada como solução, mas também carregou sua própria configuração de corrupção, de alianças, de contradições.

Basta ver o Lulinha, o filho, diretamente ligado a casos questionáveis, as relações obscuras. “Diga com quem tu andas que eu te direi quem és” continua sendo uma máxima válida. Se o pai se envolveu em esquemas como mensalão e petrolão, se houve trocas de favores, construções e vantagens indevidas, não se pode fingir surpresa.

Tristeza maior é ver famílias vestindo a carapuça. Famílias que se sentem magoadas porque alguém ousou lembrar o quanto foi corrupto um governo. O quanto foi corrupto um sistema. O incômodo não é com o erro, é com a lembrança do erro.

Vestem a carapuça porque mostrei que o próprio governo que eles elegeram não teve os escândalos que eles mesmos ajudaram a perpetuar durante anos. Às vezes, a máxima pode ser quebrada, mas raramente sem custo.

O atual governador, da Paraíba, que conviveu por anos com aquele ambiente de falcatruas, não vestiu a carapuça. Até o momento, não há escândalos equivalentes, não há evidências do mesmo padrão. Isso incomoda ainda mais. Porque desmonta a narrativa confortável.

Vestir a carapuça não é questão de dignidade. É questão de esconder. É tentativa de mascarar aquilo que há de mais vil dentro das famílias: a hipocrisia. A necessidade de proteger o “seu”, mesmo quando o “seu” está errado.

Ladrão é ladrão. Corrupto é corrupto. Não adianta relativizar. Não adianta dizer que é perseguição quando há denúncias, quando há provas, quando há investigações. O problema é que, no Brasil, a verdade frequentemente se dissolve.

Processos são trancados. Narrativas são reescritas.

A memória coletiva é anestesiada. E, ainda assim, há quem se ofenda quando alguém resolve lembrar. Quando alguém se recusa a participar desse pacto silencioso de esquecimento.

Nélson Rodrigues foi cancelado, foi ultrajado, mas nunca deixou de expor a falsidade que impera dentro das famílias. Quanto mais sujas, mais tentam parecer limpas. Quanto mais comprometidas, mais se agarram à aparência.

A mulher de César não basta ser honesta, ela precisa parecer honesta. E é exatamente aí que mora o incômodo. Porque, quando a aparência não sustenta a realidade, alguém precisa dizer.

NÃO VISTA A CARAPUÇA, MON AMOUR.

 

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